Ética e cidadania

Primeiro, eles vêm à noite, com passo furtivo
arrancam uma flor
e não dizemos nada.
No dia seguinte, já não tomam precauções:
entram no nosso jardim,
pisam nossas flores,
matam nosso cão
e não dizemos nada.
Até que um dia o mais débil dentre eles
entra sozinho em nossa casa,
rouba nossa luz,
arranca a voz de nossa garganta
e já não podemos dizer nada.

                        Maiakovski

 

Há alguns anos fui convidada a organizar um evento sobre ética e cidadania. Seria uma palestra ministrada pelo nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Foi numa noite típica de São Paulo, ou seja, caos. Chovia copiosamente e o trânsito estava impossível. O evento, que deveria receber mais de mil pessoas, só contou com pouco mais de quinhentas e que chegaram muito atrasadas, mas essas foram agraciadas com palavras sábias.

Abri a palestra com o poema acima de Maiakovski. Na época, estávamos próximos à eleição para presidente. Tínhamos muito medo. Esperávamos uma guinada total para a esquerda, com as consequências nefastas e antidemocráticas disso oriundas, com a perda de liberdades.

Como mais tarde tivemos a alegria de constatar, nada disso ocorreu, pelo contrário, as boas atitudes do governo anterior floresceram na nova gestão e o país progrediu economicamente, se estabilizou a democracia. Vimos uma melhora na qualidade de vida da população menos favorecida, com o apoio paternalista do estado. As consequências desse paternalismo estamos começando a notar agora, com a falta de infraestrutura e sem a criação de frentes de trabalho. O que não esperávamos, absolutamente, já que o partido vencedor das eleições era justamente aquele que se autoproclamava o dono da ética, da moral, dos bons costumes etc.

Naquela noite, pude aprender com o mestre a definição de ética, que é o estudo da arte de viver bem em sociedade levando em consideração uma série condutas e atitudes referentes à moral, à virtude, ao dever, à felicidade e ao bem viver. Qualquer estudo sobre o tema trará em seu bojo, com certeza, as palavras: bom, mau, certo, errado, obrigatório, permitido.

As grandes profissões trataram de orientar seus profissionais no sentido de seguir os padrões de ética inerentes a elas, incluindo na formatura um juramento que engloba a ética no trabalho.

O governo que na época se instalou, e que permanece até agora, profanou a moral já muito estigmatizada da classe política. Hoje, quando se trata desse tema no país, imediatamente já se infere a corrupção e o mau-caratismo.

As novas gerações, geradas já sob esse regime, nem se dão conta do mal que a falta de moral e ética podem trazer para a sociedade. Cabe a nós, que vivemos em outras circunstâncias, esclarecer e cuidar.

Nestes dias, vivemos um momento eleitoral atípico, onde concomitantemente estão sendo julgados não somente maus cidadãos e, principalmente, políticos, mas também uma era, um modo de conduta, a ética política; nós, eleitores, temos a possibilidade de fazer nosso próprio julgamento, dando um basta a todos os malfeitos que hoje ocorrem como nunca antes na história do nosso país. E é aí que entra a cidadania, que trata das relações dos indivíduos entre si e o Estado.

Enquanto cidadãos, temos direitos e deveres. Um dos direitos, aliás o mais importante, é justamente escolher quem vai gerir as nossas cidades, os estados e o país. O maior dever é optar pelos candidatos mais dignos, e que pertençam a partidos comprometidos com a honestidade.

Não citei aqui nenhum nome de concorrente — isto é ética —, mas contribuí com informações importantes para a escolha do concorrente — isto é cidadania.

 postado também no blog de Priscila Ferraz

 

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2 Resultados

  1. Parabéns Priscila.
    Você realmente contribuiu com informações importantes para a escolha do candidato.
    beijo grande

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