Homem ao mar

Existe na sociedade moderna um chamado para a natureza, para a vida ao ar livre. Presos em grandes cidades e em pequenos apartamentos, este apelo se torna para nós irresistivel.

Olemar e Cinthia, um casal de amigos, sofreram esta influência. Principalmente para Olemar, funcionário administrativo em uma grande empresa, a sensação de falta de liberdade e opressão de espaço tinha chegado a um nível de stress que ele não estava suportando. Ciente disso, Cinthia não se espantou quando ele um dia chegou em casa e declarou:

— Vou comprar um barco!

Ela ainda tentou argumentar com o jovem marinheiro. Lembrou-lhe que moravam na região central do país e o rio mais próximo, fora o pequeno ribeirão que atrevessava a cidade e já estava poluído, ficava a mais de 400 km dali. Ele a escutou, e com um sorriso enigmático que a assustou, lhe disse:

— Você não ouviu, princesa! Eu vou comprar um barco e nós vamos para o mar!

De nada adiantou a argumentação da esposa, dizendo que o único barco em que ele já tinha entrado fora um a remo no Parque Municipal da Capital do Estado. Ele lembrou que ela sempre afirmara que o acompanharia em suas aventuras e agora, que ele estava prestes a realizar seu sonho, ela lhe podava as asas.

Vencida nesse combate marítimo e depois de uma farta negociação, onde o aumento de seu limite do cartão de crédito foi ponto fundamental, a mulher cedeu.

Assim, instalaram uma bolota de reboque no para-choque do Uno, rasparam as economias da poupança e compraram, em 150 parcelas, uma lancha “seminova”. Olemar tirou suas férias vencidas e partiram.

O destino ja estava traçado: Espírito Santo, Aldeia das Cerejeiras. A sugestão foi do vendedor do barco, que sugeriu a compra de uma estadia semanal pelo sistema time-share; o casal não entendeu direito o que o sistema significava, mas o folder mostrando uma praia linda e o tamanho da parcela mensal os convencera. Partiram no dia seguinte, seria só uma parada rápida em Vitória, capital do Estado, para pegar “aquele” que lhes daria a tão sonhada liberdade. E depois, o mar.

As 12 horas de viagem foram vencidas com entusiasmo pelo casal, ele louco para usufruir de seu sonho, ela louca para passar no shopping. Pararam na loja de barcos, ela se assustou com o tamanho do sonho, ou melhor, da lancha; ele era só alegria.

Prendeu o brinquedo atrás do carro e foram para a praia. Nem as buzinas e os xingamentos dos outros motoristas demoveram o casal de seu objetivo. Ele estava no seu direito de andar devagar; se o limite era 80km por hora, qual o problema se ele ia na metade desta velocidade? Nem mesmo a aflição da esposa o demoveu de seu intento. Uma parada rápida no shopping a alegrou e aos demais motoristas, que não conseguiam ultrapassá-los há 30 minutos.

Feitas as compras, Cinthia se dirigiu de volta ao Uno. Só que um novo problema os aguardava: onde colocar tudo o que comprara, uma vez que o shopping estava em sua liquidação de verão e ela não resistiu, comprou roupa para os meninos e todo o material necessário para o verão? Como o porta-malas já estava repleto de utensílios de cozinha, varas de pescar e isopor para camarão, foi criado um impasse. Olemar, parado ao lado do carro, olhando admirado sua lancha de 15 pés, não se fez de rogado, e disse à aflita consumidora:

— Pode pôr lá dentro da lancha, não tem problema!

E assim ela o fez. Reforçado de peso e de alegria, nosso valente Uno 86 e o feliz casal voltaram para a estrada. Novas buzinas e xingamentos, mas nada que os vidros fechados o som alto não resolvessem.

Quando chegaram ao alto da colina, um suspiro cúmplice aliviou a tensão do casal. Avistaram o mar e, melhor, dali em diante era só descida. Começaram a descer. E nem a pressão que vinha de trás do veículo incomodava o nosso Homem do Mar.

Desta vez, além dos carros, o que causava preocupação era o peso da lancha. Além dos em torno de 1000 quilos, ainda havia mais uns tantos das compras e malas colocadas em seu interior junto aos pacotes de verão.

— Bem! O carro tá indo mais rápido ou é só impressão?

— Bobagem, eu que tô acelerando mais!

Mas o destino foi cruel. Passaram em uma cratera — aquilo nunca foi um buraco —, e o solavanco foi assustador. Olemar tratou de acalmar a esposa:

— Tá tudo bem! Foi só um susto!

Mal ele tinha acabado de falar, um carro os ultrapassou, violentamente.

— Filho de uma égua! — Olemar falou sem pensar.

Cinthia lhe chamou a atenção:

— Bem! Olha!!

O marido então viu que quem acabara de ultrapassá-lo: seu querido companheiro marítimo. Sim, o barco havia se soltado. A bolota não havia segurado o tranco, e assim ele e seu fiel escudeiro, o reboque, resolveram seguir sozinhos.

— Meu Deus! — Gritou o velho marinheiro, enquanto o barco descia o morro na contramão, sem se preocupar com a aflição do outro. Ouvindo suas preces, ou por obra e graça do destino, vai saber, o barco não fez a curva e se esborrachou na encosta à frente. Foi reto, parou um instante no ar e despencou.

O barulho assustador, foi ouvido a grande distância:

— Nãããããããooooo!!!!!!!!!

Sim, o pobre Olemar gritou mais do que no dia em que lhe arrancaram o siso. Parou o carro no acostamento, pulou para fora do veículo e olhou para baixo. Lá no fim da encosta se encontravam os pedaços de seu sonho.

Cinthia, que o seguira, colocou a mão na boca para abafar o terror. Sim, o valente desbravador do mar jazia espalhado em mil pedaços.

Mas o brasileiro é acima de tudo um forte. Enxugando as lágrimas, olhando ainda consternado para a companheira, Olemar sentenciou:

— Acho que se a gente comprar Araldite, dá pra colar!

 

10 comentários em “Homem ao mar

  • 15/09/2011 em 18:02
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    Adorei, o que importa é tentar realizar o sonho, se não puder usufruir, o que vale é a tentativa…Isso já foi uma grande lição…

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  • 14/09/2011 em 17:22
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    Amei!!!!Pena que eles não puderam usufruir do bem que eles compraram.kkkkkkkk

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  • 09/09/2011 em 17:44
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    Adorei o aumento do limite do cartão de crédito!
    Acho que se eles tivessem ido para o mar, seria o fim…deles!
    Bjo
    Alessandra

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    • 11/09/2011 em 20:29
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      Alessandra
      Aumentar o limite do cartão sempre ajuda!Afinal o amor é lindo mas tem limite!
      Bjo,
      Gustavo.

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  • 08/09/2011 em 17:24
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    Guta, estou transtornada, tanto esforço para nada, nem uma voltinha de barco??
    Se lembra do passeio de barco tótóto´em Búzios?
    Adorei o conto!
    Beijos…
    Cinthia.

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    • 09/09/2011 em 00:52
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      Cinthia
      Moral da história nunca compre nada em 150 vezes!
      Que bom que vc gostou,
      bjo,
      Guta.

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  • 07/09/2011 em 21:08
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    Gustavo,
    ótima crônica!
    Pena que Olemar e Cintia nem chegaram a usar o brinquedinho … e que peninha das 150 parcelas…
    abraço! Anna

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    • 07/09/2011 em 21:37
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      oi Anna
      Que bom que voce gostou!
      Essa história te deve a inspiração!
      Bjo,
      Gustavo

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