Fora do ritmo?

“O tempo é meu melhor amigo. Basta que eu lhe dê o tempo que ele precisa”
(A Escritora)

Ela não sabia que palavras usar para explicar aquela estranha sensação de que o mundo e o tempo andavam fora de lugar. Era uma espécie de desorientação, algo que ultimamente a fazia pensar na impressionante imagem de relógios derretidos, antecipada por Salvador Dali.

Como filha de Saturno e boa capricorniana que era, sempre levara as horas tão a sério que jamais precisou carregá-las no pulso, podia simplesmente senti-las como um movimento interno. Mas voltando no tempo (ou ao início do texto), ela não sabia que palavras usar para explicar aquela estranha sensação de que a partir de agora deveria deixar de lado o correr opressivo das horas e realmente se focar no momento presente.

Naquela manhã de sexta-feira ela ainda se secava das últimas gotas do banho quando ouviu estalidos de aparelhos eletrônicos se desligando. Conferiu no celular e eram nove em ponto, hora exata que a companhia de energia elétrica havia marcado para o desligamento da rede elétrica que servia ao bairro. Ultimamente os reparos e a falta de luz eram frequentes, a ponto de ela ter se acostumado a considerar tais interrupções como providenciais para o próprio descanso.
E mais uma vez a Cemig a salvava, pois há três semanas ela trabalhava sem parar, emendando inclusive sábados, domingos e um feriado.

Embora estivesse cansada, precisava escrever uma crônica. Mas com a falta da energia, não havia o que fazer, estava decidido: nem crônica, nem trabalho de qualquer espécie! Sentiu a exaustão arrastando-a para a cama.  Afinal, se eu fechasse os olhos e não os abrisse nunca mais, o mundo continuaria existindo do mesmo jeito… – foi a última coisa que ela pensou antes de adormecer.

E ela dormiu um sono profundo até acordar sentindo fome. Por telefone, pediu seu almoço sem nem ao menos conferir que horas seriam, apenas confiando no que lhe dizia o estômago. Quando a comida chegou, a comeu devagar, sem pressa alguma. Sentiu mais sono e dormiu novamente, até acordar e constatar que a Cemig também havia se perdido no tempo. Eram 5 da tarde e a energia continuava cortada, embora a previsão de volta fosse para as 3. O jeito era ir para a cozinha passar um café, momento exato em que a luz voltou ao som de ruidosos “vivas” vindos dos outros apartamentos.

Eram nove da noite quando ela se secava das últimas gotas do segundo banho do dia. Era leve a sensação de ter a consciência tranquila pelo compromisso cumprido. Com a crônica agora escrita, sentia-se não só com a alma lavada, mas senhora do próprio tempo. Porém, ainda mais libertador era  livrar-se do peso de ter que ser infalível. Afinal, se não tivesse escrito o texto, o mundo continuaria girando do mesmo jeito.

 

 

Deixe você também o seu comentário