Empatia

O livro de Paulo Lima Soraggi, “Formigas de Camisetas Pretas”, será lançado na Farra BH em 25 de agosto. Aguardem.

         Minha descoberta foi o resultado de minha percepção musical.

Albert Einstein

 

Dizem que o que faz você realmente mergulhar num livro é a sua empatia com a história, ou com os personagens que nela vivem.

Não me entendam mal. A antipatia é uma força empática muito grande, ou não estaríamos todos enfiados nesta sopa midiática de violência e catástrofe que nos assola, nem que seja por nos sentirmos a salvo de tudo que nos desola…

Agora. Vamos combinar. Quando a gente lê um livro que conquista pela leveza, pela certeza de qualidade, e, não permitam que eu deixe de lado a musicalidade… nas frases e memórias de um ex-roqueiro — ops, pelo que vejo não existe tal coisa, taí o asilo ativo do rock que não me deixa mentir, e até hoje eu não sabia bem por quê —, aí a coisa pega de jeito.

Se o rock’n’roll não é uma religião eu não sei o que é, talvez “um campo de força brilhante”, vai entender. Quem nunca teve uma banda de rock “não sentiu esse poder”.

Estou trabalhando num livro assim agora — Formigas de camisetas pretas, de Paulo Lima Soraggi, colunista da KBR. E é como se estivesse de férias embora trabalhando alucinadamente, com o prazo se extinguindo lá na frente, como se encontrasse alguém mais que entendesse que dar às palavras seu merecido teor poético natural não lhes tira a força, nem a beleza, nem a tristeza que normalmente a gente sente. Pelo contrário. Aumenta.

No começo, confesso que estranhei.

Não sou estranha à música, não, nada disso. Toquei na adolescência um piano obrigatório, não aquele piano de ouvido que invejava no Johnny, meu amigo de Niterói de cujas mãos brotava um delicioso improviso, mas uns clássicos subtraídos à confluência empedrada daquelas escaladas diariamente cometidas. Não acabei concertista, como todos sabem, mas adquiri uma sensibilidade genérica de artista que até hoje me faz um grande bem, embora esses “clássicos” a que me refiro não sejam, claro, os que Soraggi assistia rezando na MTV pirata de Formiga no início da década de 1990.

Enquanto os pais em geral evitam para os filhos o ambiente perigoso da música explosiva, os meus me incutiram à força os conjuntos de câmara nas noites de quarta-feira do Instituto de Educação em Belo Horizonte, pois não havia na cidade naquela época nenhuma outra sala de concerto. Cresci, meio adormecida, entre os Mozarts, Beethovens, Bachs e algum eventual John Cage desta vida, que mais tarde curti em viagens do Carnegie ao Albert Hall, com passagens constantes de assinante pelo Theatro Municipal (do Rio de Janeiro).

Mas gosto de silêncio para escrever, quem escreve talvez entenda isso. Busco a música das palavras como meu mais respeitado compromisso. E como esse escritor cujo texto excelente faço questão de subscrever, e voltarei com certeza a escrever sobre isso, também custo a acreditar que “bandas com esses nomes existam”. Espantada (e amedrontada), confiro no Google, como costumo fazer para cada informaçãozinha da qual duvido. E estão todas lá, o que me fez compartilhar em vários momentos as “gargalhadas búfalas” do autor (“Genital Deformities, Suppurated Fetus, Defecation. Cara, Defecation… é bom demais!”).

Prosseguindo, confesso que me entreguei, com o som ofensivo do punk e tudo. Para a arte de verdade  não existe limite, nem estilo maldito.

Comecei a misturar às memórias dele as minhas próprias, minha própria condição de dinossaura lembrante, que é, no final das contas, o cerne do ofício de cronista. Lembrante e observante, numa atenção que é extenuante até que entendemos que somente com música as coisas começam a fazer sentido, seja a música das frases, das esferas ou dos feitiços, afinal de contas, do verbo somos feitos e pelo verbo fomos escolhidos, não é mesmo?

Mesmo no silêncio de um quarto solitário, onde normalmente se processa a leitura, existe música, e um bom escritor sabe disso muito bem. Ritmo. Palavra. E o que “há por trás” de tudo isso.

Deixando a poesia de lado vou prosseguindo no relato, e publicando, como sempre faço, pequenos trechos no mural do Facebook, na frequência exata em que o livro mexe comigo, de vez em quando as memórias editadas junto às minhas próprias, como já disse: vi com esses olhos e a vontade de pertencer os da Cura de Smith vestidos de preto, com a testa na parede, num clube subterrâneo de Copacabana no final dos 1980. E um certo patamar de concreto me lembra de imediato um patamar de concreto onde promovi algumas loucuras, abre parêntese.

Entre tudo que já fiz na vida houve um bom período em que criei algumas “performances” para lançar produtos ou eventos, e uma delas foi especialmente divertida. Haveria na Pólen do Itanhangá uma exposição de esculturas de neon intitulada “As pernas de Tina Turner”, então rolou essa ideia maluca: trouxemos de São Paulo um travesti que fazia a Tina, é isso mesmo, podem acreditar. No dia marcado arranjamos uma pseudolimousine estilo holiúde legítimo, provavelmente um Opala preto com um motorista de jeans e camiseta, dos detalhes já não me lembro direito, e lá fui eu de recepcionista buscar o artista no aeroporto. Demos a ele nosso próprio “tratamento vip”: um camarim improvisado numa loja vazia do segundo andar, uma penteadeira de caixotes e uma sutil gambiarra de holofotes. Na hora marcada, lá veio a Tina descendo a escadaria com as pernas de fora, microvestido e porte de rainha, mas o mais engraçado é que o escultor das perninhas era um rapaz da alta sociedade, e enquanto o show rolava a gente ria com os comentários das madames de verdade, tailleurs, escarpins e joias cintilantes em meio à pequena multidão exultante, “Mas é mesmo a Tina?”, fecha parêntese.

O melhor de tudo ainda estava por vir,  na mesa e na tela, e é um sinal do que esse livro publicado pode conseguir junto à clientela: em resposta à postagem no Facebook um comentário do meu sobrinho músico, que encontro raramente, Sid Batera — cujo instrumento o próprio nome já diz.

Como o André do livro e o Paulo Soraggi por trás do livro, Batera tinha crescido, física, musical e moralmente, por trás dos pratos de uma bateria: era ainda um menino, tão pequeno que os tambores pretos o escondiam, até que o demônio aparecia e levantava a plateia em gritos ensandecidos. Um menino! E ao Sidney querido, finalmente, dedico esta crônica de domingo.

Deixo aqui meu desejo de que o amor pela música amadureça no amor pelos livros, uma das boas alegrias desta vida.

E uma boa semana procês.

 

 

Deixe você também o seu comentário