Foi o Ego: ai se eu te pego!

Kali Yuga, “Idade do Demônio Kali” ou “Idade do Vício”, é um período que aparece nas escrituras hindus, a última das quatro Eras que o mundo atravessa, sendo as demais: Satya Yuga, Treta Yuga e Dwapara Yuga.

Escrituras como o Mahabharata e o Bhagavata Purana apresentam Kali Yuga como uma era de crescente degradação humana — cultural, social, ambiental e espiritual —, sendo simbolicamente referida como Idade das Trevas, porque nela as pessoas estão tão longe quanto possível de Deus (ou da Ética, talvez, para quem não gosta dessa palavra).

Não precisamos refletir muito para concluir que a atual civilização, a civilização dominante, vive uma plena Kali Yuga: é a esbórnia grassando; quase todo mundo tem o rabo preso e é obrigado a acompanhar o cortejo da putrefação da alma, ué, de onde veio essa alma? Falo nela porque é o que em nós sofre. Portanto, é o que realmente nos interessa. Mas se estamos na farra, no hedonismo e no desregramento, não estamos nos divertindo? Temos todos os tipos de anestésico para a nossa ressaca; e toda  embriaguês dá ressaca: a de líquidos, sólidos e gasosos.

Tomamos um antidepressivo aqui, e muito, mas muito sexo fácil e barato, até de graça e da melhor qualidade! Ah, quem não fica feliz com os carrões, os prédios mais altos do mundo, o gostosão ou a gostosona do pedaço? O respeito e o medo de quem é mais frágil: “Sabes com quem estás falando?”

Nem precisamos falar de drogas ilícitas, pobres ou ricos. O desregramento atinge todas as classes sociais, gêneros sexuais e raças, e até a quem se dedica ao desenvolvimento espiritual: quanto mais se sobe, mais risco se corre de ser tragado pela dissipação. E, em sendo tragado, sai-se contaminando quem estiver em volta, com a promessa de te conseguir a Pílula Dourada (qualquer que seja o seu nome) — aquela que vai curá-lo de todos os males e resolver todos os seus problemas, financeiros e outros.

Em outras épocas, a culpa desse comportamento devastador era do demônio. Agora, já ouvi falar que é do Ego. Já o vi apresentado de tantas formas… O Ego caiu no domínio público, todo mundo o conhece. Ultimamente, tenho ouvido falar nele como a força que existe em nós que nos leva à ganância, à competição, um antro de egoísmo e competitividade que gera todo o mal que praticamos. E, obrigatoriamente, depois arcamos sozinhos com as indesejáveis consequências.

Mas voltemos à alma, aquela que percebemos no silêncio e na solidão e evitamos de todas as formas. Em algum momento, um peso no peito vem nos avisar: “Perdeu, companheiro. Se queres sair do estado de não estar vivendo, apesar de toda a pândega, vais ter que mudar. Como? É contigo mesmo!”

Só eu mesmo posso dar mais atenção aos meus filhos, amor ao meu par, interesse sincero pela vida de quem te ama, levantar cedo para caminhar, comer menos gordura, estabelecer horários, sorrir para as pessoas, tomar banho todos os dias, pensar um pouco antes de se atirar numa deliciosa roubada, evitar as dívidas — mesmo que pareça que você não poderá jamais viver sem aquele objeto, coisa ou pessoa.

E aí, o Ego sossega.

Às vezes é mais fácil mover uma montanha com o pensamento do que realizar uma dessas pequenas mudanças. Mas vale a pena entrar numa Nova Era.

 

 

 

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