Essa mulher

filhadapriQuem é essa mulher? Sinto que deveria, mas não a conheço.

Procuro pistas em seus cabelos. Longos, castanhos cor de Coca, que ela tanto adora, mas a resposta não está ali.

É deslumbrante, de uma beleza alegre. Tudo nela transpira jovialidade. Algo me diz que não, mas parece uma garotinha disfarçada de mulher, menina brincando no armário da mãe.

Os sapatos altíssimos servem de pedestal para as pernas fortes que ela exibe orgulhosa, pois demandam muito trabalho e sofrimento. Os pezinhos tão miúdos parecem não ser suficientes para suportar a sua grandiosidade.

O corpo delgado e flexível está sempre em movimento. Corisco lambuzado de mel, nem tente apanhar.

Essa moça tão linda estava lá quando eu nasci. Antes dela, havia somente um arremedo de mim, um projeto mal feito de mulher. Esta que sou hoje só sou por causa dela. Mesmo assim, não a conheço. Pode se disfarçar de raposinha de repente, só para me ludibriar.

Sua voz é poderosa, e a mulher pode escutar os mais leves ruídos. Tem uma antena que capta outras realidades.

Seu olhar fugidio vem de dentro dos olhos cor de folha seca, despregada de alguma árvore na floresta de tundra, sombreados pelos cílios longos e negros que se abrem para fazer passar uma brejeirice qualquer; mas, de repente, projeta um corisco que percorreu todo o caminho de sua alma e nos obriga a semicerrar as pálpebras para não chamuscar nossos olhos. O narizinho arrebitado é coberto de sardas. Ah! Então vem daí sua carinha de menina sapeca!

Essa mocinha tem a capacidade de encantar a todos e provocar um amor tão profundo que ela nem tem noção. Onde ela está, está a felicidade, mas por onde ela anda? Suas mãos delicadas são espertas, trazem originalidade e criações vindas das profundezas de suas ideias alucinantes.

De onde ela vem? Esteve comigo por muito tempo, enquanto pude retê-la. Tarefa difícil até para ela, que parece controlada por corcéis indomados que habitam seu peito.

As trivialidades não são para ela. Como é difícil conviver com a banalidade. Grande sofrimento. Exercício de paciência que, facilmente, se rompe, impulsionando-a para a frente.

Sua mente parece uma festa na floresta, com todos os duendes, faunos, elfos, bruxos e sereias, por que não? A noite iluminada por vaga-lumes dá um vislumbre da dança frenética de todas essas entidades, deixando-a confusa.

Quem é essa linda mulher que eu tanto amo? A coragem apresentada por ela ao enfrentar tantos perigos deliberadamente me surpreende, e me indago: Por quê? Para quê? Para quem?

Para ela mesma saber que pode.

Estava agora mesmo de mãos dadas comigo, e agora, para onde ela vai? Pisa fundo na areia com determinação; vai a caminho do mar que a atrai, tantos mistérios.

Aonde ela vai?

A caminho do mar.

Viu ali um surfista e foi ao seu encontro.

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

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