Grávidas feias

sadpregnantÉ raro, mas, às vezes, me acontece ver uma grávida descontente. Não cansada, não incomodada pelo volume e pelo peso da barriga com bebê, não irritada pela perda de taças e mais taças de espumante no casamento chique. Não. Também não me refiro às carinhas amuadas de meninas de doze, treze anos, desfilando barrigas enormes, com jeito de quem não sabe bem o que está acontecendo. Essas sempre me causam um leve choque. Falo de mulheres prenhas com a expressão da infelicidade no rosto. Aquele ar de decepção a denunciar um desconforto mais interno que o útero. Como se a maternidade fosse apenas o fardo obscuro crescente, sem esperança de alegria ou luz.

Fico impressionada com essas cenas, posto que a gestação propicia beleza. Vi, faz algum tempo, um documentário fantasticamente minucioso a respeito das alterações que a presença do feto provoca no corpo. Três delas ganharam mais da minha atenção: o aumento da força e do brilho dos cabelos, o aumento do viço da pele, e o aumento do desejo sexual. De acordo com os pesquisadores, esses fomentos à atratividade feminina têm como objetivo manter o macho por perto, para dar apoio à mãe, à criança, à continuação da espécie. Natureza esperta… Deve ser por isso que as gestantes sempre ficam mais luminosas, como se carregassem adornos, pelo menos até o início do oitavo mês. Daí em diante não há como segurar a peteca. A barriga fica imensa, o andar alterado, com movimentos dos braços ampliados, lembrando remadas curtas. A pobre já não caminha. Navega. E, nesse momento crucial de perda da graça, a expectativa do nascimento iminente rouba a cena e disfarça o estado desinteressante da mãe. Portanto, o começo deve trazer uma aura atrativa para mamãe e bebê, assim como o final deve trazer alívio.

Sendo assim, fiquei pensativa ao cruzar com um pequeno grupo, próximo aos portões de uma maternidade. O marido vinha alguns passos à frente, conversando com o filho mais velho, menor de dez anos com certeza. A esposa o seguia em silêncio, trazendo um filho mais novo pela mão e outro na barriga. E apresentava ao mundo sua expressão infeliz. Repassei mentalmente os variados tipos de dissabores que todo relacionamento pode trazer. Recordei histórias de mulheres que, se sabendo traídas e não sabendo como sustentar sozinhas os filhos, veem-se apanhadas em nova gravidez, que, obviamente, é sentida e recebida como sarcástica armadilha. Histórias de mulheres expostas ao gume gelado do abandono e da indiferença. Afora todas as mazelas cotidianas a nos tocar diretamente, ou a nos chegar por informativos, respingos de angústia alheia misturados aos problemas de família, problemas de trabalho, problemas de dinheiro. Sacudi a cabeça, tentando me concentrar nas flores.

Não adiantou muito. Guardei a convicção de que uma emoção doída é a causa da feiura em gestantes. Apesar de a usina química endócrina trabalhar a pleno vapor, elas ficam feias porque a tal emoção é mais forte do que a influência hormonal, é capaz de comandar as glândulas e realçar ou anular seus efeitos. Sinto compaixão e impotência. É melhor continuar observando as árvores floridas. E os cachorrinhos levados por coleiras. Ou os colibris, a mangueira ainda cheia de frutos, o bar reformado, o bem-te-vi berrando descaradamente.

É… a gente vê muita coisa numa simples caminhada. Desta vez, vi uma mulher carregando vida com tristeza.

 

 

Rosimêre Fonseca de Moura

Rosimêre Fonseca de Moura é carioca da gema. Nasceu na Boca do Mato e foi direto para a fronteira entre o Rio Comprido e o Estácio (holy Estácio). Muitos rios passaram em sua vida, incluindo aquele desfile memorável da Portela; geraram uma cálida preferência pela combinação entre azul e branco e uma tórrida paixão por sua cidade natal. Quis ser sambista, sonhou ser astronauta. Formou-se professora de Português e Literaturas de Língua Portuguesa, publicou dois livros e centenas de crônicas e contos em veículos de circulação restrita. Assina, também, o blog Textos Curtos (http://textcurt.blogspot.com). Seu livro de contos, Além das cortinas, foi publicado pela KBR no dia 8 de março de 2013, Dia da Mulher, e estreou com destaque na Amazon .

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