Está escrito

Ok. Sete anos esta semana que Alan e eu nos encontramos pela internet, jogadas de Hierosgamos e tudo o mais, muitas crônicas, livros e depoimentos compartilhados, ah, quase enjoei: sete é conta de mentiroso, ou é ano de crise emocional, digam aí vocês. Mas a coisa interessante disso tudo, vamos combinar, é ver como ao longo dos anos os fatos não mudam, mas minha visão sobre eles, sim. Radicalmente. E hoje, particularmente, o mundo anda tão perturbado e demente que não sobra tempo para nossos comezinhos relatos de encontro e conflitos deprimentes, que espaço seria dedicado às circunvoluções de nossos umbiguinhos num mundo em constante ebulição como o nosso? Nem Proust, honestamente.

Essa Revolução do Jasmim aí — vejam vocês, que todos encaram como o verdadeiro advento de uma oximorônica “democracia islâmica” —, apesar do nome inspirado, não tem cheirado nada bem. E nada mais é, segundo Alan, que uma legítima conspiração para trazer a este mundo o Décimo-Segundo Imã, DSI para os íntimos, que como todos sabem, menos eu, só virá a nós em caso de catástrofe absoluta, um inverno nuclear, por exemplo. E os míticos heróis do Irã estão fazendo o melhor que podem para providenciar isso, mesmo que morram no final, quem se importaria com um detalhe tão prosaico e intrínseco como este? O que os espera é o paraíso, afinal, de um jeito ou de outro, neste mundo ou em outro. Está escrito.

E enquanto DSI não vem, o papa bento segue beijando o imã que ele já tem, embora em público tenha reclamado, ah, que mundo é este, hein? Pois é, nem adianta procurar, Bento reclamou, eles tiveram que tirar.

Quanto ao euro, vocês sabem, foi um projeto que, cá entre nós, já nasceu fadado. Quem haveria de aceitar compartilhar seus ricos marcos dourados com os pobres tostões de um grego qualquer remediado? Pois é. Negócio de turco, mesmo, bem que dava pra imaginar, né? E agora essa comunidade vai ter que (se) mudar: vai ser o terceiro mundo deles lá e o nosso primeiro aqui, mesmo que Merkel aceite beijar Sarkozy (com a tônica no “y”), ops, desculpem.

Mas o mais inacreditável de tudo isso nem é que Lula finalmente mostrou sua verdadeira cara — pô, desculpem mais uma vez, eu jurei pra mim mesma que não pegaria pesado com o pobre, afinal de contas sinto a maior pena, acho que mesmo que ele não merecesse deveria poder usufruir de uma aposentadoria tranquila, com saúde e muita tequila, e é isso que eu mais desejo a ele, juro por Deus: mantenha-se calado no seu canto, ex-presidente, mas por sua própria vontade, por comichão da verdade, que justiça poética que nada, ops, voltando ao ritmo da frase —, e sim que os Estados Unidos estão se transformando no Brasil de antigamente, licença poética perde (pois como todos sabem, em nossos sonhos mais caros a gente é que se transformaria um dia nos Estados Unidos), confiram só: estão endividados até o pescoço e com o fantasma da inflação ameaçando impunemente, o dólar a cada dia comprando menos pão; são casos infindáveis de corrupção governamental, tráfico de influência e de governo sem moral, bate-boca no congresso nacional, derramamento de óleo e coisa e tal, tudo terminando em… hambúrger. Isso, pra não mencionar a ameaça comunista, que, segundo dizem, é o que está por trás da ânsia terrorista sendo explorada em praça pública, francamente, só mesmo um golpe militar para acabar com essa pouca vergonha populista, não é mesmo? Ditadura neles, gente, que essa mania de democracia lhes faz muito mal!

Pois é. Embora grande parte da parte progressista do planeta ache o tal de Occupy a coisa mais justa, viral e linda — um “movimento do povo em prol de algo que seja completamente novo” —, Alan garante que tudo não passa de uma conspiração esquerdista, é isso aí, que começou com Obama, imaginem, sendo cooptado como agente pelos “companheiros” idealistas, sabem como é. E o grande golpe da justiça só será desferido, naturalmente, depois de eliminado o grande “esquema sionista”, e no mundo inteiro, se é que vocês me entendem.

Tudo bem. Eu entendo se vocês pensarem que, ao contrário do que eu gostaria, tudo isso é mais uma loucura desta cronista (com o perdão concedido apenas porque, na verdade, se trata da opinião do marido da artista, ah, então é tudo por amor, e toda forma de amor, vocês sabem…). Melhor deixar pra lá.

Mas pelo menos uma parte importante dessa loucura revisionista saiu publicada no New York Times, imprensa oficial global que todo mundo diz que lê, eu li, podem ir  conferir: “Mesmo os adultos que podem bancar seu próprio lar estão optando por morar com seus pais, privando a economia de um bom potencial de atividade” — é a síndrome do “ninho reverso”, sabem como é, parece-se ou não ao nosso Brasil eternamente adolescente? Pois é: o grande diferencial dos Estados Unidos, nação madura onde a família fez sempre por onde permanecer desde cedo desunida, com o honroso banquete de exceção do Dia da Ação de Graças — que, por sinal, acontece na próxima quinta-feira, estou tentando encomendar um peru, mas não consigo, ah, o amor… —, está deixando de existir, transformando o Primeiro País numa grande crise de consumo reprimido… Que progresso resiste a um atentado desses? Peraí!

Agora, o que vocês não sabem, mas que vou lhes contar em seguida, é o verdadeiro motivo de Alan ter escolhido o Brasil como o país onde ele agora mora, que amor romântico que nada: ele afirma que está sempre dez anos à frente dos acontecimentos, e é por isso que há sete me perturba com esse armagedom eternamente incipiente, quer dizer, o nosso Brasil, finalmente, deixará seu eterno leito de gigante dormente, digo, adormecido, Alan disse. Oba. Só faltam três.

E um bom domingo procês. Em tempo: li na internet na semana passada que o Brasil foi elevado pela mesma agência que rebaixou os Estados Unidos, beleza, gente, taí: mais um passo em direção ao nosso inexorável destino de liderança global. Mas, infelizmente, ainda não passamos de um BBB… Haja paciência!

 post publicado tambem no Noga Sklar

 

3 comentários em “Está escrito

  • 20/11/2011 em 15:47
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    Oi Noga.
    Sua crônica está ótima! Parabéns! O euro é mesmo uma fantasia maluca! Países como Grécia, Portugal e outros, jamais poderiam ter a mesma moeda que os países super ricos e industrializados.Talvez a crise de 7 anos de união seja mais fácil de contornar! Quanto ao Lula, achei que ele fosse para Cuba acabar seus dias tomando Run, mas ele mostrou a cara. Fez isso só porque viu Gianechini fazer, também fez! Não podia perder essa oportunidade de aparecer! Quanto ao fim do mundo e DSI (adorei saber sobre isso) já está marcado para 2012! Até lá vamos nos esbaldar com a “bolha” brasileira! beijo grande

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  • 20/11/2011 em 10:42
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    Ainda não, rsrs, só em janeiro, é que estou escrevendo um livro sobre o assunto, 60 crônicas, 60 anos. Ia chamar “60”, mas desisti… tô achando melhor esquecer! Sai em março. Beijos, querida! E obrigada!

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  • 20/11/2011 em 09:45
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    devo te dar parabéns? se sim…até 120 anos! seja sempre feliz…beijo

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