Enologia

Esqueçam os romancistas russos, os cineastas de ficção científica, os visionários do apocalipse.  A categoria de pessoas que mais me impressiona pela imaginação descritiva é a dos apreciadores de vinho.

Num programa de rádio ouvi o comentarista-enólogo chamar um vinho (não me pergunte qual!) de potente, elegante, estruturado, untuoso, equilibrado, redondo (sic), além de outros adjetivos que não fui capaz de guardar na memória.  É um tal de falar de frutas, flores, aromas, consistências, cores, madeiras…

Vinhos são classificados por cor, textura e acidez, critérios que eu, mesmo leiga, acabo ouvindo por aí.  E a quantidade de vinícolas?  Tudo num chateau perto de você ou numa quinta perdida na fronteira entre Portugal e Espanha.  A variedade de uvas, sem contar as combinações entre as diversas qualidades — perdão, castas — é enorme.

Há todo um vocabulário especial para atender aos amantes do vinho.  Parei de contar as castas quando cheguei a quarenta, casta ou cepa, não sei se há diferença ou se são sinônimos.  Se tivesse lido algum livro sobre o assunto (a oferta de literatura sobre vinhos é assombrosa), eu teria perdido a inocência e não estaria aqui escrevendo estas besteiras.  Talvez um dia até precise me ajoelhar no milho por causa disto. E se você é enólogo, pode substituir inocência por ignorância, é justo, mas, por favor, não me escreva elucidando o assunto.  Nunca antes neste país foi tão chique ser analfabeto, e até eu tenho o direito de andar um pouco na moda.

Outro dia fui convidada para uma degustação — convidada não é bem o termo, fui acompanhar um convidado. Fiquei pasma com a solenidade da coisa, parece uma missa, um rito religioso.  Há um profundo respeito por aquele copo, aliás, copos.  Ai de você se desrespeitar o código de ética de um lugar assim.  A heresia só é punida com a excomunhão porque aqui não existe pena de morte.

Nos restaurantes, a cerimônia da chegada do vinho é marcada por um comportamento que se assemelha a uma dança de balé, cada um cumprindo à risca o seu papel.  Às vezes tenho vontade de rir da mímica envolvida, mas não o faço porque me lembro da excomunhão.

Adoro vinhos, bebo todo dia.  Desde o tempo em que só havia três tipos, branco, tinto e rosé, e que todo espumante era champanhe, eu os classifico de forma simples em dois grupos: os que eu gosto e os que eu não gosto.  O interesse de tanta gente por vinho tem feito crescer a olhos vistos a oferta (e os preços) da primeira categoria.  A gente lucra na qualidade e perde no bolso.

É claro, leitor arguto, que para manter sua cabeça distraída e fazê-lo ainda mais feliz, é possível substituir vinho por azeite, uísque, cerveja ou qualquer outro artigo que lhe agrade.  Mas a comunidade do vinho, convenhamos, está muito mais organizada.

Aproveite.

 

 

3 comentários em “Enologia

  • 08/07/2012 em 11:59
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    A noite passada, noite de Lua cheia, bebi vinho com Baco, aquele …

    “É o deus do vinho, da ebriedade, dos excessos, especialmente sexuais, e da natureza. Príapo é um de seus companheiros favoritos (também é considerado seu filho, em algumas versões de seu mito). As festas em sua homenagem eram chamadas de bacanais – a percepção contemporânea de que tais eventos eram “bacanais” no sentido moderno do termo, ou seja, orgias, ainda é motivo de controvérsia.”….

    Me conto que só existe um vinho, original…. O TINTO SUAVE….. aquele com o qual os gregos podiam invocar os Deuses!

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    • 08/07/2012 em 14:21
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      Ainda bem que não sou grega (principalmente agora nessa crise): posso beber vinho e não me preocupar com nada disso…

      Resposta

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