Entre o céu e o inferno

Era uma menina extremamente católica, criada nos bons costumes e nas normas que a Santa Madre Igreja estabelecia. Desde pequena, Maria do Rosário – eis como se chamava nossa personagem – fora ensinada a rezar segundo as regras da tradicional família mineira.

A menina crescia pura e casta. Aos domingos ia à missa, rezava ao deitar-se e ao se levantar e professava sua fé. Preparou-se, com dedicação, para a primeira comunhão: se sentia próxima dos santos e da retidão.

O tempo passou e nossa menina cresceu. No viço da juventude, aos 17 anos, pensava seriamente em se dedicar à vida religiosa, para deleite da mãe, Dona Geralda. Mas o destino segue seu próprio caminho, e Maria do Rosário se viu só e sem saída. Em um domingo, no mês de maio, ao chegar à Igreja para a missa um pouco mais cedo, como era seu costume, voltou o olhar para os primeiros bancos, ao pé do altar.
Repentinamente, apoiou a mão no encosto à frente e se assustou. Sua mão, branca e frágil em contraste com a madeira na qual se apoiava, se viu apertando com tal vigor o banco que se tornou rubra. Em frente a ela, junto ao Padre Lucas, se encontrava um rapaz. O coração dela bateu num ritmo acelerado, uma tontura a atingiu, obrigando-a se sentar. O moço a viu. Seus olhos se encontraram e ele correu para apoiá-la:

– Você está bem? – disse o jovem, algo apreensivo.

Ela olhava para o rosto dele. Os olhos castanhos escuros que a miravam com preocupação lhe tiraram a voz. Da mesma cor, a barba que emoldurava a face do rapaz parecia a de um santo. Ela pensou se tratar de um sonho, desses dos quais não se quer acordar.

– Estou bem! – conseguiu dizer a menina.

– Maria! O que houve? – Foi o que perguntou, em seguida, o pároco, se aproximando do casal, que permanecia de mãos dadas.

– Foi uma tontura! – afirmou a garota, se ajeitando no banco e soltando as mãos do rapaz, com claro constrangimento. Ela ainda tentou explicar, sem muita convicção: – Acho que foi o calor, seu padre!

– Ainda bem, querida. Fique sossegada e se recupere – pediu o vigário. – Maria, este é o Pedro, o seminarista que veio me ajudar na diocese. Ele ficará do seu lado até você se recuperar!

O rapaz se apresentou a ela formalmente e se sentou junto dela. Começaram a conversar em voz baixa, enquanto esperavam o início da missa. Ela sentia ao mesmo tempo medo e felicidade. Ele sorria, e se mostrava atencioso e tranquilo. Daquele dia em diante, Maria ia à Igreja todos os dias.

Sua mãe, acreditando que sua vocação religiosa desabrochara, a incentivava na tarefa de auxiliar o Padre Lucas nas obras sociais em que ele atuava na região. Mas Maria não agia pela religião. Um sentimento que nunca experimentara a movia; amor, era o que sentia. Puro e casto, mas diferente: Pedro era a razão de sua dedicação maior aos assuntos da Igreja. Tudo era motivo para estar ao lado dele.

Da parte do rapaz, a presença da menina era esperada e também temida. Seu coração se dividia entre um sentimento que também desconhecia e os votos que jurara manter. Mas, quando Maria chegava, ele não conseguia esconder a alegria de vê-la. Estavam sempre juntos: na quermesse, ao fazer a sopa comunitária, ajeitando o altar para antes das preces.
Aquilo que parecia uma amizade fraterna começou a preocupar o padre. Ele sabia das dificuldades de se manter afastado do mundo e das tentações para um jovem de 20 anos.

Passado um ano, percebeu o que ocorria. Pediu que Pedro se afastasse das obrigações da Igreja e retornasse ao mosteiro para ali exercer atividades internas. Maria foi avisada pelo pároco de que seria melhor não conversar mais com o seminarista.

A moça ouviu, com resignação aparente, os conselhos que recebia; mas na verdade seus sentimentos corriam em outra direção. Foi para casa triste, mas determinada. Naquela noite, chamou uma amiga querida, abriu seu coração e pediu-lhe que a ajudasse numa missão. As duas se dirigiram ao mosteiro, que era, na verdade, uma casa próxima à igreja onde os jovens seminaristas moravam e estudavam. A noite estava linda e a lua brilhava, como a coragem da garota apaixonada. Nas mãos trazia um spray de tinta, e enquanto a amiga vigiava, escreveu no chão, em frente à casa: PEDRO, TE AMO!

Ao ouvirem um barulho do carro, as duas amigas se afastaram correndo. No dia seguinte, esse era o assunto da cidade. Alguém escrevera na rua, em frente ao seminário, um segredo proibido. Pedro foi transferido para outra cidade. E a moça, que amava um amor impossível, ficou com o coração despedaçado.

Os anos se passaram. Maria, já com 21 anos, estava mais linda ainda. Era ainda temente a Deus, mas ressentida com a instituição que a afastara de sua paixão. Neste domingo, porém, iria à Igreja que já não seguia. Soubera pela amiga fiel que aquele a quem ainda amava rezaria a missa: Padre Pedro, agora ordenado, faria a celebração. A mãe a proibira de ir, o antigo vigário também. Mas ela estava determinada. Entrou na igreja. Um homem se encontrava junto ao altar; ela o viu e reconheceu:

– Pedro! – chamou.

O jovem se virou.

– Maria! – respondeu o rapaz, já se encaminhando para ela. Os dois se abraçaram como amigos, e como dois corações que não puderam se encontrar. Ele conversou com ela com ternura e respeito, e pediu que ela ficasse. Ela assistiu à missa. No final, apesar de uma conversa brusca com o antigo vigário, o jovem celebrante se aproximou de novo da moça e lhe disse:

– Maria, volte sempre que quiser. O amor verdadeiro é puro e sincero. Tomei minha decisão de ser sacerdote, mas isto não me impede de te respeitar e te querer bem!

Ela sorriu e lhe apertou as mãos. Sentiu que se reencontrava com o passado, mas que este a levava em outra direção. Relembrou o que vivenciara e viu que era verdadeiro, e que por sê-lo era livre e soberano. O verdadeiro amor não prende nem escraviza, mas liberta. Deu ao padre um beijo no rosto, se virou e partiu.

Saiu da Igreja sem olhar para trás. As lágrimas caíam de seus olhos, queimavam-lhe as faces. Por um instante se encontrara no céu, e agora, ao se ver do outro lado desse mistério, sentiu a tristeza daqueles que não puderam lá permanecer.

O tempo passou e chegou um dia em que, sem perceber, se viu pensando no que lhe ocorrera. Estava sentada descalça no gramado de sua casa, junto a uma árvore amiga. Olhou para o céu, sentiu os raios do sol tocarem delicadamente seu rosto. As memórias e as lágrimas do passado vieram silenciosamente. Mas, desta vez, não lhe trouxeram de volta as sombras e o sofrimento que haviam sido suas companhias constantes. Percebeu a chegada do tempo, e ele a colocava diante de toda uma vida: a sua.

Enxugou os olhos, levantou-se e caminhou em direção a ela, sem mágoas ou rancor.

 

 

3 comentários em “Entre o céu e o inferno

  • 27/10/2011 em 12:13
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    Olá Gustavo.
    Que história comovente. Quando olhamos nossas vidas, encontramos amores arrebatadores que jamais saem de nossas almas.Ainda bem que por vezes, como uma lanterna mágica, as lembranças nos fazem revivê-los. beijo grande

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  • 27/10/2011 em 10:12
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    Linda a historia talvez Maria conseguisse transformar esse amor em amor materno, e seria uma proteção e apoio para Pedro, mas o amor só quem vive sabe como conduzi-lo, bastante poético, Gostei muito! Cinthia.

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    • 27/10/2011 em 11:32
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      O amor chega sem regras e nos arrebata.Depois ,devagar , vamos em direção ao que nosso coração nos leva.
      Bjo.

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