Entre dois amores

Faz poucos dias, uma notícia nos jornais da cidade me chamou a atenção. Nosso gorila – sim, no jardim zoológico belo-horizontino reside um de nossos primos –, solteiro há mais de dez anos, desde o dia em que sua antiga companheira faleceu, terá nova companhia.

Na verdade, mais de uma; soube que duas gorilas fêmeas compartilhariam sua companhia. Viriam, se não me engano, da Inglaterra, país improvável para de lá se importarem esses animais, mas origem compreensível: há séculos são caçados sem dó nem piedade em seu habitat natural. Se novamente não me engano, o Congo, terra natal dos mesmos, tem dificuldade em coibir a caça indiscriminada que sofrem por parte de sua própria população nativa, que mata para devastar as florestas ou para usar as grandes mãos do primata na confecção de cinzeiros muito apreciados como souvenirs.

Essas e outras ações levam-me a perguntar a mim mesmo quem na verdade são os animais irracionais… O certo é que em vários lugares do mundo surgiram centros de cuidado e reprodução dessa espécie, e a Inglaterra, de onde vieram as nossas meninas, possui um desses. Se pela terceira vez não me engano, elas chegaram na semana passada e aguardam o período de quarentena exigido pelas autoridades sanitárias, em torno de 30 dias. Após este período, as belezas entrarão lentamente em contato com Idi.

Esqueci de mencionar o nome do bicho, Idi Amin, homenagem equivocada a um antigo ditador africano. O gorila é de temperamento calmo como todos os de sua espécie, os quais só utilizam a agressividade em defesa do grupo de que participam, ao contrário, aliás, do antigo ditador do qual o espécime em questão herdou o nome.

Bem, a novidade movimentou a cidade. Necessário esclarecer que, em cativeiro, nosso amigo é exemplar único na América do Sul. Na verdade, não tenho notícia de nenhum outro, principalmente em liberdade. Apesar de seus 1,80m e mais de 200 quilos, todos sentem um carinho especial por ele. Solitário, mas não triste, não se esconde dos visitantes em nosso zoo, para alegria de todos, em especial da garotada.

Comentando a vinda das companheiras de Idi com uma amiga, mencionei o fato de a coletividade aplaudir entusiasticamente seu relacionamento com duas fêmeas, o que sugeriria um comportamento em geral reprovado nas relações humanas. Ela contextualizou a questão, limitando-se a dizer que “gorilas são gorilas”. Percebendo que brincara com uma questão séria, pedi desculpas.

Para ser sincero, as relações humanas, nos últimos tempos, se tornaram de tal forma “selvagens” que fica difícil compará-las àquelas estabelecidas por quaisquer outros animais, ditos racionais ou não. Um dia fulano fica com um, no momento seguinte fulana está com outro. Independentemente do sexo, o que me traz a reflexão é a dificuldade do homem para se relacionar na base de afeto e carinho. As relações são rápidas e fugazes, acompanham o ritmo de nosso tempo, da música, da velocidade. O encontro e o desencontro não diferem na intensidade, mas a permanência do relacionamento se esvai com a paixão. Segundo um filósofo, a paixão dura o tempo necessário para ser consumada. No nosso caso, a consumação vira consumo e é veloz.

Nem falo no amor, este sim, uma espécie rara em nossos dias; mas o namoro, a cumplicidade, os sonhos e devaneios de um primeiro encontro que permanecia latente em nossos corações… Sei que o assunto é longo e meus argumentos tão escassos quanto minhas respostas. Mas ao ver o homem com dificuldade de permanecer ao lado daquele ou daquela que seria o dono dos seus afetos, me pergunto se nossa espécie não caminha para a extinção afetiva. Andamos em bandos, mas por vezes mais solitários do que nosso amigo gorila.

Ele se reunirá com suas consortes, se acasalará com elas e, se tudo correr como se espera, formará uma família e viverá feliz entre dois amores. Quanto a nós, é esperar que o ser humano pare de pular de galho em galho, crie raízes e que desta árvore da vida surjam bons frutos.

 

4 comentários em “Entre dois amores

  • 31/08/2011 em 17:45
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    Eu acredito nos afetos,diversos, de formas e maneiras diferentes.
    Os afetos são eternos!!
    Nao acredito no amor eterno.
    Amor é tão fragil, tao perecivel………
    A cumplicidade afetiva, a amizade entre um casal, o respeito pelos sentimentos do outro, pela liberdade do outro, …..existem tantos sentimentos bons de se viver….
    Nao acredito na extinção afetiva. Enquanto tivermos a capacidade de nos emocionar-mos por coisas simples, estaremos salvo da morte afetiva.

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  • 31/08/2011 em 11:16
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    “Extinção afetiva” me tocou profundamente… E segundo Paulo, o apóstolo, “…é só amor que conhece o que é verdade”.

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    • 31/08/2011 em 11:41
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      Bia
      Relacionar está cada dia mais difícil!
      Vamos tentando!
      bjo
      Guta.

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