Galinha ensopada

Certa vez, eu estava viajando e meu marido avisou à empregada:

– Vou levar duas pessoas para jantar.  Tem comida suficiente?

Comida nesse caso era galinha ensopada, a única coisa que a criatura era capaz de fazer sem supervisão.

– Pode trazer, doutor, dou um jeito.

– Para a mesa não ficar muito apertada, use o aparador.

– Tudo bem, doutor.

Quando ele chegou com as visitas, a mesa estava posta para a família do modo de sempre, e no aparador havia dois pratos extras.  De cara para a parede.

– Era para colocar a comida no aparador.

– O senhor não explicou isso.

 

Noutra ocasião, mandei preparar almoço para sete pessoas.  Galinha ensopada.  A mulher colocou a mesa para seis.

– São sete pessoas.

– Só encontrei seis cadeiras.

– E o que eu faço com a outra pessoa?  Mando voltar da porta?

– Não entendi.

– Deixa pra lá.  Pega uma cadeira na varanda.

– Ah, agora sim, a senhora teve uma boa ideia.

A propósito, uma frase que me enchia de medo era “Tive uma ideia!”

 

Sou exagerada com comida sempre que tenho visitas.  Em geral, sobra para o resto da semana.  Em um desses day after, o jantar, galinha ensopada, foi precedido de um anúncio:

– Hoje a senhora vai ter uma surpresa.  Vai ver que eu aprendi tudo que a senhora me ensinou.

Aguardei, ansiosa.  Não vi nada de diferente na galinha ensopada do dia anterior.  Ela anunciou que era na sobremesa.

Tinha sobrado fruta em quantidade suficiente para alimentar um batalhão por três dias, imaginei que talvez a surpresa fosse uma salada de frutas. Veio uma bandeja com todos os restos: manga, abacaxi, uva, melancia.  Nada diferente do menu anterior.

– Não notou nada, madame?

– Sinceramente….

– A senhora não viu que eu não acrescentei a manga?  Lembrei que a senhora sempre diz que a gente come primeiro a fruta aberta e depois é que come a fechada.  Então, não abri a manga.

A criatura tinha cogitado a possibilidade de cortar mais uma manga e só por milagre não o fez, uma rara vitória do bom senso sobre a burrice.

 

No começo, esses episódios me faziam sentir pena da moça.  Demorei a perceber que ela se achava normal e era feliz assim.  Qual de nós duas, afinal, era mais lesada?  Comecei a ter pena de mim, oprimida pela burrice (de quem?) de um lado e pelo politicamente correto do outro.  Um dia, ela resolveu dar outro rumo à vida.  Despediu-se com estas exatas palavras:

– Olha, se a senhora sentir saudades daquela galinha ensopada que a senhora gosta tanto, pode me chamar que eu venho fazer ela pra senhora, viu?

 

Por segurança, eu e meu marido só voltamos a comer galinha, ensopada ou de qualquer outra forma, uns dois anos depois.

Burrice é um conceito discutível. Humor também.

 

 

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