Fé no consumo, Catitu!

O nome é Adenilson, mas o chamamos de Catitu desde os tempos do campinho. Ontem, nos encontramos no bar do Kaneko: caldo de canjiquinha com costela de porco. Baixinho, cabelo partidinho no meio, pançudo, é vendedor na loja de eletroeletrônicos. Glorioso, depositou seu novo celular no balcão, um Blackberry.

“Me falaram que é o celular do Obama”, festejou. Catitu namorou o aparelho na sorveteria aonde levou a filha. “Vi o bacana marrento exibindo o bicho. O meu era bem chulé. Acabei trocando”.

Está cumprida a Lei da Física do Consumo: vemos o produto e o compramos em função do pertencimento ao grupo daqueles que o possuem. No fundo, o consumidor não deseja só o produto. Ele quer aceitação em um meio, uma promoção social. O consumo é a adolescência que persiste.

Catitu estava transbordando no celular. Pediu uma pinga com jurubeba. Debulhou a conquista. “Vem com computador. Cabe um caminhão de música e faz filmagem. Se cair, não quebra. E é seguro! Esse povo que invade a gente lá dentro do computador não entra aqui não”.

De tanto vender geladeiras “side by side”, Catitu entrou para a classe C. De tanto comprar TV de LCD, a classe C elevou o Índice de Confiança do Consumidor. Ironia besta: agora que o trabalhador pode comprar, urubus dizem que a economia brasileira pode superaquecer e supitar. Só falta eles mandarem o trabalhador parar de comprar e guardar dinheiro na poupança, já que, se a inflação progredir, a classe C seria responsabilizada.

“Catita” andou ganhando comissões aos golfos graças ao que ele chama de “fenômeno das lavadoras de roupas”. “O aumento das vendas beirou os 100%! Fiz um puxadinho pra aumentar a cozinha e comprei uma poltrona toda massa pra minha mãe!”

Segundo Catitu, “nem a empregada quer esfregar aquela roupa de cama pesadona”. Gesticulando rodopios, o vendedor demonstrou a centrifugação da lavadora, que “deixa a camisa tão seca a ponto de sair vestindo”, e dissertou sobre a mulher moderna: “Ela quer tempo pra outras paradas, estudar, ganhar sua grana. O problema é que os filhos perderam as estribeiras por causa disso. Minha mulher, não. Cuida da minha filha direitinho. Enquanto eu puder, deixa quieto. Ela fica em casa.”

Fumando cigarros paraguaios, Catitu apontou para a queda nas vendas de aparelhos de som. “Todo mundo só quer saber desses aparelhinhos com milhares de músicas e usar fone na rua. Meu vizinho faz pão com fone de ouvido o tempo inteiro”. A procura por home theaters também teria despencado. “Imagem é na internet, no YouTube.”

Como todo bom vendedor, Catitu quis me vender o peixe: “Você tem o nosso cartão? Então faz um. É um cartão de crédito com a bandeira da loja. Muito melhor do que pagar com dinheiro. Ah, aceitamos todos os cartões. É a única loja que divide sem juros com qualquer cartão.”

Num susto, meu amigo pediu a conta. “Vou passar ali na cantina do Piero, minha filha gosta de espaguete arrabiata. O azeite com 0,5% de acidez já tá na mão. O vinho argentino pra tomar com a esposa também. Cabernet!”

Catitu despediu-se numa aura de fé. “No dia de Santa Rita, ando vinte quilômetros até a capela da santinha. Sou devoto. Vai dar tudo certo”. Amém.

 

 

3 comentários em “Fé no consumo, Catitu!

  • 14/05/2012 em 09:59
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    Eu oscilo entre o total desencanto com o rumo que tomam as coisas (porque faço contas sobre a possibilidade do planetinha nosso suportar essa fé e o resultado assusta) e a tranquilidade de sentir que um dia “tudo passa, tudo sempre passará”.
    Bom mesmo é ver que há lucidez e humor (mesmo que mordaz) por aí.
    abraço!

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  • 11/05/2012 em 18:09
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    Paulo, diz pro Catitu que vai poder baixar seu livro no smartphone dele, hahaha!!

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  • 11/05/2012 em 13:36
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    Os Soraggis , os Limas e os Rodrigues devem ficar “So proud” of you my brother ! do caralho !

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