Escritora Desesperada Procura

 

Esse negócio de literatura está me levando à falência. Se eu tivesse nascido pintora ainda haveria esperança para os meus herdeiros: poderiam vender, daqui a uns cem anos, um quadro por milhares de dólares. Quiçá milhões, ou bilhões, se o dólar continuar sua carreira descendente. Mas, livros?! Esquece. Em um século serão de domínio público e estarão disponíveis nas mais diversas mídias. Edições originais e manuscritos já são peças de museu equivalentes à Bíblia de Gutenberg.

Meu problema é imediato: sou escritora e preciso sobreviver. Antes de pedir esmola ou abrigo na casa de algum parente, devo ao menos esforçar-me para ganhar algum dinheiro.

Tentei escrever sobre sexo. Desisti: comparadas com as coisas que andam por aí minhas histórias lembravam a Branca de Neve. Se bem que a Branca de Neve com todos aqueles anões, sei não…

Política é para jornalistas ou historiadores, mas eu talvez pudesse ser o ghost writer do Tiririca. Argh! Que ideia!

Futebol! A dificuldade é que sou quase como a grã-fina do Nelson Rodrigues, que ia ao Maracanã e perguntava, na maior excitação: “Quem é a bola, quem é a bola?”

Religião? Não vou mexer em vespeiro. Fora o perigo de ofender algum desses muçulmanos que explodem.

Fazer graça com os nanicos? Tá maluco? Vai longe o tempo em que alguém dizia que a profissão ideal para eles era a de pintor de rodapés. Devemos nos referir a esses seres humanos, respeitosamente, como pessoas de baixa estatura. Ofender as minorias agora dá processo.

Talvez o maior obstáculo aos meus textos seja o fato de que não se destinam ao grande público. Não sei bem explicar o que vem a ser o grande público, mas desconfio que agradar a muita gente está além das minhas habilidades. Se até um casal (de qualquer tipo, como manda o politicamente correto) tem suas rusgas, me expliquem como eu, que não sou exatamente um gênio em relações humanas, posso pretender deleitar uma multidão? Eu me contentaria com um pequeno público mesmo. Pagante, é claro.

Se nada der certo, posso vender Avon. Drummond não foi funcionário público a vida toda? Machado de Assis idem. Sem falar em Fernando Pessoa que, entre outras coisas, era também crítico literário, jornalista, comentador político, tradutor, inventor, astrólogo e publicitário. Boa companhia não me falta!

 

10 comentários em “Escritora Desesperada Procura

  • 15/11/2011 em 16:22
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    Claudia, ri, ri, mas senti uma melancolica solidariedade. Também tenho obras literárias.Tenho dois livros nas Biblioteca de Danbory, USA. Em Danbory vendi muito mais do que no Brasil. Participei de 03 bienais no Riocentro, e lá, assistia com melancolia o frenesi dos fãs do Paulo Coelho, do grupo do Planeta e Casseta e aquele médico que assassinou uma socialite. E meu stand… vazio, rs rs rs, ninguém parava, porque nao sou popozuda nem fiz um monte de merda na sociedade.
    Sabe o que estou fazendo? Pago para editar, faço uns lançamentos, e ganho um dinheirinho. Vai por mim, publique na mesma editora que publico, eles tem o melhor preço de todas que pesquisei, e dá pra ganhar um dinheirinho.
    beijos

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  • 29/08/2011 em 18:45
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    Amiga Clau.As cronicas estão cada vez melhores e mais engraçadas.Ri a valer.Adorei a insinuação sobre a Branca de Neve.Tb. já tinha desconfiado do negócio.KKKKKKKKK!!!!!!Um grande abraço.

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  • 29/08/2011 em 14:48
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    Cláudia, gostei muito, aliás como gostei das outras crônicas que você escreveu. Acho que o melhor é escrever para os amigos. Como você tem vários, está ótimo assim. E quem sabe surgem outros amigos no futuro? Bjs.

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  • 29/08/2011 em 09:05
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    Oi Cláudia! Creio que o problema pode ser a falta de bons leitores, e não de bons escritores… Precisamos de mais pessoas como você para animá-los!! beijos Cici

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  • 28/08/2011 em 13:14
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    Querida amiga
    A bíblia não vende até hoje?, e muito. Não desista faça como eu, que escrevo certo de que daqui a milênios, os meus – e os nossos – escritos, não só terão o seu valor exaltado, como renderão milhões em cartões de crédito (provavelmente mentais) para os descendentes que sobrarem e se lembrarem de nós.
    Não vou ser repetitivo (já estou sendo) em reiterar a graça e a criatividade de seus escritos.
    Abração do amigo de décadas
    Milton

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    • 28/08/2011 em 17:09
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      Milton, a Bíblia vende muito, mas os autores não viveram o suficiente para receber os direitos….
      Acho que estamos indo pelo mesmo caminho, mas pelo menos a gente faz o que gosta, não é?
      Bjs

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  • 28/08/2011 em 09:55
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    Cláudia. Gostei do seu texto. Me trouxe alegria por alguns instantes. Quanto a ser escritora caia na real. Você mora no Brasil. Melhor dizendo, você é uma boa escritora, mas nosso país carece de educação, somos analfabetos.

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