Escritores no açúcar

O escritor Humberto Werneck recomendou em sua coluna o restaurante Farta Brutus. A informação de que José Saramago também amava esse recanto de Lisboa me flutuou: eu estava indo para Portugal no mesmo dia em que li o texto do cronista mineiro.

Errei a mão. Cheguei ao Bairro Alto às dez da noite de domingo, tarde para as duas janelinhas fechadas em seus parapeitos floridos. No dia seguinte eu pegaria um trem para o Porto: o sonho de me refestelar no Farta Brutus se desfez em estilhaços de longo alcance. Convenhamos, pois: ninguém está pronto para uma frustração de tamanho gigantismo. Por mais que eu virasse taças debaixo do casario da Ribeira, minha viagem seguiria órfã.

A fome lisboeta insidiava imperativa. Subimos por uma rua cujos estertores se despediam de uma noitada já moribunda. Achamos portas abertas numa esquina. Na plaquinha discreta, o nome do restaurante: Gavinha.

Não dei nada pelo lugar. Pedi um linguado com legumes como se pede um paliteiro num boteco. Em sua misericórdia temperada, a Providência preparou uma refeição esplêndida, que atraiu meu silêncio mais sincero no meio do alarido dos comensais. A personalidade daquele peixe, com a totalidade do azeite, havia me santificado.

Depois do último gole de vinho, o cafezinho. Foi quando o garçom atirou envelopinhos de açúcar com a displicência ágil e meticulosa do Gambit, o mutante das cartas do baralho. Dois aterrissaram ao meu lado. No papel branco dos sachês, rostos foram desenhados a partir da disposição de grãozinhos de café impressos em marrom.

A primeira face que divisei foi a de Fernando Pessoa. No rumo de seu olhar, a inscrição: “Haverá algo mais verdadeiro do que ser pessoa entre a multidão?”. Haveria algo mais justo do que homenagear um escritor no cotidiano do cafezinho? E qual Pessoa adoçaria meu café? O clássico Ricardo Reis? O desesperado futurista Álvaro de Campos?

Preferi que fosse o Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro. Foi ele quem me ensinou a acreditar em Deus através dos sentidos, sem a esterilidade dos pregadores. “Porque, se ele se fez, para eu o ver (…) Se ele me aparece como sendo árvores e montes, e luar e sol e flores, é que ele quer que eu o conheça como árvores e montes e flores e luar e sol”. Caeiro escreve “ele” minúsculo mesmo, o Deus que pode estar num infinito farelo de açúcar.

No outro envelopinho, todo barbudo, com seu fardamento da marinha real lusitana, sua santidade: Camões. Em cima daquela mesa com toalha xadrezinha, grãos de café definiam a silhueta do cara que me ensinou que o amor é um troço sem a menor vocação para a explicação. Capaz dos maiores estragos, é aquele trambolho doce que a indústria incentiva todo mundo a ter. “Que dias há que na alma me tem posto/ um não sei quê, que nasce não sei onde/ Vem não sei como, e dói não sei por quê” — tudo do Morrissey cabe nesses versos.

Nos dois envelopinhos sucroliterários, a marca intrusa do pó se propagandeava com a frase: “Delta: a verdade do café”. Meu êxtase palatopoético me fez passar adiante a conta trazida pelo garçom. Tento enobrecer a esquiva: é que minhas elucubrações tinham me transportado para além da “verdade do café”.

Bateu a verdade que o Brasil produz amazônias de café e himalaias de açúcar. Bateu a vontade de sonhar a vastidão de uma família brasileira aguardando o cafezinho após a deliciosa esgrima dos espetos na churrascaria.

Trocando cochichos na ponta da mesa, duas primas interromperiam a discussão sobre o filme de vampiro da última semana. Uma delas apanharia o sachê de açúcar com o desenho de Guimarães Rosa. A moça revelaria que nunca tinha se conformado com Diadorim mulher. O papo sobre vampiros que ao sol viram purpurina seria fulminado no talo.

 

 

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