Fuga como solução?

por Edegerdo Hardt Junior.

 

Pela manhã, o som do povaréu a falar as compras, na troca enfadonha do dá-me isto e quanto custa, tome a nota e o troco. A feira livre era parte do domingo, aquele dia em que mais pessoas acordam tarde, e o descanso é a normalidade. Ali, não: desde pequeno venho convivendo com esse alarido matinal dominical, e quase angelical, com gostinho de lugar amado.

A diferença chegou com a falta, um quê sem presença e com um peso indescritível. Notei de pronto, mesmo sem saber nominar ao certo o que seria, até que “caiu a ficha”: o silêncio era anormal para aquele dia de final de semana!

Saí à toda do quarto, e na cozinha encontrei mamãe entabulando com papai uma conversa animada.

Perguntei no ato:

— Cadê a…

Mamãe, mais rápida respondeu:

— A prefeitura não permitirá mais a feira neste bairro — disse, com um pouco de tristeza, saudosista.

— Desde que a rua sofreu a reforma e virou avenida, passou a ser a principal de via de acesso ao centro, o fluxo enorme de carros não permite seu fechamento para uma feira livre — completou papai, casual.

Tomei café apressado e saí para a rua, na esperança de achar as verduras, frutas e o resto, mas o que vi acabou com meu sossego. Um guarda acabara de liberar o acesso à via.

Digo com grande pesar:

— Aos domingos, o alarido era como uma música calmante, que completava o lugar. Hoje a avenida é puro barulho, daqueles que penetram o ser e vão tirando a paz a conta-gotas, sem parar, e constantemente conduzem à loucura. Para os moradores, uma carta de despejo, e para aqueles que não têm condição de sair do lugar, uma torturante cadeia diária.

Minha vizinha, uma senhora de quase noventa anos e professora aposentada, olhou bem a avenida e me disse:

— Eis o condão do crescimento desenfreado: estresse para todos! O sofrimento não é inerente ao homem, mas este o causa só por existir. Seria o homem uma praga que devora a paz do homem?

 

 

Edegerdo Hardt Junior nasceu em Jacareí, São Paulo, em 1974. Aos três anos foi morar em Taubaté, cidade onde vive até hoje. Descobriu o maravilhoso mundo da leitura com a mãe; no colégio descobriu a vontade latente de escrever, a que deu vazão por intermédio da poesia. Formado em advocacia, atuou profissionalmente em Taubaté por sete anos. Em 2010, com o falecimento de seu avô materno aos 100 anos de idade, ainda jornalista ativo, voltou a praticar outros gêneros de escrita que não o jurídico. Seu livro de estreia, Algo para pensar, será publicado em breve pela KBR.

 

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

2 comentários em “Fuga como solução?

  • 03/07/2012 em 19:07
    Permalink

    Ed
    Outra crônica verdadeira, pois todos nós sabemos que o estresse que passamos normalmente é por causa de sonharmos com algo que se foi ou pelo fato de alguém ter mudado o rumo e gostariamos que voltasse. Parabéns. Me avise da próxima.
    Mariza

    Resposta

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