Fiscal-cop

O problema não é a máquina, mas o fascínio que ela exerce.

Erich Fromm

 

Em meados do século XXII, trinta e dois anos depois de o tataraneto de George W. Bush, acossado pelo expansionismo chinês, ter detonado a bomba de nêutrons sobre Pequim, a Califórnia submergiu, tragada por um terremoto de 15 pontos na escala Richter — o equivalente a 80 bombas de Hiroshima. Centenas de ilhas do Pacífico desapareceram, engolidas por ondas enormes; a Ásia  Meridional virou um pântano habitado por moscas e baratas, tão grandes quanto cavalos puros-sangues — com o detalhe de que, para esses insetos pestilentos, o sangue humano constitui a principal fonte de alimento.

Com o degelo dos polos, o Cristo Redentor e o Morro da Urca foram engolidos pelo avanço das águas. Juiz de Fora desbancou o Rio de Janeiro, passando a ser conhecida como Nova Copacabana, e, finalmente, os mineiros conseguiram uma saída privativa para o mar.

Bactérias tóxicas, que se alimentam da poluição expelida pelos automóveis, mataram bilhões de pessoas em todo o planeta, obrigando o Poder Público a transferir todo o sistema de transporte para debaixo da terra, por meio de trens movidos a nitrogênio. Ao longo da Linha Verde, milhares de carros abandonados apodrecem ao relento.

Sobrevoando a Cidade Administrativa, vemos três prédios monumentais, com vidros pretos protegidos por placas de chumbo — arquitetura assinada pelo decrépito Oss Kareca, cérebro de duzentos e quarenta e oito anos, mantido vivo por meio de aparelhos. Nenhuma árvore na praça de concreto armado; diante dos dois elefantes negros, o homem se sente tão pequeno quanto um rato prestes a entrar em um labirinto. É a Cidade dos Tecnocratas.

Estamos na Secretaria de Fazenda:  corredores imensos, paredes alvas, nenhum móvel, exceto as câmeras de monitoramento e as telas de plasma por onde os servidores acompanham a evolução das metas (verde, amarelo ou vermelho), de acordo com o perfil do cliente. Entramos em uma sala de 500 metros de comprimento por 5 de largura, dividida em cubículos, onde centenas de cabeças impecavelmente raspadas, bocas crispadas, imóveis em suas cadeiras, operam computadores ultravelozes; apenas os olhos dos funcionários apresentam sinais de vida. Para supervisionar os mínimos movimentos dos operadores de sistemas, o Capitão-Mor de Fazenda, sobrevoando por cima das cabeças, sentado em um trono movido a energia gravitacional, desloca-se de um extremo a outro do galpão, apitando, checando os monitores e disparando ordens eletrônicas.

Um zumbido contínuo, transmitido da Central de Inteligência para os fones de ouvido (de uso obrigatório), impede que os funcionários caiam no sono.

Esse era o cenário onde eu me movia.

Era dia de avaliação semanal. Antes de sair de casa, conectei o cabo serial do capacete em minhas narinas e baixei as últimas atualizações do PROJEGUE*, diretamente para o centro de memória instalado em minha caixa craniana. Nesse dia, em vista da avaliação, nossos cérebros estavam sendo escaneados pela SUCRILHOS** para supervisão de metas e verificação do cumprimento do acordo de tarefas.

Cheguei ao setor de controle do processamento de ideias com um segundo de atraso, e o Grande Jegue já estava quase arrebentando meus neurônios, apitando feito louco. Que alívio! Tão logo penetrei no corredor da sala de avaliação, cessou o zumbido estridente. Meus colegas, em posição de sentido, olhos fixos na parede em frente, miravam um quadro de Kuleshov no qual aparecia a foto de um cachorrinho feliz com um osso na boca, balançando o rabinho.

O primeiro a entrar na cabine de medição do nível de execução de tarefas — depois de tortuosos 480 segundos — saiu lá de dentro com o olhar catatônico, o capacete na mão, a testa chupada, como se o cérebro tivesse sido sugado por um desentupidor de pia, orelhas estranhamente crescidas e peludas — como as de um asno, animal extinto há alguns anos, muito apreciado pelos chineses na forma de salsicha.

Uma voz no alto falante anunciou minha matrícula: ZPT 52146325478. Creio que vocês gostariam de conhecer o Setor de Emburrecimento Fiscal (logicamente, esse não era o nome oficial do local, que se chamava Superintendência de Alguma Coisa Muito Importante), onde eram escritos os códigos do Sistema responsável por nos manter alinhados. O Setor de Emburrecimento ocupava dois andares da Cidade dos Tecnocratas, em salas frias e bem iluminadas, computadores por todos os lados. Senti um estranho cheiro de merda, mas ali não se via gente andando pelos corredores, tudo era limpo e desinfetado. Antes de ser avaliado, dei uma escapulida e entrei no banheiro para vomitar. Não encontrei nenhuma alma podre, praticando a famosa cagada remunerada. De onde vem esse cheiro de bosta? — Mistério. Notei que o sanitário masculino estava repleto de câmeras de segurança.

Menos ansioso, entrei na Sala de Avaliação, onde ficava o imenso cérebro vivo, único exemplar que tinha autonomia para perguntar, escutar conversas alheias, bisbilhotar computadores e formar sinapses livremente, sem as amarras do capacete craniano que nos adornava a cabeça. O Sistema era alimentado com os dados armazenados em nossos cérebros positrônicos, o que possibilitava aos gerentes de projeto calibrar o planejamento de acordo com a realidade tributária observada por nós, os fiscaiscops.

Uma vez dentro do recinto,  o corpo do fiscal era  afivelado à cadeira neurotransmissora. Em seguida, quatro assistentes depilavam o mais ínfimo pelo de nossos corpos (inclusive daquele lugar; todos os cops eram obrigados a se manter devidamente lisinhos, do dedão às sobrancelhas, não só os do sexo feminino, para facilitar a circulação da carga eletrofotoquântica). Por último, as estagiárias colocavam em nossas cabeças o capacete neural e tinha  início  o processo de TMF *** —  processo que consiste em extrair da cabeça do servidor os relatórios de execução de tarefas, visando medir, quantificar e controlar o grau de Alinhamento Estratégico, e, de quebra, aproveitar a ocasião para introjetar no cérebro dos subalternos os ensinamentos oficiais do governo atinentes à educação moral e cívica, sexual, fiscal e outras, inerentes ao bom-mocismo preconizado por um tal Aébrio Never, o Pai dos Mineiros.

Convém ficar sabendo: para se evitar boicotes ao Sistema PROJEGUE, os fiscais-cops não tinham autonomia de movimentos. Os membros superiores e inferiores (originais de fábrica) do funcionário, tão logo o agente ingressava no cargo, eram amputados e substituídos por mecanismos artificiais. Bastavam dois meses de treinamento neural para que os movimentos de braços e pernas do funcionário ficassem sob controle do Grande Jegue.

O fiscal-cop, dotado dos mais modernos acessórios, só ia aonde o Sistema permitisse, e só pensava o que o Sistema pensasse, vendo-se, de corpo e mente, algemado ao paradoxo da Programação: “PROGRAMAR significa restringir a gama das possíveis escolhas com a finalidade de produzir entre todos os possíveis futuros aquele com maior capacidade de aumentar o poder dos próprios programadores”. (Criatividade, Domenico De Masi).

Quanto ao debate doutrinário, visões diferentes sobre o mesmo assunto tributário, esse problema não mais existia — a ciência social do direito, com a evolução das redes neurais, acabou por se transformar em uma ciência exata. A partir da implantação do PROJEGUE, tornou-se inadmissível a existência de duas interpretações distintas sobre o mesmo fato jurídico-tributário: a visão dos cops era padronizada, orientada por premissas definidas e cadastradas pelo Sistema. A função do fiscal era simplesmente encaixar os fatos, como uma luva, ao rol de ocorrências tarifadas. Em breve, seria desnecessária a existência de qualquer instância de Revisão Fiscal.

O mecanismo que fazia o ser humano enxergar, devido às imperfeições do nervo ótico, estava sujeito a interferências ocasionadas pela emoção,  estresse, preconceitos e parcialidade do juízo humano. Graças ao PROJEGUE, isso não mais ocorria. Eliminados os ruídos humanos, o fiscal-cop só enxergava o que estava predeterminado pelo Sistema. O que não ingressava no mundo robótico nunca existira no mundo dos fatos. No admirável mundo frio e tenebroso das Máquinas, não havia muitas opções de vida. Para um fiscal-cop, as três leis da robótica eram infalíveis:

1 – Um fiscal-cop, por ser um robô programado pelo PROJEGUE, não pode contrariar ou ferir seu superior, nem em pensamento;

2 – Um fiscal-cop deve obedecer às ordens superiores — a menos que tais ordens possam causar problemas ao Superior, principalmente se a obediência à ordem ilegal vier a colocar em risco o cargo de seu Chefe;

3 – Um fiscal-cop deve proteger sua própria existência — desde que, para se manter vivo, o robô não tenha que ferir seu superior, o que anularia a primeira e a segunda ordem.

Diante das ordens imutáveis da Robótica, incapazes de se suicidar, impedidos pelo Sistema de assassinar os próprios Chefes e desprovidos de oportunidades de ascensão na Carreira, restavam três opções aos fiscais, não mutuamente excludentes:

1 – ser um completo imbecil;

2 – fingir-se feliz com tarefas imbecis; ou,

3 –  lamber as botas dos superiores para ascender ao reino dos cyborgues.

 

 

Nota: esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos é mera coincidência. Publicado originalmente no sítio da REFAZENDA, em 06/10/2004.

 


* PROJEGUE – Projeto Ultra Secreto de Jeração de Jegues.

** SUCRILHOS: Superintendência de Compressão, Parametrização e Idiotização da Inteligência Fiscal.

*** TMF: Transmissão de Memória Fiscal.

 

 

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