Endurecer sem perder a ternura

Vejo muita gente mal resolvida se arvorando em conselheiro dos outros. Nem vou citar aqui o dito que fala sobre conselho, mas nós, por mais que saibamos que devemos manter o bico calado, estamos sempre buzinando nossas opiniões nos ouvidos alheios. Foi o que eu fiz no outro dia.

Bem não é que fui me metendo sem mais nem menos. O homem chegou no meio de uma mesa onde havia um montão de mulheres e foi logo contando o seu problema. Pronto, deu no que deu: alguém, no caso eu, foi meter seu bedelho.

Apoiada no fato de que comigo deu certo, pois tenho três filhos bem resolvidos, achei que podia ajudá-lo naquela questão.

O problema é que seu pimpolho de quatorze anos estava num dilema, já que é originário de um casamento com uma americana e sempre viveu nos Estados Unidos, fazendo visitas ao pai amoroso nas férias aqui no Brasil. Ia tudo muito bem enquanto era criança, mas daí chegou aquela época fatídica da adolescência, e o garoto veio morar aqui com o pai. A adaptação nunca é fácil, pois o pai das férias virou cotidiano, com o agravante de os avós brasileiros, sem conhecer direito sua cultura, ajudarem na criação do moleque.

Resumo: depois de alguns meses, ele quer voltar para os EUA. O pai, que quer ser amigo do filho, disse que o ama e gostaria que ele permanecesse, mas que a decisão era do garoto. Foi aí que meti minha colherona.

Depois que todas se foram, sentei-me com ele e disse que assim ele não ajudaria seu filho, já que com quatorze anos ninguém sabe decidir nada, precisa de alguém que lhe diga o que fazer. É para isso que existem os pais, para serem odiados na adolescência. Deixar a decisão para eles é um fardo muito pesado. O que eles querem é que alguém resolva, e depois, sim, ficam reclamando. Faz parte do processo de crescimento se rebelar. Precisamos odiar nosso casulo para tomar coragem de arrebentá-lo e assim podermos nos expandir, abrir nossas asas e voarmos, enfrentar o desconhecido, já na ocasião preparados para isso.

Aqueles que não se desenvolvem plenamente não sobrevivem se forem brigados a sair ao mundo sem os aparatos necessários. Fui uma mãe muito exigente e até intransigente, mas hoje, depois de todo aquele trabalho, olho para trás e vejo que valeu a pena. Cada um a seu modo, vai muito bem, obrigada.

Penso sempre que o que nenhuma criança suporta é o abandono, a falta de amor, o desprezo. Eu, apesar de ter sido dura, nunca perdi a ternura e nem desisti. Estava sempre atenta aos mínimos comentários sobre a escola e os colegas, aos esportes, à diversão. Os filhos, apesar de eles mesmos pensarem o contrário, sempre querem nos dizer o que se passa, e se estivermos atentos podemos evitar decepções maiores.

Quando decidirem trazer criaturas a este mundo, os pais devem saber que o trabalho é insano, difícil e para sempre, mas a compensação supera, se nos dedicarmos com verdadeiro afinco.

Ame muito seus filhos. Saiba que eles não nasceram para serem seus amigos e sim, seus filhos. Dedique a eles amor de pais e em troca receberá amor de filhos.

Amigos você arranja por aí, sem compromisso e sem obrigação.

Não desista, pois mais tarde eles lhe dão netos e o amor continua!

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Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

5 comentários em “Endurecer sem perder a ternura

  • 02/12/2012 em 09:41
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    O texto é corretíssimo, mas, com todo o respeito, discordo em duas citações:.
    1- “Amigos a gente arruma por aí, sem compromisso.”
    Um conhecimento casual se solidifica e se transforma em amizade – a partir daí há compromissos e obrigações, sim – caso contrário, não é amizade.
    2- “Não desista porque mais tarde eles lhe darão netos e o amor continua” .
    Os pais têm que ter o cuidado de não ficar cobrando netos. Esta é uma decisão única e exclusiva do casal.
    É cada vez maior o número de casais que decidem não ter filhos e nem por isso os pais deixarão de amá-los.
    Esta afirmação ignora o fato deles não quererem filhos ou pior, mesmo querendo, não tê-los.

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  • 01/12/2012 em 13:34
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    Bem, estou velho, e vou dar uma opinião de velho.
    Nos meus tempos, criança era criança e adulto era adulto…
    Essa invenção dos americanos de “Adolescência” que burrice.
    Você é homem ou criança… Não existe este ínterim irresponsável.
    Quando era criança aprendi a trabalhar, respeito pelos meus pais e não me intrometer em coisas de adulto puxa… Existe uma “neura” de querer que crianças pensem e ajam como adultos… Otaricies!

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  • 30/11/2012 em 18:14
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    Uma lição de vida amiga, vc como sempre sabia em suas colocações.
    Hosana Faria

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