Filosofia oca

Pra começar vou logo dizendo que é bem mais fácil criticar, ser mordaz, do que ser amorosa e construtiva, eu que o diga. Mas tudo nesta vida depende das circunstâncias, e porque não dizer, de sua substância intrínseca.

No outro dia, um amigo do ramo livreiro estava comentando comigo — falava sobre o maravilhoso mundo dos digitais, claro, que por enquanto, enquanto não chega a amazing Amazon.br, de maravilhoso não tem nada, ou muito pouco — que no Brasil as pessoas estão sempre olhando para o lado errado.

Eu pensei que ele estava falando da revoada de editores em Frankfurt esta semana, pagando fortunas por best-sellers cujas preciosas traduções serão publicadas em breve em todas as línguas pelas próprias editoras originais, podem escrever aí. Mas, não: ele reclamava que todo mundo se preocupa com a plataforma e deixa de lado o conteúdo, e conteúdo, como vocês sabem, é tudo.

Por ironia do destino, plataforma é o que a poderosa Amazon tem de melhor; hoje mesmo, por exemplo, uma leitora reclamou de um livro digital que comprou, mas não levou, e nem sonhando eu vou contar em que “plataforma” furada ela se enfiou, mas deixa isso pra lá. Tudo isso tem data marcada pra terminar, já o tal conteúdo…

Tem se mantido teúdo e manteúdo na esfera do sexo, embora assim de início não parecesse. Explico.

Quando começamos a KBR — como vocês sabem precursora em tudo, ou em quase tudo —, o assunto do momento eram as intermináveis séries de vampiro, e eu disse pro Alan: “Nem morta eu publico isso”, detesto esse blablablá sangrento e chupativo, tudo desculpa de igreja pra encobrir o sexo com um verniz enganador de pecado mortal, e põe transgressão nisso.

Não levou uma semana e um texto sobre vampiros aportou na minha mesa, naquela época ainda bem-arrumada e bastante carente, e era tão bom, que, bem, concedi. Publiquei, acabei publicando. Obviamente, fazia pouco de todas aquelas mordidas com charme, um ar de mistério na exata medida e experiência na escrita, plural literário bastante raro no mercado: A Transilvânia é o Catete, de Ricardo Hofstetter, pra quem ainda quiser ler sobre o tema de forma impossivelmente inteligente, como o próprio nome (do livro) diz.

Voltando à mania dos vampiros, pois é: sugaram tanto que a veia acabou seca, como todos sabem e como tudo acontece nesta nossa era de sugar tudo até o talo, mas de sexo não havia como desistir, afinal de contas, se desistirmos dele desistimos em última instância de nós mesmos, não é mesmo? Sex’r’us. Difícil é encontrar nisso tudo um conteúdo que não seja apelativo.

E como essa coisa de igreja vai caindo cada vez mais no poço sem fundo do ultrapassado moralismo, a onda sexual deu a volta por cima e voltou com tudo, que nem um tsunami, digo, saiu definitivamente do vermelho e entrou naquela zona cinzenta onde tantos se encontram agora, meio perdidos em fantasias vãs, pré-fabricadas e nunca vividas realmente, em breve vocês verão por que estou reclamando tanto disso. Resistir, quem há de.

O problema, pelo que ouvi mas não li, continua o mesmo: conteúdo. Mas não vamos perder com isso o nosso precioso tempo, pois como diz o Alan, meu personagem favorito — uai, e vocês acreditavam que ele existia mesmo? — naquele clássico de que não posso dizer o nome, “pra ser sincero, mais olhando do que fazendo”, mas ele falava de Paris, viu, gente?

Embora, é claro, seja este cada vez mais o lema de nossa civilização conectada, ou virtual, descrevam como quiserem, uma civilização de voyeurs sem buraco de fechadura, o buraco se alargou, se aprofundou e se instalou com uma energia sugadora tal que se tornou quase um buraco negro que engole todo o resto enquanto proíbe o gozo, e isso nos deixa aonde?

Somos nós aquele pau viagramente ereto que a enorme boca trituradora engole, e se a gente não der, babau, mas aí me desviei completamente do meu tema, desculpem. Me deixei invadir. Ou abusar.

O que nos falta, eu acho, mas não assino embaixo, é humor, refinamento e inteligência, mais um pouco de transparência, em outras palavras, um conteúdo que não seja em vão. E isso, como já se disse, é difícil de encontrar. Mas existe, tem que existir, ou onde é que a gente vai parar?

Vou resolver. Prometo.

Meu medo é não conseguir comprovar que toda essa energia falsamente forjada pela indústria consumista tem sido produzida por falsos especialistas, e a gente se deixa levar. É humano. É da vida.

O que me faz desejar voltar, ainda que por uns poucos momentos, aos velhos tempos daquele revolucionário, auspicioso início de modernismo, ou bauhausianismo se preferirem a exatidão, onde “menos” ainda era “mais”  — antes que a besta se soltasse, se é que vocês me entendem.

Nosso slogan elitista num mundo cultural onde o bom design, muito por conta daquela maçã proibitiva, tomou conta de tudo a um ponto tal que certamente peca pelo excesso consumista — que é seu oposto, mais uma ironia — deveria ser curto e grosso: desconfie.

E pra vocês, um excelente domingo.

 

 

6 comentários em “Filosofia oca

  • 16/10/2012 em 07:02
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    Seremos nós, os paus “viagranamente” eretos que o mundo digital engole? Até quando despejaremos bites e bytes pra sermos consumidos?

    Não sei.

    Salve,

    Carlos

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  • 14/10/2012 em 11:36
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    Esta comprovado, vampiros realmente existem e a Transilvânia é aqui. Bebam bastante sangue fresco neste domingo romântico. Parabéns, Noga, ótima cronica.

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  • 14/10/2012 em 11:35
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    Sobre voltar ao passado: Bem vai gostar de “Meia Noite em Paris” do Allen! Muito Bom.
    Sobre Conteúdo: Mais um Eufemismo “WEBiano”!
    Sobre Humor: É equivalente de inteligência logo…
    Sobre Filosofia: Religião é uma filosofia.
    Pessoalmente estou nessa por simples atitude “Hedonista”, não vou mudar os gostos e desgostos, mais vou me divertir! Irritando muita gente.
    Sabe, estou me encontrando, é teho mais de quinze, talvez seja um “Pulp Wtiter” rs rs rs

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  • Pingback: Noga Sklar | Filosofia oca

  • 14/10/2012 em 10:49
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    Edson, kkk, em breve você verá aonde vende, ainda está em processo, assim como a crônica que vc comentou antes que eu terminasse de escrevê-la! Bom domingo!

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  • 14/10/2012 em 10:41
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    Vou logo dizendo, sou culpado de tudo isso acima dito e descrito! “humor, refinamento e inteligência, mais um pouco de transparência” Cadê, onde vende, vou procurar no Goog*OhWait!!

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