Fato surrealista

Glauco Rodrigues por ele mesmo

Cabo Frio, nos anos 1970, era uma grande festa. Todos se conheciam, se gostavam, se respeitavam, se frequentavam; bebia-se muito, mas os copos, além das bebidas, ficavam sempre repletos de amizade. Bons tempos.

Uma das figuras mais conhecidas de Cabo Frio, Rio, Europa, França e Bahia era o saudoso engenheiro César Thedim, um dos maiores boêmios da nossa cidade e que possuía na Ogiva uma casa adorável. César era dessas pessoas que tinha o dom natural de colecionar amigos, e amigos de verdade.

Este dom, que poucas pessoas alcançam, surge da combinação de inteligência, humor, simpatia e generosidade. Além do César, o tinham Carlinhos Niemeyer, o dentista Jorge Arthur Graça, o popular Sirica, todos infelizmente falecidos; e o querido Luiz Carlos Miele, talvez o maior amigo de César, também o possui.

Outra pessoa que possui esse dom é Fernando Pamplona. Eu sempre digo que quem não gostava do César, do Carlinhos, e do Sirica e não gosta do Miele e do Fernando, plagiando o conhecido samba, “bom sujeito não é”.

César foi casado durante muitos anos com a mulher mais bonita do Brasil, a atriz Tônia Carrero. Quando estava em pleno palco destilando seu enorme talento, ensaiando, tratando de produção, enfim, tendo toda a trabalheira que é ser atriz e produzir peças no Brasil, Tônia somente seguia para Cabo Frio depois da última seção de domingo. César estava praticamente morando na cidade, construindo sua Moringa — um ousado empreendimento imobiliário, indo a Búzios para projetar casas e ruas e ver amigos.

Sua casa era uma festa total e irrestrita, onde encontrávamos o cabeleireiro Renault, a atriz Rosita Thomas Lopes, Ítalo Rossi, o grande pintor Glauco Rodrigues e sua esposa Norma, Nelsinho Motta e Mônica, Maria Rita, filha do genial Antônio Maria, e seu marido Paulinho Brocá, e os amigos de Cabo Frio, Lúcio de Lamare, o pintor Scliar, Jorge Pontual, Fernando Lobo, Guilherme da Silveira, o dono da Fábrica Bangu e do belíssimo iate “Miss Bangu”, Tavinho Raja Gabaglia — este cidadão de Búzios, mas que estava sempre por lá. Minha primeira esposa, a atriz Djenane Machado, e eu, íamos muito. Tônia e César foram nossos padrinhos de casamento.

Mas voltemos ao surrealismo em questão. César ganhara de presente um cachorro. O cão, que quase sempre ficava sozinho, começava ganindo baixinho e ia aumentando o som, até transformá-lo em um latido insuportável. César não tinha muita paciência com o animal. Devolvê-lo a quem o presenteara seria deselegante, e para resolver o transtorno — aqui entre nós, latido de cachorro só é mais chato que serra elétrica e britadeira —, César passou a dar ao animal, ao anoitecer, meia dose de Mandrix.

Mandrix era um tranquilizante que acabou se transformando no maior barato de sua época: todo mundo usava. Provocava sono, mas misturado com álcool, levava a uma grande e fantástica viagem. Numa noite de sábado, o animal recebeu sua meia dose e foi ficando pelos cantos, os olhos semifechados, sem saber muito ao certo onde se encontrava. O efeito era tal que o bicho chegava a desmunhecar.

O pintor Glauco, que já tomara todos os uísques que pudera, começou a dialogar com cão, usando todos os meios verbais que conhecia, na tentativa de convencer o cachorro de que era um gato. A conversa entrou pela madrugada, Glauco, com sua voz sempre tranquila, a demonstrar ao animal que por sua postura, conduta e conceitos de vida era, na verdade, um felino. Tomava mais uma dose e apresentava suas razões ao cão, que continuava impassível.

Na manhã de domingo que se seguiu, com muito sol e muita cerveja para rebater, tivemos um lauto almoço e muito, mais muito carinho. À noite, partimos todos para o Rio, deixando César sozinho em casa.

Que Glauco foi um dos maiores pintores brasileiros, todos nós sabemos; que era um grande boêmio, uma figura querida, de falar mansinho e com um coração enorme, todos nós sabíamos. O que não sabíamos é que seu poder de persuasão era digno de um Rasputin, o que só descobrimos depois daquela madrugada.

Lá pelas nove da noite, o cão deu seu primeiro ganido. César abriu a gaveta, pegou o comprimido. Quando ia saindo em direção à sala, ouviu um som inimaginável. César ficou petrificado diante do inusitado, pasmo, sem conseguir se mexer. Apurou seus ouvidos, e, acreditem ou não: o cão estava miando.

 

 

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2 Resultados

  1. Teresa Meirelles disse:

    Paulinho ,eu ia mto p Cabo Frio,ficava na casa do Lucio Delamare pois,eu era mto amiga da sobrinha dele Monique Singery .bjsss

  2. manuel funes disse:

    Ja ja ja ja….. Muito bom!
    Eu Odeio cachorros, algum dia vou contar o motivo, e também um fato sub-real…..

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