Fidelidade*

— Minha filha, coma mais um pedaço desse queijinho, foi feito ontem mesmo e está fresquim, fresquim.

— Obrigada, D. Laura. Mas estou mais que satisfeita, pois tomei café ainda agorinha. Não são nem dez horas.

—Que isso, menina, prove pelo menos essa linguicinha. Fui eu mesma que fiz, com um porco que o capataz caçou. É porco alongado. A carne é muito sequinha.

— Obrigada, deixe pra mais tarde, que estou ansiosa pra saber dessa história de homem de quatro pés.

A gargalhada da velha senhora encheu o ambiente. Enquanto ria, sacudia a vasta pança. Riu tanto que, no fim, terminou com os olhos marejados de lágrimas.

***

Então, menina. Foi há muito tempo. Eu mesma era quase uma criança, e tinha me casado havia pouco. Hoje conto a história rindo, mas naquela época foi muito triste para mim.

Era noite de chuva. O céu vinha abaixo havia cinco dias, sem parar e relampejava, trazendo o dia de volta para a noite escura, sem Lua. Por aqueles dias eu estava esperando o finado Zégui, que estava em comitiva fazia já mês e meio. Tinha sumido na poeira, levando uns boizinho pra trocar por novilha.

Estava casadinha de novo e não via a hora dele chegar. Naquele tempo, a gente casava moça virgem. Os pais da gente cuidavam muito, mas desde que eu provei daquelas safadezas não queria mais dormir só. Toda noite era uma aflição, por estar sozinha naquele lugar desconhecido e por falta do calor de meu marido, com seu ressonar pesado.

Conheci meu noivo numa tarde, quando estava jogando os restos de comida para a criação. Vi o homem chegando, montado num cavalo de arreio muito lustroso. Vinha cansado, demorado; e dava pra ver o suor escorrendo, os cabelos muito negros pregados no pescoço e uma barba de uns dias. Olhou em minha direção e até tentei desviar o olhar, mas não pude. Achei que era muito feio e tive medo, mas não conseguia tirar o tal de meus pensamentos. Um dia, meu pai me disse que eu ia casar com ele.

Quando saí da casa de mamãe levei comigo somente umas panelinhas e um enxovalzinho de pobre; Zégui trouxe seu cachorro, misturado de pastor com vira-lata mesmo. O animal seguia o dono por tudo quanto é canto. Até no dia do casamento tiveram que prender o bicho, que ficou uivando o tempo todo. O padre interrompeu a cerimônia e mandou levarem o cão para longe.

Pois então, tudo isso pra dizer como essa fidelidade pelo dono foi a desgraça dele, e minha também. No dia da saída de meu marido para essa tal de comitiva, o companheiro foi atrás até onde deu. Depois de muito enxotado, o pobre animal acabou voltando para casa; tinha as patas sangrando e ganiu por muitos dias, até que finalmente, depois de muito agrado e paciência, acabou se aquietando, mas tanto eu como ele não víamos a hora de ver nosso homem chegar.

Vou confessar que sempre fui muito ciosa de meus pertences, e até uma pontinha de ciúmes do cachorro eu sentia. Naquela noite de tempestade, eu e o cão estávamos inquietos: eu com uma saudade dentro do peito e uma gastura dentro do ventre que me fazia rolar pela cama, sentindo falta de nem sei o quê. Apertava o peito com os braços, já que o coração estava murchinho; e me deitava de lado, prendendo a almofada no meio das pernas — o cachorro inquieto e atento, me olhando a cada barulho diferente e assustado com os trovões.

Conforme a noite crescia, piorava nossa angústia. Foi quando o cão se levantou e começou a latir como o demônio. Eu gritava pra que ele se aquietasse, mas fui ficando preocupada: era só eu, ele e Deus naqueles confins e podia ter alguém procurando uma malquerência por ali.

O descorçoado se levantou. Corria pela casa, atacando a porta com as patas, que ficaram arranhadas. Quando eu zangava, rosnava para mim. O medo de abrir a porta era grande, mas o medo do animal foi maior, e então soltei a fera.

Ele saiu em disparada e eu fui atrás, pois não estava dando conta do que poderia ser. Pisando nas poças, de chinelo, com meu vestido fino pregado no corpo, quase não via o cachorro, só mesmo nas faíscas do céu.

Quando o fôlego quase não dava mais, caminhei mais um pouco e vi o bicho latindo e batendo na porta de um casebre. Eu quase não conhecia o lugar, não sabia quem morava lá. Peguei um pedaço de arame que vi pelo caminho, e quando ia enrolando no pescoço do animal para trazê-lo de volta, vi o cavalo de Zégui.

Foi nessa hora que a porta se abriu e apareceu uma figura muito grande, de chapéu e capa até quase o chão, escorrendo água de chuva. Estremeci de medo, pois nunca tinha visto um homem tão grande. Conforme ele veio em minha direção com um passo esquisito, olhei para baixo e vi que estava descalço, mas o pior é que tinha dois pés grandes e mais dois pequenos.

Soltei um grito de pavor quando o monstro me agarrou o braço. Era Zégui, me mandando ir para casa. Obedeci. Estava indo quando o cachorro latiu; ainda olhei para trás mais uma vez e vi os pés pequenos se enroscarem na bainha da capa — derrubando uma mulherzinha, franzina, pelada como um rato recém-nascido parecia ter sido parida pelo monstro.

O ódio tomou conta de meu corpo quando, finalmente, entendi que o meu tão esperado marido, ao chegar, não me procurou, e sim àquela figurinha ridícula enroscada no chão, tremendo de medo. Meus olhos encontraram os dele no escuro por um instante, para nunca mais.

A manhã seguinte, esplendorosa, me encontrou no umbral da porta de minha casa — o peito estraçalhado de dor, olhando praquele pobre e fiel cachorro, morto e jogado no meu terreiro.

O homem de quatro pés eu nunca mais vi.

 

* Nota da editora: Este conto de Priscila Ferraz levou o 3º lugar no Concurso de Literatura do Sindiclubes. Priscila Ferraz é colunista do Crônicas da KBR e autora do excelente romance Nuvem de Pó.

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Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

8 comentários em “Fidelidade*

  • 23/09/2012 em 17:54
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    Bem escrito!
    Agora…. que o ser humano não foi feito para ser fiel… isso SIm!
    De novo sofremos por uma visão inreal do mundo…
    Fazer o que?
    A vida essim!

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  • 21/09/2012 em 15:19
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    Priscila ,
    Seus contos e crônicas, tem uma conotação diferenciada, pois vêm com um conteúdo de realidade e simplicidade, continue assim, você esta cada vez mais se superando.
    Bjs.

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  • 21/09/2012 em 15:18
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    Parabéns de novo, Pri!!! Muito legal! Bjs

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  • 21/09/2012 em 14:49
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    Que legal! Coitadinha da pobre, mal casou, já tomou corno… Beijo mana.

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