Entre a vida e a morte, o queijo

Tenho evitado filósofos. Quando as palavras deles cruzam comigo, meus pensamentos atravessam a rua. Esse negócio de pensar sobre quem somos no caldeirão desta barbárie me ferve os nervos. Um desses pensadores enfiou na minha cabeça que estou condenado a viver, e condenação faz a gente pensar em último pedido.

Nos Estados Unidos, homens no corredor da morte podem escolher a derradeira refeição. O cara vai morrer ao amanhecer e pede costela de porco com purê de batatas — se não pode morrer doido de heroína, nem penetrar numa heroína de grandes lábios, consagram-se as papilas gustativas no altar dos últimos minutos, talvez o gosto da infância abandonada nas batatas da fazendinha do avô. Ao vencedor…

Condenado à vida, condenado à morte, é tudo é o mesmo tatibitate; afinal, na natureza tudo se perde, nada se cria, tudo se empaçoca, seja na violência delicada de uma criança, seja na guerra declarada pelos vermes na “frialdade inorgânica da terra”.

Além dos filósofos, evitarei também os cineastas. Lars Von Trier acaba de instalar um papel de parede no meu sono: seu filme “Melancolia”. A personagem de Kirsten Dunst, Justine, está na cerimônia de seu casamento. O noivo, um engomadinho bom moço apaixonado; a festa, só luxo, numa mansão aristocrática. O patrão da moça lhe concede uma promoção sob a avidez dos convidados. A despeito de sua vida bem mais do que menos, Justine tem uma depressão ursa, que chega a impedir os movimentos do corpo a ponto de não permitir que ela entrasse numa banheira. Além da tristeza arrasadora, que vem não sabemos de onde, o filme se sustenta no planeta Melancolia, em rota de colisão com a Terra. Claire, irmã de Justine, faz seu último pedido: tomar vinho e ouvir música para encarar o fim da humanidade. Justine não aceita o convite por achar a ideia estúpida demais. Para ela, o fim é o fim e pronto. Últimos desejos seriam tolices românticas de quem espera milagres do gênio da lâmpada.

Vivemos em rota de colisão, não adianta fazer ceninha.

Como a filosofia e o cinema se nutrem da vida real, um brasileiro condenado ao fuzilamento na Indonésia fez seu último pedido. Marco Archer Cardoso, carioca, cinquenta anos, tentou entrar com treze quilos de cocaína naquele país muçulmano. A venda do pó pagaria uma cirurgia na perna que ele teria feito em Cingapura. Durante entrevista a um psicólogo, Marco pediu três garrafas de Chivas e duas mulheres antes de tomar um tiro no peito; se ele insistir em ficar vivo, outro tiro na cabeça; um rifle para cada um dos vinte executores. Só duas armas estarão carregadas. Antes da morte, se não tiver sorte, Marco poderá ouvir dezoito cliques.

Ele declarou que espera que a presidente Dilma convença as autoridades indonésias de que a pena seja convertida em prisão perpétua. Para esse brasileiro, a vida morta seria melhor do que a morte? Se o pedido dele pudesse ser atendido, ele teria a mais brutal das dúvidas.

Felizes são os fazedores de queijo que acordam cedo em suas roças. Não leem filósofos deprimidos, não têm TV paga, nem fazem últimos pedidos. Eles não sabem que a Terra está em rota de colisão com a humanidade.

 

 

 

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4 Resultados

  1. Flávia disse:

    Nossa, que texto lindo…
    às vezes dá vontade de partir para o mundo da contemplação dos queijos. Porque a cada dia que passa, o Melancolia se aproxima de nós!!!

  2. manuel funes disse:

    JA JA JA…
    Você também foi amigo de Sartre !
    Então meu chapa….Estamos condenados a SER LIVRES !
    A Existir primeiro e nos fazer logo a seguir….
    Aqui entre nos ele e sua querida Simone fizeram a festa….

    És livre, escolhe, ou seja: inventa.
    Jean-Paul Sartre

    Bem, na real, todos teremos no fim do mundo… na hora de pendurar os “Bets”….
    Basta esperar…no durante VAMOS CURTIR !

  3. priscia disse:

    Cada dia mais sua leitora.

  4. Parabéns, Paulo.
    Sua crônica está fantástica!
    Vivemos numa contemporaniedade que nos coloca em rota de colisão com a vida.
    Melancolia nos mostra que não adianta todas as riquezas do mundo para fazer-nos felizes.
    Talvez a simplicidade de fazer queijos pela manhã e comê-los à noite com um bom vinho faça a vida mais aceitável e com menos deprê.
    beijo grande

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