Gangue, o romance: confissões do autor

“Tudo se reduz a partículas que se chocam umas com as outras, numa realidade mágica onde os acontecimentos, inicialmente irrelevantes, nos remetem como bolas de bilhar para futuros alternativos, que se tornam reais. Cada ser humano tem seu tipo de incidente. Se lembrarmos os fatos que de tempos em tempos nos atingem, vamos perceber que sua natureza é similar. Pode ser uma viagem, a leitura de um livro ou o encontro com outro ser humano de forma casual. Sempre é um fato aparentemente simples que dispara um processo de mudança extremamente complexo, um gatilho da vida.” (GangueManuel Funes)

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Na foto, o autor durante uma de suas pesquisas, em algum lugar de América Latina, no seu último refúgio: o mar!

Então uma bola de bilhar bateu na minha testa, e meu casamento foi para o espaço sideral. Essas coisas acontecem com muitos homens, porém, quando chega a sua vez, é diferente. Voltei ao apartamento para pegar meus pertences, pelo menos o que tinha sobrado deles, num canto minha “querida ex” tinha colocado num saco plástico minhas cuecas, calças, camisas e alguns sapatos velhos, acredito que nossa “secretária” o fez. De qualquer maneira, o que realmente me interessava era fazer uma copia de meus dados no computador.

Merda! Alguém levou! De certo a conselho de minha sogra. As pessoas mostram sua verdadeira natureza nesses momentos, e descobri que apesar do fingimento, era uma “mesquinha”. Mas seguro morreu de velho, e num canto da sala, onde eu costumava deixar meu pente de 16 gigas de memória, lá estava: pelo menos meus dados e programas estavam a salvo.

Trabalho como consultor de informações estratégicas para algumas corporações, que ficariam, digamos, “chateados” se seus dados caíssem em outras mãos. Confiam em mim, porque de alguma forma sempre sabem onde estou. Meus links devem estar pipocando pela internet até Andrômeda.

Uma nota na mesinha da sala: “Deixe a chaves na portaria”. Simples e curto assim. Dei uma última olhada no “lar doce lar”, fechei a porta, e, claro, entreguei as chaves ao sair. Levei minha roupa do corpo e meu pente de memória.

Entrei numa Lan House para procurar um lugar onde dormir. Entre uma “googleada” e outra, entrou no chat meu amigo Ronald.

“Gringo, uma boca para você!”,  digitei com descrença. “Cara, me separei, sabe onde posso achar um lugar por uns tempos?”

Ele digitou em letras vermelhas, em formato bem grande: “Que tal Saint Christopher Island, no Caribe!”

Respondi na hora: “Quanto, quando?”

Ronald mandou uma foto, cheia de garotas numa praia do paraíso: “US$ 7 de estadia e uma diária de US$ 2… Se puder viajar amanhã.”

Duas letras decidiram meu destino: “Ok.”

Quando alguma empresa multinacional quer aportar em algum país, faz uma pesquisa de potencial, de estabilidade social e politica. É uma tarefa complexa, e abrangência, sigilo e conhecimento em muitas áreas são fundamentais. Este é meu trabalho, sou uma especie de “pitonisa” com uma bola de cristal cibernética: econometria, política, sociologia, probabilidades, estatística e uma pitada de bom senso.

Fiz muitas pesquisas na América Latina, e em todas elas, aos poucos, descobri um perfil que vai além de uma mera questão de viabilidade comercial: crises e problemas, as enrascadas nas quais estamos metidos, e Gangue é um pequeno apanhado dessas aventuras.

Jornalistas são uma excelente fonte de informações. Nos anos 1980 encontrei um deles, num bar, na zona de guerra. Eu estava de volta ao meu país, a trabalho. Perguntei por que arriscava a vida, num lugar e por pessoas que não era os seus. Ele me olhou e disse, com toda a serenidade do mundo:

— Mano, a verdade não tem pátria — pegou seu copo de “espírito de cana”, deu um gole, abriu seu caderno de anotações, e estava escrita bem no início uma frase de Paul Valéry: “Temei a verdade, como o fogo, do qual possui ela as mesmas propriedades.” 

Após alguns anos, soube que tinha sido assassinado e seu corpo jogado numa ruela obscura de uma cidade sem nome. Naquele dia, prometi a mim mesmo que iria escrever um romance sobre esses fatos.

Conheci muitos jornalistas, a maior parte comprometidos com o sistema, alguns poucos de coragem — estes que não estão mais aqui, que deram sua vida pela causa da verdade e da liberdade de expressão. Em 2012 foram 72 assassinados, e o romance é dedicado a três deles, como símbolo: Tim Lopes, Christian Poveda e José Cabeças.

Em certos momentos de mudança, percebemos que não somos nós que puxamos os fios, temo até perguntar quem o faz. Nunca pretendi ser “escritor profissional”, e meus ganhos como consultor sênior garantem uma boa vida. Era domingo, quatro horas da manhã, aeroporto do Galeão: direto para o continente e logo num avião pequeno. Após nove horas de viagem, pisei nas famosas ilhas. Durante o voo aconteceram alguns fatos, digamos, peculiares. Conheci pessoas interessantes, e os detalhes inicias de minha chegada estão relatados no romance. Nesse ponto, a vida real e a ficção se misturam como café e leite; os rinocerontes entram na sua vida e você tem que sair correndo para não ser atropelado.

Na escala no Panamá, comprei um Netbook Asus e um disco externo de meio “tera”, entrei no meu servidor remoto, conferi instruções e contas bancarias, e o deposito inicial estava lá. No meu tipo de trabalho, a palavra vale ouro. As ilhas entrariam no mundo da web e meu trabalho era providenciar essa integração de forma rápida e confidencial, fazendo atividades financeiras e comerciais trafegarem pelo meu software.

Lembro-me bem, tocava nos meus fones de ouvido Alanis Morissette. Quando você trabalha com informações confidencias, as pessoas sabem, e tiram as máscaras de forma natural. O mundo que percebemos nunca é o que parece, existem várias sociedades convivendo num mesmo espaço físico. Lá pela faixa “Hand In My Pocket” eu tinha recebido algumas propostas indecentes. Para todos os efeitos, era um deles, com tratamento “hiper VIP”  e permissão para atravessar a fronteira de onde os deuses moram: “Estou dura mas feliz/ Sou pobre mas gentil/ Sou baixinha mas saudável, sim/ Estou viajando, mas estou de castigo/ Sou sensata mas subjugada/ Estou perdida mas tenho esperança, querido/ E a que tudo isto se resume?/ É que tudo ficará bem, bem, bem.” (Alanis, “Mão no Bolso”)

Eu era um equilibrista, sem rede de proteção. Na primeira noite, no hotel “Five Stars e alguns Cometas”, comecei a escrever Gangue. Sabia que não podia mencionar nomes, lugares e fatos de forma explícita, mas “Sedah” (Hades, na mitologia grega, é o deus do mundo inferior e dos mortos) tinha deixado a meu cargo esta obrigação.

Em algumas madrugadas, enquanto escrevia, tinha que parar, porque minha vista se esvanecia. Tinha entrado e observado o mundo do outro lado, o dos bastidores, e isso quase nunca é uma experiência agradável. Vivemos a ilusão de estar numa sociedade regida pela Justiça, Ética e essas bobagens: nada mais longe da realidade. Nossa vida é manipulada, gerenciada pelos interesses de gente que só de falar já dá medo. Após muitos anos, as peças de quebra-cabeça do romance curto de Dostoiévski,  Memórias do subsolo, começam a fazer sentido.

O último dia finalmente chegou, e assinei o típico “NDA”, um acordo de não divulgação (Non-Disclosure Agreement ou NDA em inglês, língua onde também é conhecido por Confidential Disclosure Agreement ou CDA), termo de confidencialidade ou acordo secreto. Desci da Land Rover, apertei a mão de “Gustav”. O turbo hélice da corporação estava à minha espera, vinte lugares e dois passageiros: Sedah e eu… o resto é outra historia. No meu netbook, levava a primeira versão de Gangue.

Um comentário em “Gangue, o romance: confissões do autor

  • 15/01/2013 em 18:28
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    !!FELICIDADES PRIMO!!!ERES LO MÄXIMO TE QUEREMOS SALVADORIAN BOY!!!Y QUE
    VIVA EL SALVADOR!!!

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