Golpe baixo!

Eu nunca entendi o que leva as pessoas a caírem em golpes tão manjados como o do Bilhete Premiado e o da Saidinha de banco. Já dizia meu velho e finado pai: todo dia nasce um otário.

Reza a mitologia grega que Ceres, enfurecida com a bazófia de Estélio, transformou-o
em lagarto. Estélio, envergonhado, a partir de então, vivia se escondendo,
camuflando-se com o ambiente.

O estelionatário, popularmente conhecido na praça por “um-sete-um”, é o malandro
que se vale da lábia e da esperteza para obter vantagem indevida. O
estelionatário, do mesmo modo que o camaleão, muda de acordo com o ambiente: o
estelionatário é o que sua vítima quer que ele seja.

E por falar em otário, enquanto houver bancos haverá trouxas entrando por suas
portas giratórias e ficando sem a carteira ao sair, escorregando em cascas de
banana e caindo como patos em golpes aplicados dentro e fora pelos canalhas do
crédito.

Voltando  aos golpes. Internamente, da porta pra dentro das Fábricas de Fazer Dinheiro, esquemas mais criativos do que as famosas “saidinhas” vitimam milhões de incautos, e ninguém chama a Polícia. Poupem-me de lhes dar maus exemplos.

Era dia de pagamento. Eu acabara de sair do Melhor Banco do Brasil, o seu, o meu, o
nosso, o banco que faz com seu dedo indicador uma rodinha pra melhor enfiar no
seu toba, o banco que proporciona ao velho e ao jovem, ao pobre e ao rico, o mesmo
direito de gozar com o pau alheio, quando uma loura de parar o trânsito,
carregando uma bolsa tão vistosa e grande quanto sua bunda (dela), deixou cair
um envelope.

Prestativo, rapidamente abaixei-me e peguei o envelope, gritando “senhorita, senhorita”.
Mas a loura não me escutou e atravessou a rua a passos largos. Só podia ser golpe,
pensei desconfiado, e no exato instante em que meu espírito cartesiano produziu
essa dúvida mundana, surgiu à minha frente um sujeito bem vestido, tão oferecido
quanto o gênio da lâmpada, lançando em minha direção uma conversa mole: “Eu vi
o que caiu da bolsa daquele avião. Uau, que mulher! Se for algo de valor, quem
sabe ela nos dá uma recompensa?”

“Recompensa”,  “a gente”, típica conversa de estelionatário. O mesmo papo suave dos gerentes de bancos: “Você é especial”. “Aproveite o vento, solte as velas”. Liguei as
antenas, travei o leme, peguei o remo e bati de frente com o sujeito de terno e
maleta, “cuide da sua vida, meu chapa”. Zarpei, deixando o Mané a ver navios. Só
fui abrir o envelope ao chegar em casa, escondido de minha esposa.

Dentro  do envelope, apenas uma foto, e no verso da fotografia um número de telefone
anotado a caneta.  A foto era de uma mulher, verdadeira máquina, em pose convidativa, nua do Oiapoque ao Chuí, e ela estava olhando para mim. Não sei por que, mas lembrei-me de mamãe. Quando eu era pequeno, mamãe vivia me dizendo: “Tezinho, não veja revista de mulher nua, senão elas sugam sua alma”. Mas, já dizia o Chico Buarque, “o que não tem governo nem nunca terá, o que não tem juízo”…

Embarquei  nas curvas da fêmea. Botei na vitrola um LP do Taiguara e me perdi no universo do corpo feminino estampado na foto. Passei a noite em claro, tomando conhaque com
Cibalena, devorando cada milímetro daquele templo da perdição. Porém, uma
certeza me incomodava: a foto que eu tinha em mãos era da mulher, a tal gostosa
que deixara cair o envelope pardo da bolsa Luiz Vuiton. O número de telefone eu
memorizei, mas a fotografia da gata, cabelos, pele, seios e coxas, eu não
conseguia parar de olhar.

Uma  semana depois. Na sexta feira minha dona viajou em excursão com o Grupo de
catequese para a festa do Senhor Morto em Ribeira do Iguape, sei lá onde isso
fica. No sábado, cortei a grama do jardim, limpei a casa, almocei sozinho. Por
volta das vinte horas, no mesmo sábado, tomei coragem e liguei para a dama da
foto.

— Alô.

— Alô.

— É que…, encontrei um envelope na porta do banco…

— Paulo Roberto, é você? Finalmente você me ligou…

A  voz. Que voz! Impossível resistir. A loura parecia ter veludo nas cordas vocais. A
mulher falava gemendo, como na música do Sérgio Gainsboing. O ar me faltou.
Fiquei sem palavras ao perceber que a mulher sabia tudo a meu respeito: nome
completo, CPF, identidade, onde eu morava, o número de minha conta corrente, onde
eu trabalhava e até quanto ganhava por mês, aplicações financeiras, ações, patrimônio
imobiliário, tudo. A loura sabia inclusive que eu tinha uma pinta na barriga, e até quanto eu havia gasto em compras no cartão de crédito, na viagem que fizemos à Europa, eu e minha mulher Edymunda, há dois anos.

— Quem é você? Você me conhece de onde? — perguntei, assustado.

— Meu nome é Suzana. Você nunca ouviu falar da peladinha de banco? Sou eu…, você
quer me comer? Esta noite eu serei sua. Basta você seguir as instruções. Estou
te esperando…, anota aí meu endereço…, e não conta pra ninguém — completou a
dama, sussurrando.

O  chão me faltava. Tentei argumentar, porém vi-me dominado pela voz de veludo
azul. Imperativa — o que há de se fazer? — a loura me escolhera pra fazer sexo com
ela naquela noite maravilhosa: “Não faça mais perguntas”, ela disse, “estou
louquinha pra dar pra você.”

O  estelionatário opera com os recursos mentais de suas próprias vítimas. O
estelionatário não lhe toma nada, raramente utiliza de violência. Você é quem se
entrega de bandeja, revela-lhe segredos, transfere dinheiro, assina o contrato,
e quando dá por si, você já está com o laço em volta do pescoço — só falta chutar
o banquinho. A arma do estelionatário é a palavra. Com o discurso, ele aciona na
mente da vítima o interruptor da cobiça, da vantagem, do desejo e da malícia. O
estelionatário age da mesma forma que os ilusionistas, os gênios das
propagandas, banqueiros, políticos, padres, pastores e guias de excursão. Ao
contrário do que diz Sartre, o inferno é o “outro” que existe dentro de você.

Fisgado  pela voz da loura, acabei com meu casamento de trinta e dois anos, me desfiz de meu patrimônio e fiquei com a metade, algo em torno de R$ 600 mil. Mas não fiquei com nada. Transferi tudo, inclusive as ações, para a peladinha do banco, mediante a promessa, registrada em cartório e com firma reconhecida, de que a gostosa me presentearia com um dia de luxúria, satisfazendo meus desejos de todas as maneiras, ao meu dispor por vinte e quatro horas.

Até  hoje eu não entendo onde eu estava com a cabeça. Meu Deus! Como fui trouxa! Transferi
uma grana preta para a conta da peladinha antes de receber o pagamento!

Cinco  anos se passaram. Hoje, moro debaixo da ponte. Faz dois dias que não me
alimento. Quando tenho sorte, o que é raro, consigo um marmitex intacto no lixo
do Restaurante Japonês. Mulher? Só nas revistas velhas que encontro nas ruas.

 

4 comentários em “Golpe baixo!

  • 01/08/2011 em 09:14
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    O rabo anônimo pelo menos deu o que falar!! Querem que tire? Tá disputando a atenção com o excelente texto do Carlos? rsrs

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    • 31/07/2011 em 20:39
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      Rosângela, eu não sei quem colocou aquele derriere na minha crônica, mas o rabo da loura deu uma boa “abertura” ao texto. Salve!

      Carlos

      Resposta

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