Histórias de bar

História de bar é sempre divertida: conversa de boêmio dá de dez a zero em conversa de carola; boêmio tem o caráter que falta a todos os políticos; boêmio se gosta, se entrega, ri e chora junto, narra verdades e jura mentiras; e mesa de bar tem muito mais filosofia do que qualquer universidade em qualquer parte do mundo.

Vez por outra, vou reproduzir uma das crônicas do meu livro Boêmios & Bebidas, editado pela Casa da Palavra, que contou com a colaboração etílica de mais de vinte dos nossos maiores boêmios que, com o desprendimento que os caracteriza, foram me enviando crônicas e contando histórias. A de hoje é das mais engraçadas, e se passou com um velho conhecido, polonês de nascimento, com aquele nome que tem para cada vogal, meia dúzia de consoantes.

Era grande, forte, falava sempre alto e ficou conhecido com o apelido de Tigre — para os mais íntimos, Tigrão. O apelido nasceu, também, porque era muito mais fácil de chamá-lo assim do que usando o nome onde as consoantes abundavam.

 

***

 

Quando a seguinte crônica foi escrita, Armando Tavares de Pinho não tinha sido brutalmente assassinado. Nossa homenagem ao querido português de Braga, que, com sua partida, deixou a cidade mais triste.

Tigrão tinha bebido todas as possíveis e imagináveis. Era o último que restava, encostado no balcão do Bracarense. Armando fechava a caixa, os copos eram colocados no recipiente de aço e lá permaneciam, aguardando a faxina do dia seguinte. O bar era o último sinal de vida existente na Rua José Linhares.

Tigrão, depois de muito meditar, ousou dar um fantástico passo em direção à calçada. Seu corpo todo estremeceu com esse ato. Deu aquela famosa aprumada, respirou fundo e foi em frente. Esse ir em frente, quando se bebeu muito, é um dos atos mais maravilhosos que existem, um gesto que começa nos ombros, desce pelo corpo, passa pelas pernas e termina nos pés. Isso, quando termina.

Você tem a certeza absoluta de que está inteiramente perfeito. Sob o seu prisma, é claro. Quanto ao dos outros, o que ocorre é que um sujeito inteiramente fora de prumo dá uma sacudidela de ombros, mexe com o corpo todo e permanece na mesma postura: fora de prumo.

Mas voltando ao nosso Tigrão: com grande esforço, conseguiu atravessar; olhando se vinha ônibus, parou do outro lado da avenida. Vinha, mas o problema era saber se servia. Resolveu arriscar. Afinal, morava no Flamengo, e todos os coletivos deveriam, teoricamente, passar por lá, salvo se fosse para a Urca, mas isso seria um tremendo azar. Acreditou na proteção dos anjos a todos os seguidores de Baco, fez o competente sinal e, sabe-se lá como, conseguiu entrar no coletivo. Entrou, sentou-se e dormiu o sono dos justos. Acordou no Jacaré! Pura verdade!

Levou algum tempo para descobrir onde estava. O ônibus era o único no ponto. Informaram-lhe que sairia dentro de vinte minutos. Para passar o tempo, e aliviar a fome que se manifestava, entrou numa birosca situada em frente. Atrás do balcão, uma velhinha, muito velhinha, simpática, parecendo uma velhinha de desenho do Walt Disney.

A velhinha ofereceu-lhe uma sopa de legumes e músculos que preparava para o pessoal que saía cedo para o batente. Tigrão tomou a sopa, pagou, elogiou, agradeceu e pegou o ônibus de volta. Acordou no Leblon!

Tentou argumentar com o trocador, que poderia tê-lo acordado. O outro respondeu que “poder, podia, mas o distinto não solicitara tais serviços”. Desceu irado, sentou-se num dos bancos, ficou olhando o pouco movimento que havia na praça. Na hora da partida, entrou no dito, e, acreditem ou não, acordou de novo no Jacaré, em frente à birosca da velhinha, que por uma dessas razões de lógica cristalina, encontrava-se exatamente no mesmo lugar.

Entrou no recinto, já bem melhor do porre, olhou para algum dos presentes, e, com ar de quem já era íntimo da casa, pediu:

— Solta uma outra sopa, minha tia!

Enquanto tomava o caldo, ouviu alguém perguntar para a velha quem era o desconhecido.

— Num sei, não. Mas é um cara que mora na Zona Sul e adora a minha sopa. Hoje, é a segunda vez que ele aparece.

 

 

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