Independência ou mágoa

Dois excelentes motivos para desejar ficar "pra tia"
Dois excelentes motivos para desejar ficar “pra tia” (Álbum da família… deles)

Alan já estará de volta nesta terça, felizmente. E como esperado, não estou pronta para recebê-lo. Vocês me entendem. Ele viajou deixando em suspenso uma situação de crise, conflito, confronto, que com o tempo e o devido desconto acabei creditando a meu próprio comportamento exclusivista, pouco atencioso, mergulhado no trabalho. E foi isso que decidi transformar enquanto ele se dedicava aos do lado de lá, mas qual o quê: já está voltando e não dei conta de terminar tudo que estava atrasado e por fazer, embora tenha trabalhado em muitos desses dias solitários noite adentro, até o calendário virar. Não deu. Fazer o quê.

Foram dois dias sozinha em casa para que a saudade tomasse conta e passasse a cobrar seu tempo, mais, às vezes, do que o próprio motivo de a saudade existir. Nesses únicos dois, me espalhei, me libertei, me reinventei, promovi uma revolução caseira — revolução visual, é claro — da qual  Alan agora — coitado, pelo skype, já se preparando para o retorno, acordado de madrugada (lá é madrugada)  — se preocupa se dará conta: “Eu ficaria muito triste se chegasse em casa e não gostasse da redecoração, pobre de mim”.

É, sou ruim de surpresa, sabem como é. Basta encontrar algo em que vejo beleza e já fico ansiosa por compartilhar, por telefone, email, Facebook, digam aí. Ansiosa, aliás, é meu nome do meio, sempre fui assim. De vez em quando isso me favorece, mas na maior parte das vezes ajuda a me derrubar.

Bem que mamãe me avisou: “Se você quer o amor de alguém, tem que batalhar para conquistar”. É, não batalhei. Pelo menos, não o suficiente. Tomei conta desse menino quando ele era bebê. Foi só uma vez, mas mesmo assim, tomei. Ele não parava de chorar e eu não sabia o que fazer, nem lembro como o (me) acalmei. Depois, quando era grandinho, o levei ao cinema para ver “Toy Story” no Barra Shopping. Tá certo. Só uma vez. Mas isso, vamos combinar, porque a mãe dele nunca me deu vez. Assim fica difícil que me torne uma excelente tia, cargo para o qual, aliás, pareço não ter o menor talento.

Enquanto ele crescia lhe dei três presentes significativos, significativos para mim, é claro: um dinossauro de colecionar e montar, uma pipa para ele empinar (que garoto curte pipa hoje em dia? mas eu cur… tia, ai, desculpem), e um cartão de crédito com grana pra ele gastar antes que tivesse o seu próprio. Não foi o suficiente.

Pois hoje em dia o garoto é homem feito, charmoso, engenheiro formado. Decidiu trabalhar na Alemanha, fazer o quê, que seja feliz no além-mar. Quanto a mim (nós), o que já era um relacionamento distante ficou distante pra valer, virou skype com vídeo de vez em nunca e olhem lá.

A verdade é que tenho uma puta dificuldade de ser alguém além de eu mesma, não tenho tempo pra isso. Quem quiser me compartilhar precisa querer muito, e saber se virar ainda por cima. Nem é que eu seja egoísta nem autocentrada, não sou, sou apenas muito ocupada, não só na vida como na mente que nunca para, seja pra ser esposa dedicada, amiga, irmã ou tia, quatro papéis cruciais com os quais, se eu fosse mais sábia, nunca brincaria.

Ainda este mês me preparei para exercer mais uma vez o papel de esposa, irmã e tia, imaginem, todos no mesmo dia. Explico. Meu sobrinho chegou da Alemanha para uma breve visita ao Rio e Alan viajou pro Havaí na noite do mesmo dia, saindo do aeroporto no Rio, claro. Como tenho uma mente muito careta e organizada, fui logo traçando o roteiro perfeito: deixo o Alan no Tom Jobim e em vez de voltar para casa tomo o rumo do Rio, durmo na casa do meu irmão, visito os sobrinhos e dou uma boa lustrada na minha imagem amorosa em família, bom projeto, não é mesmo?

Mas, amigos, desculpem. Não fui capaz. Sentia-me tão esgotada quando Alan se postou com a mala arrumada — cansada de brigas, de atrasos, de noites maldormidas, de livros não publicados esperando edição — que tudo o que queria era voltar pra casa depois da temporária despedida, cair na cama por uma semana antes de me atirar na virada e acabar de vez com a bendita espera na fila (afinal de contas, estou ficando velha e talvez perdendo aquele pique impossível). Enquanto não tinha marido pra reclamar da cama vazia e do almoço sempre atrasado, quando não sai queimado, vocês me entendem. Mas não a maioria.

Contratei o jardineiro que faço às vezes de motorista (não gosto de subir a serra sozinha à noite) e convidei irmão & cia. pra virem almoçar depois do carnaval, crente que o convescote amoroso iria finalmente se materializar, afinal de contas, tenho uma casa fantástica num dos destinos mais cobiçados do mundo — bem, pelo menos do Estado do Rio —, embora não receba assim tantas visitas da família.

O caso é que quando entendi que a coisa não se realizaria — o sobrinho querido dedicado às múltiplas bandas do Rio e a seus amigos mais dedicados do que eu, para quem meros 100 quilômetros a percorrer não eram assim um obstáculo intransponível (como para mim, que odeio dirigir), o irmão às voltas com um pneu furado que teve que ser substituído —, e que meu sobrinho já voava de volta naquela noite a seu exílio escolhido… amigos. Baqueei. Quase chorei. Fiquei muito triste por não ter sido brindada com a atenção que eu acreditava que merecia, não por ser uma editora bem-sucedida, ou uma autora de livros que têm ido bem na fita, mas por ser, simplesmente, uma velha tia.

Pois é. Por outro lado, me lembrei daquele velho amigo — que se sente tão preterido que me adiciona e me corta do Facebook ao sabor da carência que o fere e revolta, pois se sente mais importante do que a importância que consigo lhe dar de volta, mesmo sendo um amigo real, anterior à febre virtual. Cláudio sempre me dizia: “A família é a morte do artista.”

Mas o artista não morre, embora agonize no dia-a-dia. Resiste, ainda que o rechace a rotina com sua banalidade e insidiosa falta de ousadia. O que morre no artista é justamente o impulso para as pequenas coisas do dia, o que vai aos poucos, mesmo que ele perceba, lhe garantindo uma velhice solitária, autoenrustida, um relacionamento tendencioso e incestuoso com seu próprio presumido e autofestejado umbigo, afinal de contas, sou tão bacana, por que será que ninguém quer nada comigo?

É isso aí. Estou velha na cara e no corpo embora ainda cultive a mente de uma… adolescente carente. Francamente. O único consolo para uma velhice producente é tornar-se emocionalmente independente.

E um bom domingo procês. Tchau.

 

 

6 comentários em “Independência ou mágoa

  • Pingback: Noga Sklar | Independência ou mágoa

  • 27/02/2013 em 12:55
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    Oi Noga, Nao e’ por ser uma “velha tia”. Console-se. Tive quatro filhos, oito netos, sao 6 bisnetos, sei que me amam, mas nao temos mais, como antes, aquela casarona, com a mesa onde cabiam todos, o calor das noites de baralhos e criancas para dormir. Estao todos espalhados pelo mundo, cada qual com sua busca preferida, como seu sobrinho, e so’ me resta saber que me amam, mas o tempo de hoje nao e’ mais “aquele”. So’ nos resta os amigos do Facebook, que alias, enchem nossos coracoes e confortam nossa alma. Ate os “repasses” a gente curte. E sabemos dos entes queridos tambem. Bendito Facebook.

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    • 24/02/2013 em 10:09
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      Obrigada, Pri. Vocês são a minha família!

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