Fênix

E de repente ela se sentia como se houvesse sido arremessada, na velocidade de um foguete, para uma nova realidade. Tudo aconteceu num piscar de olhos, pois de um dia para o outro, graças a um bom contrato de trabalho que surgira parecendo vir do nada, ela se viu içada do que duramente vivenciara como seus sete anos de vacas magras.

Oito anos antes ela tinha se lançado, por livre e espontânea vontade, em um abismo profissional. Na época, acreditava estar deixando para trás, definitivamente, a redatora publicitária que sempre fora. Agora, porém, ela enfim compreendia: para ser a escritora que queria, deveria aprender a caminhar com um pé de uma e um pé da outra, já que era ainda a publicitária quem podia pagar as contas.

É verdade que o milagre em movimento se mostrava inquestionavelmente poderoso. Chegava atendendo à sua fé mais verdadeira, pois ela sempre acreditou que um dia reencontraria a abundância. O que ela ainda não sabia, no entanto, era o quanto ainda podia se perder na falsa sensação de poder que o dinheiro pode trazer.

E lá ia ela balançando seus cabelos recém-cortados, andando de braços dados com o marido em um shopping apinhado de gente num sábado à tarde. Por conta dos dias apertados, dedicados exclusivamente ao trabalho, qualquer momento juntos era agora uma preciosidade. Tinham-no reservado uma semana antes justamente para se divertirem procurando pelas roupas que ela tanto desejava.

Aquela, porém, que andava pelos corredores, já não era mais ela, mas uma menina mimada. Afinal, por que ela se mostrava tão desagradável se finalmente — graças a Deus — podia ir às compras?

Pois ela reclamou, praguejou e se irritou até brigar por nada com a atendente de uma loja. Parecia mesmo estar abduzida, não por alguém lá fora, mas pelo seu ego que, de uma hora para outra, ressurgia das cinzas de maneira assustadora. Naquele momento ela já não era a pessoa que tinha se tornado com os anos difíceis que experimentara, mas sim a dondoca que acreditava ter deixado definitivamente em seu passado. Ela se mostrava tão chata e aborrecida que até o marido estranhou, chegando ao ponto de lhe passar um pito — o que fez, na hora, cair vergonhosamente a sua ficha.

Mais tarde, em casa, guardando as novas roupas no armário, ela tratava também de arrombar e limpar suas gavetas trancadas, arrancando de lá qualquer noção equivocada que ainda pudesse guardar escondida. Desse modo, estaria segura de que a partir daquele dia ela possuiria as coisas, sem jamais se deixar novamente ser possuída por elas.

 

 

Você pode gostar...

4 Resultados

  1. Raissa Mendes disse:

    Adorei a crônica! Principalmente por que tenho que lutar para me manter com os pés no chão e ainda tenho que achar o equivalente a esse lado “publicitária que paga as contas”. Viver de idealismo é tentador, mas não alimenta , não aquece, não nos dá meios de sobreviver.
    Temática boa essa de possuir coisas x ser possuída por elas, pelas propagandas, pelo modelo perfeito ou momento perfeito que o objeto de consumo quer nos vender.

    Beijos Ethel querida!!!

    • ethel disse:

      Boa Raíssa… não é à toa que te amo, lindeza!
      Adorei te ver aqui, bem a tempo de eu ainda lhe dar os parabéns atrasados pelo seu aniversário, né?
      Beijão e mil felicidades possuindo seu coração…

  2. Olá Ethel.
    Tema difícil e muito bem abordado!
    Será que vamos conseguir possuir coisas sem ser possuídas por elas! Parabéns.
    beijo grande

    • ethel disse:

      Ei, Vera,
      Agradeço, querida!

      E que boa pergunta… acho que é um exercício diário a ser praticado…
      Beijão com saudades.

Deixe você também o seu comentário