Fecha-se o ciclo

"Moisés" (c. 1513–1515), de Michelangelo Buonarroti, imagem creative commons de Wikipedia.

Assisti esta semana na tevê a “Perfect Sense”, um filme assim meio filosófico meio proselitista que através de umas imagens bastante atraentes – com ênfase absoluta nos seios naturais da protagonista – passa uma mensagem meio absurda mas meio que faz sentido, dá pra entender? A história é de um casal já em princípio meio estranho, desencontrado desde o início, ele cozinheiro, ops, perdão, Chef de Cuisine, e ela cientista, melhor, epidemiologista, bem a calhar, pois há uma epidemia que não para de se alastrar e vai tirando dos humanos os seus sentidos, um a um.

Engraçado que mais tarde, comentando com Alan (via skype, viu, gente, eu no meu mato com meu gato e ele no dele, com cachorro e tudo, o cachorro – digo, cadela – do Erik, claro), dissemos ao mesmo tempo que tudo aquilo parecia a descrição injustamente poética de uma epidemia real, o mal de alzheimer, mas no filme a consciência dos personagens se mantinha intacta, bem, a gente não sabe bem se no alzheimer não se mantém, apenas pensa, afirma que não; e é assim mesmo, os sentidos da pessoa vão se trancando um a um, que sofrimento, meu deus, para quem sente e para quem vê.

No filme, a perda de um sentido vem precedida de uma overdose daquela mesma coisa ou coisa parecida, por exemplo, o primeiro sintoma era a perda do olfato, então as pessoas sentiam uma tristeza inexplicável, inconsolável, uma nostalgia de tudo aquilo que já tinham perdido um dia e de cuja perda até já se haviam recuperado — bem, estou assim também, calma num dia, no outro despedaçada, lembrando ainda toda aquela dor por que mamãe passou, por que, meu deus, por quê? — e logo depois… não sentiam mais cheiro de nada. Em seguida vinha o paladar, o que para o Chef era extremamente inquietante pois viria a afetar não somente o seu prazer, mas também o prazer de dar prazer aos outros; esta era precedida de uma voracidade incontrolável, coisa que a gente conhece também muito bem – o paladar foi a última coisa que mamãe perdeu, quer dizer, sei lá, mas certamente a capacidade de engolir, então, babau. Ainda no hospital, nos últimos dias, com aquela gororoba nojenta que a mantinha alimentada evitando o circuito do gosto pra ir direto aonde interessa, o buraco no estômago, se é que vocês me entendem — no final, desculpem, tudo que entra, sai, ou entra pra sair —, coitada, ainda se lambia com o purêzinho de maça da fonoaudiologia. Nossa mãe.

Bem. A comparação com a doença real vai bem até um determinado ponto, porque o último sentido a ser perdido é a visão, quando, ao contrário dos cegos na vida — Liliane Camargos que o diga: vai se sair em breve pela KBR com A Psicanálise do olhar, ou, O Sonho dos Cegos, ela andou indecisa mas ficou com o primeiro subtítulo para seu livro de estreia, Do ver ao perder de vista —, já não havia outros que o substituíssem através de sua intensificação. Era a suprema mortificação, mas… ops. Peraí.

Antes que a luz se perdesse eram todos tomados por um excesso de luz, de amor, de querer estar junto do seu amor deixando de lado as diferenças, e o impulso era tão irresistível que quem não tivesse  com quem se virava ali mesmo na rua com alguém, mas não era o caso, no nosso caso havia um casal que estivera apaixonado porém se perdera, momentaneamente, por uma dessas besteiras a que hoje em dia a gente dá ouvidos pra não ter que se aporrinhar no dia-a-dia com a por vezes incômoda presença do outro. O fato é que uma vez abraçados, perdoados e iluminados, kaput, ia-se embora a visão, a visão de fora, pelo menos – ficavam os amantes embolados em sua própria e particular escuridão, afinal de contas, o amor é cego: de um amor no escuro nascemos e por entre outros amores no escuro, ou, pelo menos, à meia-luz, todos desejamos caminhar, são duas escuridões separadas por um intenso período de luz  [de ambos os lados da existência], hipotético, é claro, pois ninguém acredita realmente, visceralmente nisso, embora todos queiramos intensamente acreditar: da luz viemos e para a luz vamos voltar.

Agora, o problema sério do filme, ou, pelo menos, sua questão crucial – que nunca é explicitada, como, aliás, tudo na vida –, é que os quatro sentidos passam, mas o toque fica. Na cena final, os amantes, surdos, cegos, sem olfato nem paladar para se identificar, sentem ainda o toque molhado de suas mútuas faces a se tocar, molhado pelas lágrimas que correm, lágrimas de um desespero mortal ou pelo consolo de estarem juntos no momento fatal, sei lá. E isso me pôs a pensar.

É verdade, por exemplo, que no alzheimer o toque fica: a pessoa totalmente trancada em sua própria jaula, desprovida [da liberdade] dos sentidos e de quase todo o sentido que há na vida, sente-se mal ou bem quando é tocada por alguém e a isso reage, dependendo de quem a toca, claro. O Alan, por exemplo — ah, lá vem o Alan mais uma vez, é saudade pura, gente, quando ele está aqui nem ligo —, tinha um talento especial para tocar a mamãe: era aquela “mão de cirurgião” pressionar de leve o braço dela e ela parava de tremer, de gritar, o que fosse que a estava fazendo sofrer. Gostava. Sentia prazer. Embora, como vocês sabem porque já contei, quando ainda o enxergava ela literalmente se assustasse com ele, “sai daqui” etc.

Por outro lado, a única coisa no final das contas que realmente nos identifica – e me pergunto, por que seria que assim por nós ficou decidido? – não é nosso nome de batismo, nem nossa cara, nem nosso cheiro e muito menos o gosto da nossa carne quando lambida, a não ser, é claro, para os mais íntimos amantes, mas o toque, nosso toque único, o registro da polpa dos dedos eternizado, a nós associado para sempre nos computadores da burocracia.

Não deve ser por outro motivo que esses autointitulados “cientistas do apocalipse” que abundam por aí, preconizando para qualquer momento futuro o fim deste mundo e o início de um outro qualquer, volta e meia se gabam de terem encontrado em suas pesquisas “a digital de Deus”, Deus, aquele que ninguém ouve, cheira, degusta ou vê, mas cujo toque se encontra em tudo que nos cerca e até mesmo em nosso próprio corpo, dizem, afinal de contas, conta a lenda, fomos modelados com cuidado e prazer por sua própria maõzona onisciente de artista: Allora parla!

E um bom domingo procês.

 

 

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