Felicidade

Dennis Hopper e Christopher Walken em “Amor à queima-roupa”, de 1993.

Adoro cinema. Sou cinéfila, daquelas obsessivas. Quando gosto de um filme, assisto… inúmeras vezes. Na primeira vez, tenho que prestar atenção na história, saber do que se trata, quem é quem, seguir o fio narrativo. E como termina. Ok.

Se gostei, gostei desde o início. Não sei quem se lembra do Carlos Castañeda e de seu instrutor nas artes da feitiçaria, Dom Juan, um índio dito “iáqui”, no México. Certa vez, Carlos queria ler, se não me engano, um poema para ele. Depois de ler a primeira estrofe D. Juan disse que estava bem, não precisava ler mais. E explicou: “O começo de qualquer escrito já dá a dica do seu seguimento e da sua qualidade”. Eu testei e passei a acreditar nisso também: a apresentação de um filme já dá a dica toda.

Bem, tem um filme do qual gostei muito , “Amor à queima roupa” (“True romance” , no original), e gosto, há muitos anos. É de 1993, e se não me engano foi o primeiro roteiro do Quentin Tarantino para o cinema de grandes distribuidores.

Tenho vários amigos cinéfilos, graças a Deus. Apresentei o filme para um deles, que também gostou muito, mas não tem a minha memória detalhada para filmes que gosto e cenas especiais. Queria mostrar a tal cena para sua namorada, e vieram ambos vieram ver o tal filme na minha casa. Ou melhor, a tal cena, de um pai que sabia que o filho tinha pegado, por engano, uma mala lotada de cocaína pura no estabelecimento onde trabalhava sua atual esposa, ex-garota de programa da casa. Tinha ido no tal antro para pegar as roupas dela e tal  — e matar o cafetão, coisa que não contou para ninguém.

O pai sabia, porque o filho resolveu passar na casa dele e avisar que ia para a Califórnia tentar vender o produto de uma vez só, entre os astros e produtores milionários, para depois viver desse dinheiro com a sua amada. Abraços, beijos, reclamações e reconciliação entre pai e filho, e lá se vai o filho estrada afora.

Apesar de o objetivo ser mostrar o trabalho de dois atores (Christopher Walken e Dennis Hopper), tive que contar essa introdução para eles assim como estou contando para vocês, para situá-los na cena. Se não, muito do valor do trabalho deles ficaria perdido.

A cena é esta: no dia seguinte, o pai está chegando na sua casa-trailer, e mal entra, alguém já lhe encosta um revólver na testa. Havia um gângster de grande calibre dentro do seu cubículo-casa. O pai (Dennis Hopper), macaco velho, já entendeu que a barra está pesadíssima. O gângster chefe (Christopher Walken) é o próprio diabo encarnado. Ele mesmo se apresenta como o anticristo e assassino do próprio pai. Começa então uma conversa-interrogatório, alternando uma conversa aparentemente cordial e civilizada com súbitas pontuações de muita violência por parte do gângster. O pai, entendendo que vai morrer, se falar ou se não falar — e ele não vai entregar o filho —, resolve irritar o gângster de forma tal que este o mate antes de mais alguma tortura. E consegue. No fim do papo, o gângster lhe dá uma rajada de tiros.

O trabalho desses dois atores é magistral, e a cena se dá ao som de “Sous le dôme épais où le blanc jasmin” da opera “Lakmé” Ato 2, No 2, dueto composto por Léo Delibes  e libreto por Edmond Gondinet & Philippe Gille. É de uma suavidade celestial. Música de anjos. Onde está a felicidade?

Os dois ficaram encantados, mas, especialmente, a namorada, que é uma jovem atriz e nunca tinha visto a cena. Ficou repetindo: “Depois eu quero ver o filme inteiro!”

Meu encantamento com o encanto deles, e principalmente com o dela, foi tal, que depois, contando o fato para um outro amigo, comentei:

— Fiquei feliz durante horas!

Ele retrucou:

— Alegre?

E eu:

— Não. Ainda estou sentindo FELICIDADE. Dura mais ou menos 24 horas nessa intensidade, e depois fica gravada para sempre na memória dos momentos felizes.

A felicidade existe.

Bom fim de semana pra vocês!

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8 comentários em “Felicidade

  • 07/07/2012 em 12:02
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    Eu amo cinema também! Vejo o mesmo filme várias vezes e a minha FELICIDADE já começa na hora que avisam a reprise. Um dos meus favoritos em todos os sentidos e Maria Antonieta com a direção da Sofia Coppola. Para mim foi tão perfeito que não consigo parar de ver. Todos os quesitos foram extraordinários.Rosangela a felicidade existe sim!! A dificuldade para alguns é que não coseguem sentir plenamente, e muitos às vezes raramente…A felicidade esta ligada diretamente as expectativas … O segredo é não coloca la em um patamar inatingível.
    Beijos adorei demais o texto e a maneira peculiar da escrita

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  • 23/06/2012 em 16:41
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    Oi Rosãngela vc. escreve muito bem.Muito me encanta ler suas publicações.Fique c. Deus e q. ele te ilumine e inspire,sempre.bj.

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  • 23/06/2012 em 16:06
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    Oi, Rosângela!
    Que bom que você ficou Feliz!
    Sua Felicidade me contagiou e eu também Fiquei Feliz!!
    Parabéns!
    E Viva a Felicidade de Ser Feliz!
    Raul Augusto

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  • 23/06/2012 em 15:05
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    Sabe, neste últimos tempos as chamadas “vanguardas” com sua hipótese de que não necessária historia, drama nem personagens na nova “literatura” me têm deixado pensativo. Até pensei em escrever um manifesto…com uma ideia que estava girando na minha cabeça, e bem simples é óbvia: Na literatura, teatro..cinema (acredito que também em outras artes…) o que cativa as pessoas é o sentimento lúdico… trocando em miúdos POR QUE NOS DA PRAZER… o teu “FIQUEI FELIZ POR MUITAS HORAS”…. responde isto!

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    • 23/06/2012 em 17:17
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      Eu aprecio o trabalho das pessoas que fazem cinema. Me dá um prazer enorme ver um boa ator ou atriz trabalhando, om diretor,o roteiro as músicas escolhida, e tudo o mais. Quando é bom, é tanto esmero que resulta em tanta beleza que me comove até esse sentimento de felicidade. Abraços! Rosangela

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