Fábulas modernas, ou saudades de La Fontaine

raposaO sapo e o boi

Era uma vez um boi e um sapo.
O boi era enorme e o sapo era pequeno.
E o sapo queria ser tão grande quanto o boi.
Assim, o sapo encheu seus pulmões de ar e foi crescendo, crescendo e crescendo.
Quanto mais crescia, mais perguntava ao boi se estava ficando do seu tamanho.
O boi, paciente como todos os bois, balançava a cabeça e dizia que não.
Quanto mais dizia o boi que não, mais o sapo se enchia de ar e mais crescia.
Foi ficando enorme, crescendo cada vez, até que ficou muito maior que o boi.
Depois, olhando o boi do alto de seus quatro metros, com todo o desprezo dos grandes e poderosos, o sapo deu um salto descomunal e caiu em cima do boi, achatando-o com toda a força do seu peso.
O boi teve morte imediata, enquanto o sapo, com o orgulho dos arrogantes, foi visto numa tarde de outono, saltando de pedra em pedra, procurando um elefante.

 

A raposa e o corvo

Certo dia, uma raposa esperta, que adorava queijo francês, encontrou um corvo que era político e nunca abria a boca, salvo em interesse próprio.
O corvo tinha no bico um belo queijo camembert. A raposa pensou que se o corvo abrisse o bico, o queijo cairia, e ela o comeria.
Pensou em elogiar a voz do corvo, como outrora fizera seu tio-avô, uma raposa muita esperta que fora ministro de um rei da França.
Depois, pensou mais calmamente, viu que os tempos eram outros, e o corvo, além de tudo, era um político, e a raposa ofereceu sua pele para que o corvo fizesse um lindo casaco e desse para sua amante.
O corvo político aceitou, deixou cair o queijo que a raposa apanhou no ato e foi comer atrás de uma jardineira, envergonhada de não ter mais pele.
A raposa morreu de frio no inverno, enquanto o corvo vendeu o casaco de pele, deu um falso para a amante e, hoje em dia, além de político, se transformou em um grande importador de queijos na Normandia.

 

A cigarra e a formiga

A formiga trabalhava e a cigarra cantava.
A formiga era operária e a cigarra uma linda artista.
A formiga trabalhou toda a sua vida, a cigarra cantou durante toda a sua vida.
A formiga ficou velha e feia, a cigarra também ficou velha e feia.
Só que a formiga continuou morando num barracão sujo e triste, por onde as gotas de chuva penetravam nas noites de tempestade.
A cigarra, que cantou durante toda a sua vida, arrumou um empresário — hoje seu amante —, um marido, um mordomo, um motorista, uma cozinheira e duas arrumadeiras.
Hoje, enquanto a formiga chora, a cigarra canta.
A voz já não é mais a mesma, mas mesmo assim ela canta, do alto de sua cobertura, tomando champanhe e olhando o mundo lá do alto.
A formiga nunca conseguiu dar bom-dia para a cigarra e, segundo a lógica natural de vida, vai acabar morrendo de fome.

 

A raposa e as uvas

Havia uma linda parreira, repleta de uvas maduras.
Eram maduras e tintas as uvas da parreira.
A raposa passou, olhou para as uvas e pensou em comê-las.
Depois, reparou como era alta a linda parreira, repleta de uvas maduras.
A raposa pensou muito em tentar saltar até alcançar a parreira.
Pensou muito e desistiu.
Analisou demoradamente o que vira e se lembrou de que só bebia vinho branco.
Entrou numa venda, comprou uma garrafa de vinho branco seco que tomou no fim da tarde, vendo o sol morrer por detrás das montanhas distantes.
As uvas da parreira não foram colhidas.
Apodreceram umas, enquanto outras foram comidas por insetos e passarinhos, e nunca ficaram verdes.
Nem poderiam, visto que quanto a raposa as viu, já eram belas uvas maduras.

***

Moral das fábulas: não existe. No Brasil, com o caráter dos nossos políticos e governantes, não tem Esopo ou La Fontaine que consiga descobrir vestígios de moral.

 

 

5 comentários em “Fábulas modernas, ou saudades de La Fontaine

  • 22/04/2013 em 17:08
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    muito legal essas fábulas, ´pena que não tem moral. Mas eu acho que, com certeza, devia ter alguma moral pois, toda fábula tem uma moral!! É até uma regra!

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    • 22/04/2013 em 17:11
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      é mesmo. Toda fábula deve ter uma moral!! concordo com vc!!

      Resposta
      • 22/04/2013 em 17:17
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        a moral é parte integrante do gênero ‘fábula’ ! as histórias são muito legais mas devia realmente existir uma moral!

        Resposta
  • 27/01/2013 em 12:55
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    Long time ago, I had a collection of books, he had stories … believe these tales formed my conscience!

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  • 27/01/2013 em 10:53
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    Não dá mesmo para tentar encontrar a ‘moral’…
    Coitado de Esopo e La Fontaine se nem você ( o autor contemporâneo) consegue!
    Alguém conseguirá?

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