Feliz inferno astral

por Paulo Girão

 

1.
Pôxa, que legal! Tô chegando aos 60 anos, idade inimaginável de se alcançar, quando se tem 15, 20, 30… Falta pouco, só um mês, um mês e meio, e como eu sou um cara precavido, o rei do planejamento, vou tratar de me calçar financeiramente pra curtir numa boa, com dignidade e prazer, a minha entrada triunfal na sexta década de vida!

Esse primeiro parágrafo, caro leitor, foi mais ou menos o texto que passou na minha cabeça, numa linda manhã de quarta-feira, antes de chegar ao banco onde mantenho conta-corrente há quase trinta anos e ser informado de que não poderia fazer nenhuma operação de crédito porque o meu CPF estava com “pendência”… A palavra pendência, assim no singular, me lembrou “apendicite”, e subi à gerência pra saber qual era a gravidade da minha “pendencite” e marcar imediatamente uma operação cirúrgica.

A gerente me mostrou a tela do computador: eu – enquanto nome e CPF, não EU mesmo, de verdade – tinha uma dívida com uma financeira, cujo nome, composto de duas letras, me era totalmente desconhecido: BV, de Banco Votorantim.
Votorantim eu sei que é o nome da megaempresa da família do Dr. Antonio Ermírio de Moraes, aquele velho simpático que eu acho que morreu. Mas, Banco Votorantim? Êta, nós! Dias depois, descobri a existência de outro BV, o Banco Volkswagen, que eu só conhecia como o bom e velho Fusca. O Brasil tem cada banco! E muitos deles vivem de dar golpe, taí o Banco Cruzeiro do Sul, outra arapuca, que não me deixa mentir.

A ‘minha” dívida era no valor de… 70 mil reais e uns quebrados! A gerente, infelizmente, não acumulava sua função gerencial com a de médica cirurgiã, e me aconselhou a ir ao Serasa.

2.
Quando saí da agência do banco do qual sou cliente há quase trinta anos, o texto inicial na tela da minha cabeça tinha caído, sido substituído por outro, impublicável (depois, soube que apendicite é uma inflamação que tem a ver com acúmulo de fezes num pedaço do intestino, ou algo assim, tudo a ver com fraude bancária).

Ao voltar pra casa, o nome da Financeira latejava na minha cabeça: BV, BV, BV… Me lembrei dos alunos adolescentes que eu tinha antes de ser aposentado e que chamavam de “BV” a garota “Boca Virgem”, ou seja, aquela que nunca tinha beijado um garoto na boca. Eu também nunca tinha beijado a boca desdentada e fedorenta dessa realidade grotesca que aplica golpes em senhores honestos, ingênuos, bons e otimistas (leia-se, otários) como eu, prestes a completar 60 anos. Agora, sou BV: “Boca Violentada”. Ou, então, simplesmente, “Bola da Vez”.

Naquela mesma luminosa tarde, fui ao Serasa Experian (eu, hein, que chique… e que merda!), onde aprofundei um pouco mais minha “experian” como vítima da pilantragem brasileira (que não tem nada a ver com a pilantragem musical do tempo do saudoso Wilson Simonal). Descobri que, além da pendência bancária, eu tinha mais duas, financeiras, estas, com a Nextel e a Embratel! Deus dos meus 60 anos! Nunca tive nada com a Nextel — não sou da gangue dos cupinchas do Cachoeira, que usavam o tal aparelho que os denunciou —, nem com a Embratel — me disseram que a NET é da Embratel… não sei se é ou se não é; só sei é que pago à NET todo mês, religiosamente, porque dependo dela pra ver meia-dúzia de canais na TV e pra navegar nas águas da nossa sacrossanta Internet. Não devo nada a ninguém! Juuuuro!!! Nem juros…

3.
Os próximos passos do meu calvário de iniciante me levaram ao Procon e ao inevitável advogado — o próprio atendente do Procon me disse que era melhor eu ir à Justiça, o Procon não ia resolver nada. E a Justiça, resolverá? Isto aqui, ô, ô, é Brasil!.
Depois de algumas andanças pelos corredores do Fórum, troca de e-mails com o advogado, irritação com o advogado, uma ligeira vontade de matar o advogado (a malha jurídica não é mole, mermão!), veio a tristeza, a depressão, quase suicídio… Êpa, suicidio, não, só por amor, como queria Nelson Rodrigues (estou lendo “Nelson Rodrigues por ele mesmo”, de Sonia Rodrigues — uma graça de pessoa, embora seja doutora da PUC —, filha do genial escritor e dramaturgo, que me dá forças pra continuar imperfeito).

Quase ia esquecendo: eu tinha decidido, há alguns meses, passar a efeméride do meu atual aniversário na capital paulista; isso porque, há 30 anos atrás, quando fiz 30 de idade, eu morava em São Paulo, era compositor, cantor, boêmio e funcionário público (não necessariamente nessa ordem), lotado na Cultura Municipal. Agora, que faço duas vezes 30, me deu vontade de voltar a Sampa e curtir um pouco de sua arte, cultura e boemia, com olhos e ouvidos pelo menos duas vezes mais cansados, mas, por outro lado, mais afiados: Vou comprar logo minha passagem aérea!

Na Internet, acessei o site onde já tinha comprado passagens outras vezes, mas, na hora de concluir a compra, o meu cartão não foi autorizado pela administradora! Fula que faliu! A merda do CPF, por via indireta, tinha atacado o meu cartão de crédito. Não me dei por vencido: fui ao Santos Dumont e comprei a passagem à vista!

4.
À noite, próxima parada: bairro boêmio; Glória, ao lado da Lapa. Paro pra tomar umas e outras, ao lado de uma velha conhecida com quem comecei a conversar. Lá pelas tantas, sem falar nas agruras por que estava passando, falei do meu aniversário e, quase que por consequência, falamos em signos zodiacais. E foi aí que se deu a revelação, ou melhor, o retorno à luz de algo que eu já havia esquecido faz tempo: o “inferno astral”!

Não falei das minhas agruras, mas a senhora com quem eu conversava, como se lendo a minha mente, me disse que o “inferno astral” vai exatamente até o dia do aniversário. É isso! Eu estava/ estou em pleno gozo do meu inferno astral! Daí, tantos “malfeitos” que se abateram sobre mim, sem dó nem piedade! Não adianta chiar: a coisa termina só no dia do aniversário… Ou não?

Agora, aqui estou eu, vítima de fraude bancária e financeira, preso à malha jurídica que está se lascando pro meu EU profundo, sem autorização para obter crédito… Vou a São Paulo de teimoso! Pagarei tudo à vista, hotel, uísque, show e rapadura — porque a vida é doce, mas é dura, uma festa junina cercada de quadrilhas por todos os lados!
Seguirei feliz, vivendo ainda o infernal preâmbulo do meu aniversário, e, como bom geminiano, pra surpresa e preocupação geral, gritarei dentro do avião, a não sei quantos mil pés de altura: “Feliz inferno astral!”

 

 

Paulo Girão nasceu em Niterói, em 1952, e mora no Rio de Janeiro. É professor de música, cantor e compositor; trabalhou com música brasileira na educação, fez shows ao lado de grandes nomes da MPB e participou de festivais. Glória ao rei dos confins do além é seu livro de estreia e também o nome de sua composição imortalizada pelos Mutantes

 

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

4 comentários em “Feliz inferno astral

  • 12/06/2012 em 18:32
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    Obrigado, amiga. Até a próxima!

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  • 12/06/2012 em 14:39
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    Oi Paulo. Gostei. Inferno astral em aniversario e’ dureza. Parabens, leitura gostosa.

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  • 12/06/2012 em 12:31
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    Paulo…sabe parabéns pela sua atitude “filosófica” … na realidade a cada dia que passa tenho a percepção de que os ZUMBIS estão aumentando… aqueles seres que caminham pela vida sem valores… a procura de carne fresca… lembro do filme “Eu Sou A Lenda”.

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    • 12/06/2012 em 18:31
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      Obrigado pelo comentário, amigo.

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