Etiqueta

Livros de  etiqueta são o mais necessário dos objetos supérfluos: a etiqueta pode não salvar o mundo, mas ajuda.  É mais útil saber que se deve telefonar no aniversário de uma pessoa próxima do que decorar o nome dos afluentes do Amazonas.

Cada geração estabelece suas próprias regras de convivência.  No século dezenove, a etiqueta recomendava o máximo cuidado na paquera: pequenos gestos de aproximação poderiam representar um comprometimento vitalício.  Quem imaginaria essa possibilidade hoje em dia, onde tudo é escancarado?

A etiqueta é como a língua que falamos: uma coisa viva.  Os casamentos são o melhor e mais visível exemplo disso.  Como lidar com a ex do seu ex, que liga para se aliar a você contra ele?  Ou com a enteada do seu atual, que odeia você mas passa as férias na sua casa?  Um dia, tudo isso estará equacionado pelos códigos de conduta, mas no momento a etiqueta ainda está se adaptando a essas situações.

A etiqueta também se modifica de acordo com a tecnologia.  Quando as cartas foram substituídas pelo telefone, automaticamente surgiu uma etiqueta correspondente.  Telefonar às três da manhã para um amigo só porque você está com insônia e quer bater papo, é contra as regras.  Isso não está escrito em nenhum livro que eu conheça, mas todo mundo sabe.  Ou deveria.  O fato de um livro de etiqueta não ter sido escrito, não significa que ele não exista na cabeça das pessoas.

Atualmente, por exemplo, recebo mensagens ensinando a ser elegante na internet.  Nada de repassar para o amigo ateu aquela corrente de Santa Terezinha.  Aliás, com poucas exceções (pouquíssimas mesmo), correntes não devem ser repassadas.  Se algum dia eu me atrever a escrever um livro de etiqueta para a internet, vou dedicar um longo capítulo às mensagens sem-noção, incluindo as bem-intencionadas sobre “criancinhas desaparecidas”.

A etiqueta varia de região para região, até de bairro para bairro.  Mas onde houver civilização, lá estará.   A falta de etiqueta é um problema grave em qualquer sociedade.  Quando vejo uma criança explorada nos sinais do Rio de Janeiro, reflito como é fundamental que as pessoas tenham noção de que banho se toma todo dia, unhas devem ser cortadas e que existe hora para comer e hora para dormir.  A falta de etiqueta básica cria párias.

É preciso cuidado quando a gente não conhece a etiqueta de um local.  Atitudes gentis em um lugar podem ser consideradas impróprias em outro.  Os homens russos cumprimentam-se com beijos e os árabes andam de mãos dadas: experimente fazer isso entre latinos!  Mas, independentemente da sociedade, basta observar os códigos de etiqueta seguidos por uma pessoa para determinar a que tribo ela pertence.

Mais elegante do que a etiqueta, só a ética.  Falar em ética é complicado, porque ultrapassa a questão cultural.  Deixo a discussão para os sociólogos: dar palpite em assuntos sérios, nos quais não tenho expertise alguma, viola as minhas normas de etiqueta.

 

 

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