Farinha do mesmo saco

Volto a uma já mencionada entrevista com Freud, concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck. Nela, Freud menciona que, no começo, “a psicanálise supôs que o Amor, impulso de viver, tinha toda a importância. E que agora sabíamos que a Morte é igualmente importante. Biologicamente, todo ser vivo, não importa quão intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessação da “febre chamada viver”, anseia pelo seio de Abraão.”

Realmente, muitas vezes me sinto plena de energia, determinada, forte, capaz de enfrentar a Vida, de curtir a vida, de me deixar encantar com as pequenas belezas de todo dia, me encher de sentimentos os mais variados, que dão sentido ao fato de eu estar viva! Penso no futuro, tenho coragem de reconhecer os erros do passado, que me custaram sangue, suor e lágrimas, às vezes quebrei a cara em tantos caquinhos que julguei impossível reuni-los para formar um rosto novamente, refazer uma identidade! Noutras, fui tão longe nessa minha vontade de viver tudo que me perdi, caramba, não sabia mais como voltar… Aliás, do que falava mesmo? O que pensava? Onde estou? Quem sou? Mas a vontade de viver era tanta, que me puxou de volta do abismo fatal de morte ou loucura.

Às vezes, viver doía tanto que o canto de sereia da Morte tentava me seduzir… Vem pra cá, aqui nada vai te machucar… Você vai poder ficar descansando eternamente se quiser, querida, meu amor… Sim, Morte é uma grande sedutora, finíssima, chiquérrima, aconchegante. Ah, tudo o que eu queria era dormir um ano inteiro, descansar até parar a dor e o cansaço; não fazer nada, não ser responsável por nada, portanto, sem culpa. Fugir da pressão que é viver. Fechar os olhos e só ver minhas fantasias de maravilhas. Que amor, que nada. Ninguém me ama, ninguém me quer.

É nessa hora que vem, de fora, um aliado da vontade de viver, e dá um tranco em quem está nesse transe e pergunta: quer morrer? Pode levantar e ir lavar a louça, pagar as contas, dar atenção aos seus filhos, a seus pais aos seus amigos, a você que está aí largado nessa cama feito um pano de chão. “Mas não consigo…”, diz o falso moribundo, “não tenho forças…” E o aliado de fora ordena então: vai se tratar, tomar um remédio, fazer ginástica. Aí, eu te juro que essa dor passa.

Já aconteceu comigo! Então, a vontade de viver, de dentro do coitado, aceita a mão estendida da sua aliada, a Vida de fora força o falso moribundo a dar um passo para se levantar da cama, da lama. Mais um, e vai se arrastando até  achar graça na vida novamente. Ficar feliz! Respirar! Rir! Gargalhar! Olhar para o passado e dizer “cruz-credo, nunca mais quero voltar para aquele inferno!”

E trata de procurar meios e modos de se manter ali. Faz a sua manutenção de bem-estar do modo que for mais conveniente: terapia, religião, autoajuda, mútua-ajuda ou outros. Simpatiza com tudo o que é bom, belo, sensato, amoroso, calmante, harmonizante… Até que começa a ficar, aos poucos, de saco cheio dessa estabilidade tão, tão… sem graça.

E agora? Tenho sido bom, agido corretamente, controlo meus maus humores, estou num estado de elevação tal que se alguém me dá um pisão eu é que peço desculpas! Compreendo os motivos de todos, acolho, consolo, e, mesmo assim, começa a surgir um enjoo sinistro, e que vai aumentando! Vai chegando o mau humor, que pode me levar a chutar o balde da disciplina e pagar qualquer preço para me divertir, rir e gargalhar novamente sem limites!

E este modo de viver pode virar uma roda-viva, ora no alto, ora no baixo. E com o tempo, a dor vai aos poucos aumentando, lentamente, outra vez .  E o caminho parece ser voltar à cama, à lama.

O que houve? Faltou o parceiro — não o oposto — do amor: a raiva. A raiva é o nosso sistema proteção. É ela que usamos para manter a disciplina interna, conosco mesmos, mas também para nos proteger dos perigos e abusos do mundo externo. Se me der um pisão de propósito, vai levar pelo menos um empurrão, também de propósito.

É por isso que todos os que pensam que se tornarem santos os manteria livres da luta e da responsabilidade para manterem seu bem-estar e alegria, acabam irados com todos os outros que não estão sofrendo ou parecem não sofrer. Amor e raiva estão entrelaçados no objetivo de manter a nossa vida. São a própria força de vida, farinha do mesmo saco, parceiros. Sua função é manter, desenvolver  e aprimorar o que está vivo. Seja com amor, cuidado, carinho, ou com porrada, humilhação, depressão, angústia, dor. Às vezes precisamos ser provocados, espicaçados, desafiados, humilhados para sair do sonho da paz eterna. Como já dizia Gonçalves Dias:

“Não chores, meu filho; Não chores, que a vida/ É luta renhida: Viver é lutar./ A vida é Combate, que os fracos abate,/ Que os fortes, os bravos, só pode exaltar.”

 

10 comentários em “Farinha do mesmo saco

  • 01/12/2012 em 18:29
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    E você sabe- minha amiga querida que sempre me socorreu – há muita coisa boa pra ser vivida,principalmente quando atingimos esse estágio “lilithiano” de profunda e dolorosa consciência da vida e das pessoas: estamos acima disso tudo e merecemos viver-aqui mesmo-nesse lindo planeta azul – merecemos viver tudo de bom!

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  • 01/12/2012 em 18:22
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    Rosangela,minha querida amiga,me identifico totalmente. Mas a gente tem o Sonho, a Fé,a Amizade, a Solidariedade e as Paixões Comuns,que vão além do passado que às vezes parece ter sido vivido por outra pessoa…A vida vale a pena e cada momento é algo completamente novo pra ser desvendado!Beijo grande!

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  • 01/12/2012 em 13:28
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    I instinto vital se origina nas profundezas do ser, além do DNA… A vida é uma armação de futilidades emergenciais, sem sentido…

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  • 01/12/2012 em 12:53
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    “A toda ação corresponde uma reação igual e contrária!”
    Aprendemos na Física.
    Pra mim importa viver um dia de cada vez da melhor maneira que eu possa…
    Viver o Hoje! E só por hoje!
    O passado já foi e o futuro ainda está por vir…
    “Deixa o dia amanhecer!”
    Parabéns!
    Gostei!
    Abraço,
    Raul Augusto

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