Hepper Bloomsday

Hoje é dia santo, pois é, mais um 16 de junho, data importante para os adoradores de Joyce como todos sabem.

A devoção a São Joyce só me dá alegria, inclusive a de ter escrito um livrinho sobre a nossa bíblia (para os leigos: o Ulysses), bem-sucedido (só na qualidade do texto, claro) apanhado de crônicas que vendeu quase tão pouco quanto o original que o inspirou, mas nem de longe tão famoso (ainda).

Não ligo. Para os verdadeiros adoradores de Joyce o primeiro mandamento é não sofrer, mas sim, pelo contrário, soterrar as misérias da vida sob um inteligente e espirituoso calhamaço de trocadilhos, nenhum deles infame e quase todos sutis demais para que um não devoto os entenda, a não ser, é claro, que uma Judas qualquer por aí resolva desvendá-los, esmiuçá-los tintim por tintim na tentativa de abrir de par em par as portas do nosso seleto clubinho de entendimento. Este primeiro mandamento revoga todos os outros, se é que vocês me entendem: leiam. Divirtam-se.

Em resumo: todo devoto de Joyce se transforma de imediato num corolário, isto é, num dedicado missionário, e parte em sua voluntária jornada de acólito para conquistar algum leitor além dos que Joyce previa em vida, “Imagino que terei por volta de onze leitores”, não por coincidência quase um minyan*… ih, essa eu só percebi agora, vou ter que alterar meu livro, que já mudou de nome e teor umas quatro vezes, algo bem joyceano, a bênção, meu santo. Joyce é assim mesmo: lê-se uma vez e passa-se a vida inteira descobrindo no livro algo que não se tinha percebido, é um momento Haha atrás do outro, nas mais esquisitas oportunidades, até lendo jornal no banheiro, ou na “casinha”, como Bloom dizia, e naquele tempo era mesmo. Banheiro dentro só em casas de luxo, milionárias, com as quais Bloom sonhava e que Joyce com talento detalhava: “com privada e água corrente fria e quente”.

Joyce, vocês sabem, não era judeu, era irlandês, mas tinha um pé, não sei qual deles, no judaísmo (“Outras pessoas têm uma nacionalidade. Irlandeses e judeus têm uma psicose”, afirma Brendan Behan – famoso escritor, poeta e dramaturgo irlandês do século 20 que descrevia a si mesmo como um “bebedor com um problema de escrita” — está no Santa Molly). Bloom, seu alter ego, era judeu, meio farkakte, mas era. E o Ulysses, deliciosamente — pra mim, pelo menos — é recheadinho de referências à minha cultura de geração, um dos fatores pelos quais me converti instantaneamente a esta que é hoje minha única religião.

Bem, o 16 de junho, Bloomsday para quem não sabe, é o dia em que se passa o Ulysses, cujo ponto alto é a foda (desculpem o termo, mas com Joyce não pode ser de outro jeito) entre Bloom e Molly “entre os rododendros de Howth” em 1904, que, de alguma forma, reproduz o verdadeiro encontro de Joyce e Nora Barnacle, sua santa esposa da vida inteira, no mesmo dia alguns anos antes; o que resta saber é se os penitentes romeiros da famosa Via Dublin encontram seu clímax neste santo dia com algum amor verdadeiro, como feliz, embora tardiamente, foi o meu caso.

Pois é. O caso é que como todo objeto de adoração religiosa que se preze, Joyce também testa a nossa paciência antes de nos levar ao Nirvana, e parte disso é a romeira rotina do Bloomsday ano após ano, para a qual, JJ me desculpe, não tenho a menor. Como toda doutrina, o Bloomsday foi inventado por intencionados apóstolos em 1954, após a morte do líder maior e à provavel revelia deste (bem, Joyce talvez até curtisse porque era vaidoso à beça).

Mas cá estava eu determinada a adiantar o dia da minha sagrada crônica de domingo — é, gente, literatura também é religião, como já provamos em nossa insistente litania — para homenagear São Joyce, quando me deparei com uma distração muito maior, como lembrou Alan no café desta manhã, sem rins grelhados por favor que aí também já seria adoração demais: apareceu uma anomalia nos meus exames de sangue de “rotina”, quem mandou visitar o doutor? Hoje em dia, como todo mundo sabe, a máxima perfeita da medicina é: “Quem procura acha”. Tem sempre alguma coisa de errado de acordo com os parâmetros científicos estabelecidos, já que viver é uma doença fatal, se é que vocês me entendem.

Joyce, na minha idade, já estaria morto. Morreu aos 59, em casa, de úlcera perfurada porque já não tinha disposição nem dinheiro para médicos, após uma via crucis danada de não sei quantas operações na vista, era praticamente cego, o coitado. Mas seguia escrevendo… em Paris, onde os romeiros do Bloomsday não pisam nem por um decreto e onde em fevereiro fiz a minha fezinha, como vocês podem ler.

Certo é que morreremos todos, mas poucos de nós sem uma dor sequer, algum padecimento médico qualquer. E comigo não será diferente: de acordo com o doutor existe uma chance aí de que eu tenha adquirido uma Hepatite C, mas como? Destino? Tatuagem? Implante dentário?

Antes de repetir a testagem, e chegar se Joyce quiser à óbvia e simples conclusão que o doutor rejeita de que se trata apenas de uma reação ao antibiótico que eu estava tomando quando o sangue foi coletado, pesquiso na internet e descubro que existem mais de 4 milhões de pessoas no mundo infectadas por esse vírus silencioso, sem sintomas, que só foi descoberto em 1969 (vai ver que até Joyce padecia disso, depois de tanta cirurgia invasiva em hospitais baratos e infectados, mas teve a sorte de nunca descobrir) e que provavelmente só me causará dano daqui a uns trinta anos, aos noventa de idade, pô, peraí. Me estressar pra quê.

A coisa é tão disseminada que as pobres vítimas disfarçadas se saíram até com um apelido para a doença, que entre os acólitos — heppers — é conhecida por Hep C, eu que já fui hippie agora sou hepper… Pode? Ah, os males da velhice… para aí que essa conversa já me deixou com dor de cabeça.

Pois é. O melhor que eu faço é dar uma de Joyce sem olho e esquecer tudo isso até que a morte resolva enfim me recrutar. No meio do caminho, estão tentando me deixar sem beber, sem comer isso nem aquilo e ainda por cima me injetando com um veneno aí que promete tirar toda a minha alegria de continuar viva, eu, hein. Cada dia a mais é um dia a menos para viver.

 

***

Noga: Happy Bloomsday, dear… quem se importa agora?

Alan: Exato, o assunto hoje aqui é a Hepatite C! Quem liga pra literatura quando sabe que vai morrer?

Noga: Pois é, Hepper Bloomsday!

Alan: Bebamos a isso!

***

Glória a São Joyce nas alturas do texto, e ele há de me proteger contra os males mesquinhos da medicina. Amém. Quanto a vocês, eis o meu conselho: deixem tudo isso pra lá e leiam Ulysses enquanto é tempo. Hoje em dia, no mundo virtual, custa menos de um dízimo mensal; pode até sair de graça. Meu Santa Molly, vos digo, sai por apenas R$12. Aproveitem.

E um bom Bloomsday pra vocês.

 
*sem trocadilho, o número mínimo de judeus que devem se juntar para uma oração: 10.

 

 

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5 Resultados

  1. Noga Sklar disse:

    Pois é, Anna. Antes de qq coisa vou fazer novo exame na semana que vem, depois de o antibiótico sair do sangue. Mas já de antemão tenho a impressão de que não vou topar o “horror”, embora seja apenas 4 anos mais velha do que a sua filha. Enquanto isso, vou tomando um de meus últimos uisquezinhos, afinal, é Bloomsday. Boa sorte força para a sua filha! Depois me conta!

  2. maria anna machado disse:

    Oi Noga. Estou ha dois meses em NJ, fazendo companhia para minha filha Monica, 56 anos, que esta fazendo tratamento para a Hepatite C. Ela jura que se soubesse do “horror”, nao teria comecado e para ela nao desanimar, fico aqui, fazendo o que posso
    para o tempo passar. Ela ja esta no quarto mes e sao 7 meses, ja passou da metade.esse e’ o melhor trunfo que tenho e fico torcendo…vamos…coragem…voce esta quase la…caramba, essa vida pode ser ruim, mas a gente nao quer perde-la certo?
    E com saude melhor. Por isso, se confirmar (torco pra nao), cuide-se, o Alan com certeza sabera cuidar de voce com o mesmo carinho com que cuido de minha flha.
    Beijo

  3. Noga Sklar disse:

    Perdão, Claudia! Hahaha.

  4. manuel funes disse:

    Deus fez o alimento, o diabo acrescentou o tempero.
    JJ

  5. Claudia disse:

    Se você morrer antes de mim, tratarei o assunto como ofensa pessoal.
    E não venha com aquela conversa de destino e coisa e tal! (não é que rimou? – mas vai assim mesmo pq carta corrigida a gente só manda se for comercial ou para inimigo)

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