Francisco

francisNeste 13 de março de 2013, enquanto passava pelo coração da Vila Isabel, ouvi dobrarem os sinos da igreja mais próxima. Naquele horário, as badaladas só podiam indicar a aparição da fumaça branca na chaminé da Capela Sistina. Liguei o rádio imediatamente.

Há algum tempo (foi logo depois da eleição de Bento XVI), uma colega me provou por a + b, num longo e-mail repleto de citações de normas, que eu não poderia me considerar católica apostólica romana, já que não frequentava nenhuma paróquia, quase não ia a missas, raramente comungava e descumpria várias das condições estabelecidas para tanto. Vi que ela tinha razão, agradeci e passei a me declarar laica, para todos os fins. Mesmo assim, a escolha do novo líder da Igreja de Roma me interessa muitíssimo.

Entrei em casa e fui direto para a TV ligada. Acompanhei a cerimônia com atenção reverente: só um tolo seria desrespeitoso para com a escolha de uma liderança religiosa que congrega mais de um bilhão de seguidores; só alguém muito ingênuo desconsideraria a importância e a influência da figura papal no planeta em que vivemos, católico ou não.

Quando as portas se abriram e o Cardeal-Diácono Tauran anunciou, como escolhido, o Arcebispo de Buenos Aires, fiquei surpresa e contente. Um nome não europeu me pareceu um sinal de boa vontade para com o mundo fora dos limites do velho continente, uma esperança de maior abertura, de aprofundamento de diálogo, de diluição de fronteiras entre os continuadores do trabalho dos Apóstolos. Então veio o anúncio do nome do novo Pontífice: Francisco.

Fiquei perplexa. Torci por esse nome, por muitos anos. Embora eu ache um tanto feio haver torcidas em torno de qualquer aspecto da eleição de um Papa, embora tenha passado (durou menos de um segundo!) por minha cabeça a perguntinha infame “Argentino?” durante a anunciação (perdoem, hermanos, são puerilidades, Deus há de me perdoar), tenho de admitir meu silencioso desejo de ver um Papa assim chamado. Fiquei profundamente emocionada.

Apaixonada pela vocação inovadora e pela consistência ética da Ordem Franciscana, entrevi na opção do Cardeal Jorge Mario Bergoglio uma menção à possibilidade de uma prática ainda mais pastoral, de uma Igreja com tendência mais acentuadamente inclusiva. Uma Igreja ainda mais voltada ao socorro daqueles irmãos que, vitimados pela miséria ou pelo abandono, pela ignorância, pela violência ou pela doença, ficam à mercê do desespero e às portas da perdição. Uma Igreja capaz de resolver efetivamente seus problemas internos, ainda que ao preço de algumas mudanças profundas. Uma Igreja que dê maior prioridade à prática da caridade do que à simples repetição de seus cânones. Uma Igreja mais católica, menos romana e ainda mais apostólica.

O Sumo Pontífice vem da Ordem Jesuíta. Obviamente, o homenageado pode ser São Francisco Xavier. Muitos italianos falavam em São Francisco de Pádua. Entretanto, ao ver a figura altiva e suave de Sua Santidade, não pude deixar de pensar no revolucionário e doce criador e líder dos Franciscanos. E creio que os quatro Franciscos em foco espelham esses propósitos de manifestação da humildade na expansão da fraternidade.

Por fim, quando o novo Papa pediu à multidão que orasse por ele, no momento de sua primeira fala, e curvou-se para também orar e receber a emanação da prece coletiva, num inequívoco gesto de inclusão de seus fiéis em seu destino, minha emoção foi mais forte. No fundo da mente, uma canção para crianças, antiga, soava em surdina: “Fazendo festa no menininho, contando histórias pros passarinhos… lá vai São Francisco pelo caminho”.

Há muito não me emocionava tanto com a apresentação de um novo Bispo de Roma. Que a luz do Cristo o acompanhe por toda a sua jornada. Abençoado seja o Cardeal Bergoglio pela escolha do nome Francisco. Louvado seja o Santo de Assis (e também os outros). Bendito seja o Papa Francisco em seu pontificado. Salve Jorge!

 

 

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4 Resultados

  1. Marcia Feitosa. disse:

    Parabéns, Parabéns!!!!! Me emocionei com vc…

  2. Frederico Meyer disse:

    A doutrina espírita, através de seus Mensageiros de escol, nos informa a grande transformação do Planeta de Mundo de provas e espiações para Mundo de regeneração e que esta mudança já começou. Acredito que na escolha do nome do novo Papa, existe uma grande evidência da interferência do Plano espiritual , por ser tratar de um homem simples, humilde e preocupado com os pobres. Hoje de manhã soube de mais uma frase dele que tem tudo a ver com a doutrina espírita: Fora da caridade não há salvação! Também fiquei emocionado com os seus primeiros gestos. Que Deus o abençoe e o ilumine nesta grande missão.

    Belo texto irmã!

    Muita paz.

    Fred marido da Márcia.

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