Fidelidade


Só quando o sapateiro perguntou se eu tinha cartão fidelidade é que percebi a força do tal sistema de pontos.

— Madame, dez consertos dão direito a um saltinho grátis.  Ou uma boa engraxada de botas, daquelas com produto especial para couro.

Botas? Cara, eu moro no Rio de Janeiro, só usa botas aqui quem é fashion victim.  Fico com o saltinho.

Agora tudo é cartão fidelidade e acúmulo de pontos.  Milhagem em companhias aéreas e cartões de crédito são clássicos, mas hoje em dia há pontuação para restaurantes, lojas, supermercados, cafés, farmácias, até administradoras de condomínios.

Num posto de gasolina, por exemplo, abasteci duas vezes e já tenho 2.140 pontos.  Troquei por cupons para o sorteio de um iPod.  Avaliando o número de pessoas que abastecem naquele posto diariamente, calculo que a probabilidade de eu ganhar o iPod é de uma em dois bilhões.  Como sou azarada em sorteios — até agora o único artigo que ganhei foi um bolo numa quermesse quando eu tinha quinze anos —, suponho que no meu caso essa probabilidade seja de uma para meio trilhão.  De qualquer forma, não perdi nada, não é?  A não ser o fato de que agora eles tem o meu e-mail e o número do meu celular.  Com uma probabilidade de cem por cento, qualquer dia desses vou perder um tempão com alguma atendente de telemarketing que possa estar me ligando e possa estar me oferecendo a oportunidade de ser cliente vip do posto, se eu fizer um cartão de crédito com a bandeira da gasolina deles, cuja anuidade é gratuita no primeiro ano; e no segundo, vou ter que brigar para cancelar.  Aceitando o cartão ganharei um bônus de muitos pontos no posto, que trocarei por cupons para o sorteio de mais iPods, e a vida segue.

No cartão fidelidade da farmácia, nem tudo dá direito a marcar pontos.  Comprou sabonetes e quer pontos?  Nem pensar.  Só comprando remédios tarja preta.  Não dá para ser feliz assim.

Num restaurante, vinte mil pontos ganham uma sobremesa.  Você almoça lá umas quarenta vezes e ganha uma sobremesa de oito reais.  Acha mau negócio?  Compare com os trinta mil pontos necessários para ganhar uma caneta com o logotipo do seu cartão de crédito.  Brindes melhores só com cinquenta mil pontos, isto é, quando você tiver ultrapassado todos os limites do seu cheque especial.

Não podes vencê-los?  Junta-te a eles.  Aproveito e inauguro, aqui e agora, o meu próprio sistema de milhagem: cada crônica que você ler, ganha dez pontos.  Quando completar quinhentos pontos terá direito a uma linda foto autografada da autora.  Nem tão linda, nem tão original, mas depois de ler tantas crônicas talvez você faça questão de pendurar a foto no seu escritório como alvo para um joguinho de dardos.  Com setecentos pontos, a foto já vai com os círculos dos alvos impressos.  Com novecentos e cinquenta pontos mando também os dardos. Imperdível.

 

 

 

7 comentários em “Fidelidade

  • 30/03/2012 em 19:07
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    Sugerido pela propaganda de sua crônica, gostaria de possuir um cartão de milhagem para concorrer somente alvo, sem o dardo, para não ser imitado pelos daqui de casa que, inspirados, certamente gostarão de ter-me como alvo de suas vinganças.
    Abração Milton

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    • 30/03/2012 em 22:01
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      Tenho certeza de que na sua casa vc não corre esse risco….

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  • 25/03/2012 em 19:00
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    Cláudia.

    Adorei sua crônica de hoje. Pode ir juntando meus pontinhos.
    Aliás quero saber se as já lidas contam pontos. Dispenso os alvos.

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  • 25/03/2012 em 10:34
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    As vezes penso…porque nao tenho humor?…digo, ver graca em varias coisas…muitas sao hilarias e eu fico triste no lugar de dar boas risadas…ate acho graca em algumas piadas, mas longe de ser humor…o seu me mostra que deve ser legal ser assim, descontraida, alegre, saber fazer graca com as coisas, parabens, voce e’ otima.

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    • 25/03/2012 em 20:22
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      Quem verdadeiramente não tem humor, nem se dá conta disso. E você já está rindo….

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