Indiferença

A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu
tamanho original.

Albert Einstein

 

É impressionante como podemos passar às vezes a vida inteira com determinadas certezas que se mostram, em algum ponto de nossa existência, absolutamente errôneas. Foi o que se deu comigo em relação aos gatos.

Quando muito pequena, ganhei um gatinho branco muito lindinho, mas que se revelou em incrível criadouro de pulgas. Eu estava encantada com o bichaninho e tinha convicção de que ninguém neste mundo poderia deixar de gostar do bichinho. Foi quando chegou minha mãe:

— Olha, mamãe, o que ganhamos. — Eu já estava dividindo o presente para não correr o risco de ser chamada de egoísta, de ser acusada de querer ficar com aquela belezinha só para mim.

— Onde você arranjou isso?

— Foi o moço que mora aí na casa ao lado que me deu. A mãe dele ganhou muitos filhinhos e não pode ficar com todos, então ele quer dar para a gente.

Até aquele instante eu estava com o gatinho no colo e mamãe ainda não tinha se aproximado; mas foi aí que ela chegou mais perto e pode observar todos aqueles pontinhos escuros se movendo freneticamente pela pelagem branquinha no animal. Correu, pegou uma caixa de sapatos e mandou que eu colocasse o pobrezinho lá. Pela cara meio desesperada que ela fez, achei melhor obedecer e questionar depois.

— Mas, mamãe, coitadinho, ele vai ficar com frio.

— Você leve imediatamente esse bicho imundo para o lugar de onde ele veio, aliás vou mandar a Amélia levar. Você pode ir já tomar um banho para se limpar um pouco. Espero que não tenha pegado nenhuma doença.

Comecei a sentir aquele calor no rosto que parece que vai explodir, e as lágrimas vieram aos borbotões. Quando Amélia esticou os braços para pegar a caixa de sapatos, senti que era como se alguém estivesse me arrancando as entranhas: é incrível como as crianças e adolescentes sentem tudo com muito mais intensidade do que nós, adultos, e parece que quanto mais vivemos menos nos afetam os dissabores, as desilusões. Entretanto, acho que aumenta a capacidade de amar, aquele amor paciente e tranquilo.

Resumindo a história do gatinho, nunca mais o vi. E sobrevivi, ao contrário do que pensam muitos quando não querem contrariar nenhuma vontadezinha dos filhotes. Aprendi a lidar com isso e nunca mais quis saber de gatos, que, com o passar dos anos, comecei a considerar falsos, sorrateiros, não amorosos… até que um dia…

Bem, minha filha adora todos os animais, e dentre cobras e lagartos —literalmente — resolveu trazer uma gatinha que adotou nos Estados Unidos. Quando ela ainda estava lá, eu já ficava meio de longe, com medo de levar uma unhada ou coisa parecida. Mas acabei me encantando.

Não se pode esperar arroubos de alegria quando se chega em casa, nem rabinhos abanando, somente um arzinho blasé quando ela vem me receber no alto da escada como se estivesse passando ali por acaso, mas a gente sabe muito bem que ela pressente nossa chegada muito antes do barulho do carro entrando na garagem. O máximo que ela faz é permitir que façamos carinhos em suas costas, e agora que está à vontade, até a barriguinha rosa ela expõe para que passemos os dedos por ela.

Moral da história: precisamos manter nossas mentes abertas e aceitar novos desafios. Saber que não somos donos da verdade.

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Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

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