Ingeniosa

Como vocês sabem, até segunda ordem terminou anteontem o prazo para as bibliotecas públicas gastarem seus milionários 25 doados pelo governo federal, o que eu não achei barato, francamente, em livros do Portal Nacional — esses sim, muito baratos, apenas 10 reais cada um, acreditem, é isso mesmo; e todos tradicionais, feitos de papel e cola, nada dessa pechincha de digital a que vocês já devem estar (se) acostuma(n)do, não, caros. Coisa de primeira, digo, de “primeiro mundo”, para incentivar a leitura num mundo que, por mais que se diga e propague o contrário, pelo menos aqui na nossa ponta do mundo lê cada vez menos, um hábito que caminha para o desuso: o IBGE publicou com todas as letras durante a semana que o número de livros lidos por brasileiros caiu em um ano aí por volta de 0, 07%  — provavelmente me engano nos zeros, sou ruim de conta mas não tanto quanto o querido Ruy Castro, que declarou à Veja, vejam só (ou foi na Folha onde ele escreve e que deve estar lutando pra não desaparecer, a gente entende), que “não há demanda de eBooks no Brasil. Isso é um fiasco colossal, as pessoas estão satisfeitas com o livro de papel. O eBook é uma imposição da Amazon”,  pois é, deixei até a grafia errada pra não me comprometer com a citação, não é por nada não, mas o Ruy mais parece o amolador de faca ambulante da minha rua querendo impedir o avanço da Kyocera, aquela japonesa de fio eterno, sabem como é.

O que será, será. Preparem-se. O futuro virá e toda mentira se desmentirá. Está escrito, isto é, gravado, pouco adianta adiar,  pô, parem então de nos amolar, certo?

Tem no Brasil de hoje em dia, é verdade, esse lobby antiamazônico que se pensa poderoso e é mais enganoso que o de certo cascateiro, ops, Cachoeira, também em pauta na mídia da semana, argh — e provavelmente tão corrupto quanto —, querendo deixar o país pra trás, mas não vamos falar sobre isso agora. Só no próximo parágrafo. Voltemos à Biblioteca Nacional.

Eu, como vocês sabem, sou idealista desde criancinha, um mal incurável como todo mundo sabe. Aprendi com papai, um sujeito que preferia honra a dinheiro, acreditem, mas não viveu o suficiente para provar que era correto o seu anacrônico ponto de vista, morreu jovem, o pobre — ou pobre de mim, que fui órfã tão jovem e não consigo até hoje superar isso —, nem deu pra ele perceber que todo idealista nada mais é do que um eterno iludido, coisa que pra mim ficou óbvia demais, até. Mas como é de pequenino que se torce o pepino, minha visão das coisas, graças a meu pai sionista, ficou distorcida para sempre, e eis me aqui, patética, 60 anos e ainda uma ingênua mocinha que algumas vezes por dia se considera um autêntico gênio da tecnologia, taí, outra cachoeira que cai e corre, passa, se afasta eletronicamente de mim.

Conversa vai conversa vem, fui com tudo no plano da Biblioteca Nacional, BN para os íntimos, uma coisa maravilhosa, eu achava, sinceramente. Cadastrei todos os livros da editora direitinho, botei lá certinho por 10 reais e ainda me dei ao trabalho de pedir autorização aos meus autores para pagar-lhes menos direitos autorais sobre os milhões vendidos, sabem como é, honestidade é como uma doença não contagiosa, se a gente der muito mole, se esforçar bastante, pega, acaba pegando. E tudo no prazo combinado, que se não me engano era… bom. Deixa pra lá. Foi tão esticado que nem no Google dá pra saber qual era o prazo original de 31 de dezembro. E qual não foi o meu espanto quando comecei a entender diretinho do que se tratava: uma farra financeira para os intermediários que, pelo que eu entendera — tá certo, acabo de perceber que de governo eu não entendo nada, ou muito pouco —, não teriam acesso ao que se tornou mais uma, desculpem o termo, boa bandalheira de 25 milhões de reais.

Vou encurtar a história porque ela é muito ruim. Quando eu já tinha até me esquecido do tal Portal do Livro, cujo logotipo orgulhosamente coloquei até no nosso concorrido mural, começaram a chegar os pedidos de um ou dois livros, comprados por distribuidores e por isso mesmo tornando obrigatório um desconto que eu jamais poderia conceder, e ainda por cima tendo que ser enviados para partes do Brasil que a gente nem sonharia em atingir, bem, essa foi a parte boa. A péssima, uma delas, é que o primeiro pedido enviado já foi calote no ato, tô aqui pensando se vale a pena pedir a falência de uma livraria por uma dívida de 22 reais (os 12 são frete), o que vocês acham, hein?

Bom. A sorte deles, dessa livraria caloteira, digo, é que algum tempo atrás eu fixei o mínimo valor pra me dar ao aborrecimento em R$20, com um pouco de inflação posso reajustar para R$30, e eles que façam bom uso do livro que me roubaram, literalmente, e que foi pago pelo governo. Mas não para mim. Ingênua, eu.

Minha caixa postal tá lá agora estourada com vários pedidos de um ou dois livros mais a solicitação do desconto e do frete por minha conta, eu, hein. E ainda por cima, o meu lado idealista anda pensando, juro por Deus, em enviá-los, porque, afinal de contas, trata-se de um projeto idealista, este de levar os livros de meus autores a leitores dos cantos mais recônditos deste país que não lê, ou que lê cada vez menos segundo dizem. Mas estou resistindo, pelo menos até que o prazo termine. Amarrei minhas mãos com cabos de aço e espero esquecer rapidinho os tais “pedidos de compra do Portal do Livro”, mesmo porque só de frete não reembolsado seria um tremendo prejuízo que não posso ter.

Vamos combinar que o mínimo razoável seria que os livros fossem comprados todos juntos pelo “sistema”, enviados para uma central e dali, sim, distribuídos para todas as bibliotecas postulantes, mas isso é o que pensa alguém que quer que a coisa funcione, e não o contrário. Tá certo. Foi esse um dos problemas que enfrentei esta semana por ser não uma gênia (sic), mas uma ingênua, uma ovelha desgarrada num mundo de lobos muito bem treinados. O outro, felizmente, não dá mais pra contar porque o tamanho da crônica também estourou, ainda bem, ou eu teria que lhes confessar como caí no conto do vigário do sigilo profissional. Fica pra próxima vez, mesmo porque ainda estou esperando ser recompensada um dia por minha honra e respeito aos compromissos, quem hoje em dia em sã violência esperaria isso?

Ah, antes de terminar a crônica deixa eu contar pra vocês o que provocou todo esse assunto, nada mais que uma confusão semântica em inglês, língua sábia (corroborada por Alan, claro, meu chefe de pesquisa), onde “ingenious” — intelectual, talentoso, genial — soa exatamente como “ingenuous” — ingênuo, inocente, bobo, mas que em seu nascimento como vocábulo, em 1500 e qualquer coisa, significava, acreditem, alguém de espírito nobre, livre, franco, honesto, direto e de mente superior — confusão que até Shakespeare fazia, não só fazia como provocou, podem conferir no link.

E um bom domingo procês, antes que seja segunda-feira, arre que escrever me faz um bem danado. Desopila.

 

 

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