Estresse

Abri a revista e encontrei um teste para medir o nível de estresse.  Das sete perguntas, cravei “sim” em seis.

Fiquei tão estressada com esse resultado que nem consegui dormir.  Concluí que ter estresse é muito estressante e resolvi listar alguns dos possíveis motivos para eu ter chegado a este ponto.  Acompanhe.

— Chequei os meus e-mails três vezes nos últimos dez minutos, enquanto falava ao telefone e no chat online com um cara de Uberlândia e duas mulheres de São Paulo.

— Dirijo ouvindo noticiários repletos de avisos alarmantes de trânsito e, para me acalmar nos engarrafamentos diários, faço sudoku.  Idem na fila do banco ou do supermercado: é melhor do que bater em alguém.

— O bombeiro que veio consertar a descarga do banheiro acabou quebrando o espelho.  O vidraceiro que veio consertar o espelho fez um serviço de última e, ainda por cima, arrebentou a porta do armário.  O marceneiro que prometeu vir hoje olhar a porta remarcou para  depois de amanhã.  E a descarga continua pingando.

— Resolvo assuntos do INSS, do plano de saúde, do Imposto de Renda, da marcação de consultas médicas, enquanto decido com a empregada o cardápio do jantar.  E percebo que ela está ficando gripada e vai me deixar na mão.

— Ouço a tia reclamar da faxineira ao mesmo tempo em que o marido se queixa de eu não querer ir para a ginástica com ele.

— Aproveitar para buscar o sapato no conserto, comprar pão e pegar a roupa na tinturaria no caminho para o escritório é rotina.

— Consigo telefonar para a amiga convalescente em Florianópolis enquanto compro pela internet cinco ingressos para o cinema e decido que restaurante vou sugerir para depois da sessão.

— Quando acabar o telefonema da amiga convalescente, vou responder aos três recados da secretária eletrônica e organizar a estadia dos primos que vêm do interior para conhecer o Rio de Janeiro.

— E todo dia, embora nem sempre funcione, planejo ser feliz das nove às onze da noite, que ninguém é de ferro.

Por outro lado, justiça seja feita, estresse também pode ser útil.  Serve como desculpa para tudo: de não levar o cachorro para passear até arrumar briga para se vingar de vizinho chato.

Faz tempo que você quer dizer o diabo ao marido e não encontra oportunidade?  Tenha uma crise de estresse e mande ver.  Depois peça desculpas e prometa que vai procurar um analista ou um psiquiatra.  Pago por ele, é claro.

Não quer passar o fim de semana com os amigos do amigo do seu cunhado?  Ameace uma crise de estresse.  Ninguém vai insistir.

Vantagens à parte, estou preocupada porque não me lembro de quando nem onde abri a tal revista e fiz o teste de estresse.  Estresse causa falta de memória e vários outros efeitos colaterais graves dos quais, obviamente, não me lembro agora.  Preciso dar um jeito nisso.

Por enquanto, na falta de coisa melhor, como solução provisória, pendurei uma plaquinha na porta do quarto:  “Cuidado! Cão feroz.”  Assim o problema fica sendo de quem se arriscar a falar comigo.  Fiz a minha parte: avisei.

 

 

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