Espelhos

Ela escutava atentamente a história que a amiga contava. Ouvia o relato imaginando a cena, lá no fundo lamentando não tê-la presenciado para descrever tudo com maior riqueza de detalhes. Torcia para que a amiga a contasse mais uma centena de vezes para dezenas de pessoas. E que ela, a escritora, alcançasse milhares de leitores e que esses também compartilhassem com outros.

Se encarado como fato isolado, o tal acontecimento seria, talvez, no máximo tragicômico. Mas trazido à baila nestes tempos dramáticos, em que o mundo parece contaminado pelo desejo humano de possuir as coisas, sem qualquer moral ou limite, que sirva como reflexão sobre um modelo de sociedade. A meu ver, para lá de doente.

Agora, imagine a cena: num sábado à tarde, uma mulher e seu filho de oito anos vão ao shopping. Consigo até vê-los caminhando pelos corredores lotados, entre centenas de outros consumidores vorazes. Os dois já tinham entrado em diversas lojas, conforme atestava a grande quantidade de sacolas que levavam. Naquela altura, um lanche ou um sorvete era o máximo que restaria à mãe para ainda oferecer ao menino.

E lá iam eles caminhando animados para a praça de alimentação. Já planejavam o que comeriam quando o garoto começou a puxá-la pelo braço. Ele ia praticamente a arrastando, e só parou quando alcançaram uma nova vitrine do outro lado do corredor. Lá dentro ele avistara mais um objeto de desejo. E o apontava dizendo que teria que possuí-lo de qualquer maneira, afinal um colega já tinha um, igualzinho, e ele não queria ser o último da turma a conseguir o seu. A mãe disse não — pelo menos, não naquele dia — e o menino suplicou, chorou, apelou, surtou; se jogou no chão, esperneando, como se estivesse abduzido.

Pausa para pensar.

O que você faria, se fosse seu filho? Alguns pais gritariam para ele parar, outros lhe dariam uma bela surra ali mesmo. Muitos o largariam lá e seguiriam em frente, fingindo não se importar, até que o menino se levantasse e começasse a correr para alcançá-los. Restam ainda os que o satisfariam imediatamente, fosse por algum sentimento de culpa inconfessável ou para preservar as aparências: tudo para evitar um vexame público ou a dura responsabilidade de educar um filho com mais clareza.

Voltando à cena: lá estava o menino deitado, batendo braços e pernas no chão. E é verdade que foi preciso muito amor e coragem para a mãe atuar como se fosse louca, sabe-se lá na frente de quem ou de quantos. Mas ela simplesmente se jogou no chão como ele, esperneando e gritando que queria, no caso, o carro dos seus sonhos.

Foi assim que a situação se inverteu; a mãe assumindo o papel de espelho. E com o choque de realidade, a criança que pretendia medir forças para ter tudo o que quisesse parou ali mesmo.

— Pô, mãe, para com isso, tá todo mundo olhando… Que mico, mãe!

Era o menino, já de pé, querendo rapidamente ir embora dali.

— Chega, mãe, já entendi! Nunca mais faço isso…

 

6 comentários em “Espelhos

  • 08/09/2011 em 14:14
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    BOA IDEIA!!!!! Vou adotar a técnica com o Pedro!

    Quem vai começar a passar vergonha agora é ele ahahahhahahha

    bjs querida amiga!

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    • 08/09/2011 em 16:24
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      hahahahahahaha
      você é ruim, muito ruim!!! rs

      Beijão, minha linda!

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  • 08/09/2011 em 11:17
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    ei ethel. o meu mais velho tem 22 anos, a mais nova tem 9. eu resolvi essas coisas com uma boa palmada. na minha próxima encarnação como pai ou mãe, quero tentar essa abordagem lúdica… 🙂

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    • 08/09/2011 em 16:23
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      hahahaha
      Sei como é, Caetano! Só não tenho certeza se foi mesmo uma abordagem lúdica ou um tratamento de choque…rs

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  • 08/09/2011 em 10:01
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    Ah, Ethelzinha… sabe que era essa a única terapia que funcionava no início do alzheimer de mamãe? Ela chorava, eu chorava junto, aí ela parava. Funcionou por um bom tempo, realmente… bjs

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    • 08/09/2011 em 16:18
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      Ah, Noga! Embora eu tenha te lembrado algo triste, fico feliz em confirmar que sendo bons exemplos podemos mudar o mundo… Beijão, amiga!

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