Guerra Fria com Cachorro Quente do Cazuza

Ouvi Cazuza no rádio AM e fiquei lembrando altas paradas: a língua presa do moleque no Fábrica do Som, da TV Cultura, e no Chacrinha. Encapado pela AIDS, Caju quis ideologia, mas o Brasil ainda tentava mostrar a cara. O socialista do Baixo Leblon cantava que a poesia não existiria enquanto houvesse burguesia, logo ele, filho da Som Livre. Como tirava onda, o traquina.

Passei o domingo vendo o DVD do Barão Vermelho no primeiro Rock’n’Rio, Cazuza no suor genital de sua juventude genial. Como há muitos anos eu não ouvia a obra do Beija-Flor, me surpreendi novamente com as letras sobre travessuras junkies e amores incendiários. Por que poetas assim não estão nas apostilas do colégio? Quais verdades eles TÊM que não podem entrar na prova do ENEM? Rima feia.

Muitas lembranças competiram com o DVD. Na pegada surf de “Subproduto de rock”, minha cabeça desencavou as inconsequências que garimpei em repúblicas de festinhas. “Pro dia nascer feliz”, hit do fim da Era dos Meganhas, trouxe uma porção de amores mortos no vaivém de tantos quadris. Cazuza me fez ficar cansado. Faz a memória perigar demais.

Lembro-me do cantor em frente ao Hotel Central, aqui em Formiga. Ele faria mais um show do segundo disco solo. A música de trabalho era “O nosso amor a gente inventa”. Eu estava na praça, sentado ao lado do carrinho de cachorro quente. Tinha uma rapaziada, “insetos em volta da lâmpada”. O poeta atravessou a rua, chegou perto do pessoal e só foi reconhecido por mim. Fiquei na minha. Eu não conseguia me mover. Meu susto me calou a dois passos do cara.

Cazuza pediu “um hot dog ishperrrto”. Com a boca cheia, soltou: “Se alguém aí da galera aguentar comer cinco, eu pago”. Toda aquela calmaria de interiorzão virou um furdunço. O Moita, menino que se arriscou no empreito, parou na metade do terceiro.

O cantor pagou os três do Moita e um para cada elemento da roda. Todos faziam suas refeições enquanto Cazuza arrolava feijões gelados e leites condensados em suas “receitas pra larica”. Baixo volume, meio de lado, Moita perguntou: “Esse é o nome da moça? Larica?”

Cazuza voltou para o hotel dizendo que tinha que “ir nessa”. Para aquela turminha não houve o artista. Apenas um herói de pracinha.

No estádio Juca Pedro, Cazuza abriu o show em cima do dedilhado manso da guitarra de “Só se for a dois”, canção de letra e arranjos grandiloquentes. As pessoas que foram ao campo não somavam quinhentas. Deu pra sacar tudo de pertinho.

Foi a primeira vez que me encantei com a engenharia dos versos de “Medieval II”, do primeiro disco solo. “Baby, eu me acho um cara tão atual/ Na moda da nova Idade Média/ Na mídia da novidade média”. Nem comento o solo de guitarra estilão Eddie Van Halen.

Em frente ao palco, uns três ou sete gritaram: “Bicha, bicha, bicha!” Cazuza, pitando um baseado sequoia, perguntou: “Vocês acham que eu sou bicha?”. Uns cem ou duzentos berraram: “Éééééh!” “Pois eu sou mesmo!”, ecoou Cazuza, antes dos berros e das palmas. “E agora vocês vão ouvir ‘O nosso amor a gente inventa’”. Oportunismo? Molecagem.

O melhor registro ao vivo de Cazuza é “O tempo não para”. Banda afiadaça, sobram as evidências do poder do compositor. Reverencio a elegância contundente com que ele vocaliza as palavras.

Por muitos anos, concordei com Cazuza sobre o tempo que não pararia. Não concordo mais. O tempo não correu. Nem andou. Rússia e EUA ainda trocam espiões. Irã e Israel repetem a Guerra Fria. Obama diz que acabará com a Guerra do Iraque, mas lá deixará 50 mil soldados, a tal “força de transição”. Mais um cartola mentiroso, como Bush sobre os arsenais químicos de Saddam.

A indústria bélica ainda emenda uma guerra atrás da outra para faturar bilhões e bilhões. A patacoada do Vietnã se repete com os talibãs — mais um vexame dos EUA. E os Papéis do Pentágono, famosos nos anos 70, são reeditados na forma dos relatórios que vazaram civis sendo judiados por soldados americanos no Afeganistão.

Descansai, Cazuza, pois o tempo não passa.

 

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