Gaia, aquela que olha por nós

Meu sobrinho Pedro realizou um sonho: mudou-se com a família para a Serra da Canastra. Esta região das Minas Gerais é considerada não só uma das mais bonitas do Estado, mas também um paraíso ecológico. Biólogo, naturista e corajoso, Pedro abandonou a cidade grande junto com a mulher, a filha e Gaia, sua cachorra. É. Até a cadela é politicamente correta.

Confesso que tentei demovê-lo da ideia, mas ele, com um sorriso despreocupado, me acalmou:

— Fica tranquilo, tio, a gente vai ficar bem!

E assim esse colonizador da Nova Era e a família partiram. Adquiriram um pequeno pedaço de terra com as economias de anos de trabalho e se foram. Segundo ele, há espaço para se construir uma pousada ecológica, na qual todos os alimentos consumidos serão orgânicos, a água vem de uma nascente das montanhas, o ar é puro e a paisagem é linda.

Vendo, como disse uma amiga, a falta de cuidado e educação, que acometeu as pessoas nas metrópoles, me pergunto se ele não está certo e eu, enfurnado no escritório nosso de cada dia, equivocado. Buscando notícias do intrépido “navegante”, ligo para minha irmã, mãe dele, e peço notícias do meu afilhado. Ela, sossegada como ela só, declara que tudo corre bem, a família vive feliz e a pousada está quase pronta. Mas, entre risadas, relata o que ocorreu na semana anterior com os colonizadores. Pedro tinha ligado pela manhã e o coração da mãe se inquietou por instante:

— Mãe!

— Diga, meu filho!

— O que é que eu faço?

— Não me assusta, filho, tem algo errado com você ou com a Claudinha? É a Thaís, minha neta? Diga, meu filho!

— Não, mãe, calma, está tudo bem!

— Então o que é que há?

— Sabe, o que aconteceu foi o seguinte: minha galinha Giselda sumiu. Eu saí procurando a danada. Vai daqui, vai dali, e finalmente ouvi uns piados. Eu a descobri numa moita, junto com 15 pintinhos!

— Ah, filho, para com isso! — respondeu, aliviada, a preocupada avó.

— Então escuta, mãe, o problema é outro! Os pintinhos são filhos do Atlético, o galo índico. Consequentemente, são todos negros e já está anoitecendo.

— Bom, filho, e qual é o problema?

— O problema é que todos estão correndo pelo quintal! Gisela, a galinha, os 15 pintinhos, Gaia atrás tentando ajudar, Atlético atrás de Gaia (não gostando nada do apoio dela), Thaís gritando e correndo atrás deles adorando a brincadeira e Cláudia atrás de todos tentando organizar a bagunça. Está escurecendo e, a senhora sabe, por aqui tem lobo-guará! Como faço para prender essa prole galinácea? — exclamou, angustiado, o jovem fazendeiro.

Minha irmã me contou, rindo, o inusitado problema de uma família no campo. Disse ainda que instruiu o filho a jogar um pouco de canjiquinha de milho no chão formando uma trilha até o paiol, onde a família carijó se reuniria. E assim ele fez. Indaguei à irmã querida se valia tanto esforço por um ovo. E ela, incontinenti, esclareceu:

— Quem mora na Serra da Canastra não compra ovo. Um canastrês legítimo cria suas próprias galinhas!

E assim, amigos, fiquei meditando sobre essa fábula rupestre. Na vida, felicidade não seria uma casa no campo, uma família feliz, uma galinha agitada, um galo orgulhoso e zelando por tudo e, finalmente, Gaia, que quer no fundo nos proteger e nos oferecer carinho e cuidado?

 

 

11 comentários em “Gaia, aquela que olha por nós

  • 27/09/2011 em 09:49
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    Arraup !!!!! Esse é o legitimo cumprimento do matuto Canastreiro !!!!! Tio, eu e a Cacau estamos aqui na minha mae chorando de rir, de fato a cronica foi quase a narraçao da realidade, embora a realidade tenha sido ainda mais engraçada. A Cacau zela muito dos pintinhos, de madrugada ela me pediu pra ir conferir se eles estavam bem, se nao estavam com frio KKKKKK !!!! Eu mereço… Já informo que estao todos bem, e que minha fama na serra corre o risco de diminuir bastante, pois sao todos os filhotes pretinhos (a cara do pai) e já começaram a dizer que eu tenho é um terrero de macumba KKKKK!!!!! Corremos o risco de no ano que vem a Companhia de Reis “pular” a visita lá em casa !!! É bao dimais esse negocio de roça…

    No mais, já estamos bem enturmados com a comunidade Canastreira legitima e com os “imigrantes” como nós que tbem subiram a serra atraz de sossego. Temos até nossa frase habitual que diz: “O homem canastreiro cada vez mais avesso a civilizaçao…” Ja participamos de diversos mutiroes pra melhoria da escolinha rural lá perto, ja organizamos em conjunto com uma ong “eco-bio-sustentavel” um seminario sobre sementes crioulas (ou caboclas) pras pessoas de lá descobrirem que existe salvaçao alem dos transgenicos e estamos bolando um projeto de saneamento pra construirmos fossas ecologicas e nao contaminantes em varias casas de vizinhos que pussuem fossas negras. Enfim, tentando dar nossa contribuiçao a pequena comunidade do “Campo de Cima” e da “Babilonia”.

    Resumindo, o sossego passa bem longe, temos sim muitas tarefas, uma vida “social” mais agitada do que a que tinhamos em BH, eu e a Cacau trabalhamos o dobro e a Thaís se diverte o triplo. Entao valeu muito a pena !!!!!!

    Um grande abraço dos colonizadores da Nova Era.

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    • 27/09/2011 em 12:32
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      Pedro Arraup!
      Fico feliz de vc ter gostado da história de um mineiro,que subiu a montanha atrás de um sonho.
      e descobriu que a felicidade sempre esteve dentro dele.Seja feliz,meu afilhado!
      E que Deus sempre abençoe toda família,sem jamais esquecer a Gaia,que zela por todos nós!
      Abraço a todos voces!

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  • 24/09/2011 em 00:24
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    Obrigado Ethel
    Fico feliz por vc ter gostado,das montanhas e dos montanheses!

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  • 21/09/2011 em 18:26
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    Cumpadre, eu adoro criar galinha e a sua estória me deu uma vontade danada de estar lá correndo atrás não só da Giserlda mas também das outras: Lady Gaga, Madona, Perla e a Maricota que são as irmãs raçadeira da fazenda.
    Gostei muito do estilo e do tema, parabéns!

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    • 22/09/2011 em 00:30
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      Cumpadre
      talvez um homem de bem,seja o que corra atrás de galinhas ,de filhos e de de netos.
      mas com certeza ele é um homem simples.
      um abraço,
      gustavo.

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  • 21/09/2011 em 18:03
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    Então, não é que a estória é de verdade?
    Cláudinha na verdade morria de aflição de pegar os pintinhos eles tavam tão novinhos que melava…eca!!!!
    Mas é isso aí preocupação da roça é em outro mundo.

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    • 21/09/2011 em 18:21
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      Ta vendo vida e ficção se misturam nesse mundão de Deus!

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  • 21/09/2011 em 13:21
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    Gustavo, essa história me lembrou a do meu próprio tio correndo atrás de mim como uma galinha atrás de… ah, deixa pra lá. Morar no mato é ótimo, mas não faltam apertos, pois a cidade nos deseduca!

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    • 21/09/2011 em 18:22
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      Noga
      A cidade apertade um jeito estranho.A gente corre mas sem motivo!

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