Encontrando o amor

Nas vésperas do Natal fui ao shopping com minha mulher para comprarmos presentes. O problema é que, de todos os habitantes da cidade, me pareceu que a maioria teve a mesma ideia. Como minha irmã dizia, nesses momentos as lojas ficam tão lotadas que parecem “a visão do inferno”!

Se eu vivesse na Idade Média, fortaleceria minhas muralhas, pois, ao ver as pessoas avançando em direção às prateleiras em busca daquilo que almejam comprar, me lembrei da descrição da invasão dos hunos em Roma. Nem o bando de elefantes que o general Aníbal comandava deve ter feito tanto estrago.

Vencido por esta horda de “bárbaros”, já estava me apavorando quando avistei ao longe uma poltrona na qual me sentei após uma corrida discreta; cheguei à frente, aliás, de outro refugiado de guerra consumista. Pedi licença à minha companheira de luta (a saber, minha esposa) e me deixei ficar.

Ali, do alto de minha pirâmide particular, contemplei o mundo ao meu redor. Olhei as pessoas e imaginei suas histórias. Muitos casais de mãos dadas cruzaram o meu caminho; eu os via felizes, no prenúncio de um novo amor que surgia. Uma velha senhora solitária, caminhando com o apoio de uma bengala, fez com que eu me perguntasse a razão de tal solidão. Seria consentida, buscada ou acontecida?! Enquanto, silenciosamente, ela  passava por mim, me vi envergonhado por tantas vezes me sentir sem vontade de sair com os amigos, com os meus filhos, com minha mulher, por acreditar que meu desejo de estar diante de uma televisão, lamentando os problemas nossos de cada dia, resolveria minhas questões.

Nesse ínterim, uma criança pequena se aproximou: trazia em uma das mãos um balão (se meu leitor for paulista, uma bexiga) azul. O pequeno artefato flutuava, impregnado da mistura de gás que o sustentava e lhe dava leveza no ar. A seu lado, a mãe acompanhava os passos do pequeno aventureiro, dando-lhe a oportunidade de lançar seus primeiros movimentos no mundo livremente, mas sob um olhar protetor e vigilante. Aguardava em tranquilidade do local onde estava, um refúgio das intempéries do consumo; não havia grandes lojas ao redor e as que ali se encontravam não apresentavam o movimento enlouquecido do entorno.

Enquanto eu observava, nosso pequeno explorador se alegrava em segurança, divertindo a todos com sua ingenuidade real e feliz. Perdido em meus devaneios, observo, caminhando em direção ao lugar em que me encontro, uma mãe com duas crianças, a menor no colo e a mais crescida, ao seu lado, que, subitamente, escorregou e caiu, por pouco não bateu com violência a cabeça no chão. A mãe tomou a criança nos braços com delicadeza e presteza; o garoto sofrera um esfolado no cotovelo.

Beijos, carinhos e palavras de conforto acompanharam o atendimento de urgência materno. O choro sentido do pequeno se perdeu ao longe, enquanto outros personagens passavam por mim. Me peguei preso ao acontecido, tão rápido o acidente, que a responsável pelo rebento não pôde agir para evitar a queda. Lembrei-me de meus filhos: tenho um rapaz, André, e uma moça, Mariana, hoje adultos, mas eternas crianças em meu coração. Quando caíam e se machucavam, lembro o meu desespero e a falta de jeito para enfrentar o imponderável: pai de primeira viagem, sem ter lido corretamente o manual, não sabia lidar com o imprevisto. Pior, me sentia culpado pelo ocorrido.

Sentado, ainda aguardando que Valéria concluísse com êxito nossa “batalha natalina”, me recordei de tudo, ou quase tudo. Refleti principalmente a respeito de minha fragilidade, que permanece esquecida em minha intimidade, protegida por uma couraça social que construí para enfrentar o inaceitável — o que é imprevisto, aquilo que foge ao meu controle, os acontecimentos da vida.

Percebo claramente, hoje, que a dificuldade de aceitar a vida e suas ocorrências não é exclusividade minha. Quando nos acomete uma doença, dessas que nos fazem de certa forma reféns de seus efeitos, nos damos conta de nossa mortalidade. Não é raro a revolta nos impedir de enfrentar nosso destino. Normalmente é mais fácil imputar a alguém ou a algo a responsabilidade pelo acontecido. Muitas vezes, como crianças assustadas, buscamos através do choro e do lamento a ajuda daquele que sempre esteve ao nosso lado ou, segundo o nosso entendimento, deveria ter estado. Mas sabemos que mesmo os que nos protegeram ou que foram por nós, em nossa crença, responsabilizados por essa ausência, não podem sofrer por nós.

Diante do inevitável, nos deparamos com nossa própria existência. Crescidos, em parte ou no todo, guardamos no nosso inconsciente a essência dessa criança que permanece em nós. Frequentemente, ela foi amparada ou acompanhada, se permitindo, então, um caminhar audacioso, com um balão azul nas mãos. Assim, a chance de encontrarmos força e coragem para ir em frente é real. Se, mesmo com esta vivência, a dor for tão latente em nossa mente ou corpo que chegue a nos enfraquecer, temos, em nossa essência, o recurso de pedir ajuda Àquele que nos criou a todos.

Pode ser que Ele não nos levante do chão, mas, se conseguirmos fazer esse movimento em Sua direção, Ele nos acolherá em seus braços junto a si, já que há muito prometeu, quando tentaram nos impedir de nos acercar Dele: “Deixai vir a mim as criancinhas, pois é deles o reino do céu”.

— Gustavo! Vamos, amor!

Olhei para cima e vi Valéria, sorrindo, me chamar para irmos embora. As sacolas não eram muitas, mas seu sorriso denunciava que ela havia vencido a batalha natalina. Sorri de volta, levantei e voltamos para nossa casa, para o mundo real, onde muitas vezes esquecemos as primeiras histórias que ouvimos, essas que estão guardadas em nosso coração.

 

 

10 comentários em “Encontrando o amor

  • 05/01/2012 em 19:22
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    Parabens, Gustavo! Gosto muito de todas suas cronicas… e como se estivessemos assistindo em tempo real! Mas esta superou todas!
    Um grande abraco, Lucinha

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  • 29/12/2011 em 11:32
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    Muito legal!! Parabéns Gustavo!

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  • 29/12/2011 em 09:40
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    Caro Gustavo:

    Não costumo me corresponder com estranhos, nesse surreal mundo da internet, mas não resisti em compartilhar com você minha admiração pelo texto “Encontrando o amor”.

    Ele me foi remendado pela minha amiga Sara Assis, e tenho certeza de que ela o fez por um motivo específico: suas reflexões sobre como, às vezes, nos deixamos levar de roldão pelos redemoinhos da vida (como deliciosamente retratado por vc, na “visão do inferno” que é enfrentar um shopping na época do natal…) em contraponto com as coisas que realmente valem a pena na vida, como estar com quem se ama profundamente: a família e amigos.

    Recentemente recebi um diagnóstico de câncer de mama (graças a Deus o susto inicial já passou e estou na jornada do tratamento quimioterápico), mas este evento, fora do meu controle, me trouxe várias perguntas.

    Graças a Deus consegui NÃO perguntar “- Por que eu?” e sim “- PARA QUE?, O que posso fazer com isso? O que posso aprender e reformular, a partir deste tangenciamento da minha mortalidade?”

    E comecei a “re-significar” várias pequenas coisas do cotidiano, como ser imensamente grata pela amizade sincera de vários amigos e colegas (e ex) de trabalho, além passar a sentir e expressar o verdadeiro valor do amor que tenho por um marido maravilhoso e dois filhos lindos (um rapaz de 17 e uma menina de 10 anos).

    Seu texto vem ao encontro de um episódio muito similar meu, do dia 21/dez, quando, (por conta do cansaço decorrente das sessões de químio) me sentei nos sofás do Boulevard Shopping aguradando pacientemente minha filha e as amigas passearem, enquanto esperávamos o horário da sessão de cinema…

    Me vi no seu lugar, usando estes momentos para reparar na multidão que passava, tentando imaginar suas dores e alegrias, me reconhecendo em algumas pessoas, me divertindo com a vestimenta “modernosa” de alguns adolescentes, mas, principalmente, em paz, apesar da doença que eu não esperava e para qual não estava preparada.

    Ver este momento retratado tão delicamente por uma pessoa que não conheço (mas já admiro), foi realmente muito bom.

    Muito prazer, Rodrigo, e MUITO OBRIGADA pelo seu belo texto.

    Forte abraço,

    Edilene

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    • 29/12/2011 em 18:50
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      Edilene

      Aceitar o imponderável é muito difícil!Fiquei sem palavras, para te agradecer,mas feliz por voce ter gostado do texto.
      Sara é uma amiga em comum e uma pessoa especial, tenho certeza que voce sabe disso!Fico feliz por termos nos encontrado e compartilhado
      nossos sentimentos.Uma amizade começa assim e cresce com o tempo.Espero de ter por perto,se não pessoalmente,através de minhas crônicas.
      Eu as escrevo,com desejo de partilhar o que sinto diante do mundo que muitas vezes não compreendo.Sei apenas que o amor é real!
      Acredito em sua força e em seu poder de nos transformar.Sei que na estrada da vida,não sou senhor do meu destino.
      Mas acredito que Deus esta ao nosso lado nesta jornada, e nos fortalece quando nos sentimos sós e com receio do futuro.
      Um grande abraço,
      Gustavo.

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