Feijoadas


Entre minhas boas lembranças, está uma temporada em Manaus.  Eu conhecia um amazonense, estudante no Rio, a quem recorri para me ajudar no planejamento da viagem.  Foi quanto bastou para ela me recomendar à mana que lá vivia e, por intermédio dela, a outros irmãos e amigos.  Família enorme, a deles.

A mana foi incansável, não só ela como também os que ela designou para a tarefa de me recepcionar.  Levaram-me a todos os lugares, organizaram encontros ao meu redor.  Apresentaram-me à culinária local, peixes maravilhosos.  Só não foi perfeito porque havia também o tacacá, um prato que eles adoram.  Era vendido em carrocinhas ambulantes e, num fim de tarde, atravessaram comigo a cidade para ir a uma em especial, a melhor de todas.  Meus novos e encantadores amigos comeram deliciados, esperando de mim igual reação.  Foi uma das piores coisas que provei na vida, mas comi tudo, como recusar tanta gentileza?  Até hoje, quando alguém do norte, com a boca cheia d’água, menciona essa iguaria, morro de medo que me convidem.  Medo é pouco.  Pânico.

Poucos meses depois, a mana veio ao Rio.  Fiquei feliz com a oportunidade de revê-la e retribuir o carinho com que me acolhera em Manaus.  O mínimo que podia fazer era chamá-la para ir à minha casa.  Ela estava hospedada, com toda a família e alguns agregados, na casa do irmão.  Eu precisava convidar não só os de Manaus como também os daqui, os afins e os filhos, que eram muitos.  Solução carioca óbvia: uma feijoada.

Eu ainda morava com meus pais, mas eles estavam viajando.  Nunca havia feito feijoada nem qualquer outra coisa na cozinha, porém minha mãe tinha uma empregada antiga e, confiando nela, formalizei o convite.  Aceitaram com entusiasmo e a data foi marcada, sem possibilidade de adiamento porque a mana ia embora no outro dia.

Comecei pela lista de compras.  O item mais importante, naturalmente, era o feijão.  Feijão?  Impossível encontrar.  A falta já era notória, minha inexperiência de dona de casa é que não percebera nada.  Não me lembro por que o feijão desapareceu das prateleiras dos supermercados nessa época, mas isso foi antes do plano Sarney, que congelou os preços por decreto e provocou a falta de produtos básicos como ovos, leite e carne.

O que fazer?  Ainda não tinham inventado a pizza para entrega nem os restaurantes a quilo, e minhas finanças eram paupérrimas.  Passada a fase do desespero, encontrei uma solução: liguei para todas as minhas amigas, para as amigas da minha mãe, para as amigas das amigas, para as vizinhas e para as amigas das vizinhas, perguntando quem tinha feijão em casa.  Algumas possuíam uma ou duas xícaras, outras nem isso, ou talvez preferissem comer elas mesmas o artigo de luxo.  Muitos telefonemas e visitas depois, consegui amealhar uma razoável quantidade de feijão das mais diversas procedências — não tanto quanto eu precisava para me sentir segura, mas com sorte seria suficiente.

Chegou o dia e chegaram as visitas.  Eram muitas, como previsto, mas vieram ainda mais.  As crianças trouxeram amigos e vizinhos.  Explicaram que estavam brincando e não quiseram se separar uns dos outros, portanto resolveram vir todos juntos.  A família dos amazonenses era tão numerosa que eles achavam que onde cabem cinco, cabem cinquenta, e sem necessidade de aviso prévio.  Eu que, por causa da escassez do feijão, ansiava pela falta de algum dos convidados, tinha um bando extra de convidados mirins, alguns nem tão mirins assim.

Nada de colocar logo a feijoada na mesa.  Primeiro os aperitivos, os programados e os inventados na hora.  Abri todas as latas e pacotes disponíveis na casa, tentando reduzir a fome da criançada:  Bolacha Maria, biscoito salgadinho, sardinha em lata, tomate em rodelas, cenoura crua?  Tudo servia.  Uma hora não dava mais para enrolar: a feijoada tinha que aparecer.  Rala, por causa da água acrescentada, e acompanhada de uma travessa extra de arroz.  Mal sujei o prato, mas os convidados rasparam a panela, não sobrou nem um grão.  Não sei se foi coincidência, porém nunca mais vi meus amigos manauenses.

Traumatizada, passaram-se anos até que eu me aventurasse de novo a servir uma feijoada.  Um dia, já casada e morando numa casa muito, muito pequena, inventei de convidar uns paulistas para uma feijoada.  Sábado, como manda a tradição.  Um pouco mais experiente, certifiquei-me com antecedência da existência de feijão no mercado.  Existia.  Desta vez, disse para mim mesma, não vai faltar nada.  Comprei feijão suficiente para o dobro dos convidados.

Bem cedinho, na minha cozinha mínima, eu, um livro de receitas e uma empregada pouco dotada colocamos mãos à obra.  O feijão de molho desde a véspera, as carnes idem, constato que a quantidade não caberia em nenhuma das minhas panelas.  Na verdade não caberia nem se eu usasse todas as minhas panelas.  Resolvi fazer só a terça parte dos ingredientes, divididos pelas três maiores panelas da casa.  Passei a manhã levando as diversas carnes de uma panela para outra, porque o feijão precisava apanhar o gosto de todas elas.

A feijoada foi um sucesso, mas sobrou tanto que durante dois meses comi feijão congelado.  Declarei encerrada a minha carreira de feijoadas.

 

 

2 comentários em “Feijoadas

  • 17/06/2012 em 20:15
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    Vou pensar no assunto, mas o trauma ainda não passou……….

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  • 17/06/2012 em 10:37
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    Ja ja ja ja…
    Me lembra uma situação semelhante na casa da praia…mas isso é outra “historia”…
    Na próxima…por favor me convide OK.
    😉

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