Hambúrguer sem olhar de águia

É difícil para o ser humano ser humilde. Desde que optamos pelo canibalismo do capitalismo, perdemos a vergonha da fome de poder. Para arrotar sucesso, esganamos colegas de trabalho e família.

Mas a existência apronta. Um resultado de exame faz balançar a ironia do chefe, um tumorzinho ensina o patrão a sentir pena da copeira:  ele descobre que precisa do outro e seu império se desmancha em carências — Caius Julius Cesar vê que é só um homem.

Algo assim aconteceu com os Estados Unidos. O império ainda reina, mas viu que é só uma nação sob os caprichos da jogatina financeira. Depois da hecatombe econômica de 2008, os norte-americanos notaram que não são divinos, e foram contemplados por uma substância, ainda que falsa, até então inimaginável em cheeseburgers sardentos: a humildade.

É que os estragos da crise foram chacoalhantes demais. Basta ver os anúncios da retomada do emprego no país do basquete. Bem que tentaram festejar a criação de uma merreca de postos de trabalho, mas todo mundo sacou que o dado quase não passa da insignificância. Obama aparece em fábricas, tenta abrir os dentões, e tudo continua sem graça.

Hoje, os desempregados nos Estados Unidos são quase 15 milhões. Norte-americanos dobrando quarteirões atrás de sopa é algo que sempre existiu, mas o volume de hoje lembra a rotina de um país pobre. É claro que muitos yankees ainda respiram com folga, continuam dobrando quarteirões para comprar 300 mil iPads num só dia. Só que o rosto deles está mais cordato: saiu o complexo de síndico, entrou a pedra no sapato do inquilino.

Provei da empáfia gringa há alguns anos, quando tentei visitar os EUA. Naqueles tempos, em que tarados ainda não jogavam aviões em prédios, fui recebido por um típico americano, gordo e vermelho, no consulado do Rio de Janeiro.

O cara foi logo perguntando sobre o motivo de minha viagem. Eu disse que visitaria a Louisiana, para conhecer as origens do blues. Floreei que navegaria pelo Mississipi com minha gaitinha, que era um apaixonado pela música deles, que iria tomar um Jack Daniel’s naqueles balcões que a gente vê nos filmes e tal.

O red neck indagou se eu tinha filhos. “No, sir”. Durante o silêncio do vermelhudo, pensei que jamais faria uma sacanagem dessas com um ser humano: obrigá-lo a nascer. E enquanto dava uma de existencialista, achei que seria beatificado com o visto. Foi quando o hambúrguer me disse: “Não vai ser concedido. Nada pode te segurar no Brasil. Nada pode garantir que você vai querer voltar. Bom-dia”.

O bacon levantou a mão como se sinalizasse “isso é tudo” para um escravo. Senti-me inferior a um pano de chão, um cigano ignorado na calçada, um pobre, indigno de um olhar, um curdo. Ganhei a rua mandando o cara enfiar o peru do Dia de Ação de Graças.

Mas agora os EUA estão adoentados e sensíveis. Sacaram que precisam dos outros, não são mais os imperadores do mundo. Como todos nós, se viram frágeis e vulneráveis. Aproveitei as vacas magras e voltei ao consulado. Fui atendido por um homenzinho que não tinha o olhar de águia. Ao notar que minha esposa é administradora de uma empresa do setor de saúde, implorou para nos conceder um visto de negócios. Recusamos. Dissemos que apenas gostaríamos de ouvir o Mississipi.

O passaporte chegou aqui em casa. Com o visto, o caderninho ficou chasquento.

 

 

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1 Resultado

  1. manuel funes disse:

    É o mundo gira e não têm estacionamento.
    Um dia é da caça e outro do caçador.
    Um dia é vc que pode se dar bem passando por cima de alguém, mas amanha é alguém se dando bem passando por cima de vc!!!!!!!!!

    rs rs

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