Em quanto de vida há esperança?

As últimas horas de Eva no hospital, tranquila, afinal. Foto Alan Sklar.

Para Fátima, uma segunda mãe

 

A primeira vez na vida em que vi uma pessoa morta eu já tinha 60 anos. Fiz questão. Achei que já era hora, um ato de consciência humana, de amadurecimento, despedida, de sensação de pertencimento, sei lá.

Nesta minha longa vida de cronista já escrevi cruamente (sob alguns protestos do público leitor) sobre o sexo e outros fatos da existência cotidiana que, por motivos além da minha compreensão racional — obviamente dessensibilizada por experiências vividas deste pudor rotineiro do qual os reveste a sociedade normal —, tornaram-se eventos proibidos, impedidos de entrar nas boas casas de famílias do ramo, do ramo do rubor, digo, um rubor que perdi justamente no exercício da normalidade (a)moral destes fatos habituais.

Ah. Tudo bem. É duro o tema, e por isso o vou enrolando como posso num excesso de palavras que o amenizem onde não há, vamos combinar, amenidade possível para me auxiliar. Minha mãe faleceu esta semana, ao cabo de mais de 15 anos de uma progressiva “demência vascular”, testemunhada por muito poucos, pois é, foi este o prognóstico no óbito oficial. E fiz questão de vê-la morta, após o suspiro final, envolta em lençóis sobre um saco plástico preto bem fechado, fetalmente encolhida na morgue do hospital, quase um pássaro contrito, os olhos semiabertos que cuidadosamente fechei, num último toque do evento fatal. Já não era a minha mãe, há mais de quatro anos pelo menos aquele corpo já não era ela, nem era tão grande e nem tão chocante a diferença entre a casca semimorta que eu me acostumara a ver a cada vez que a via, degradada pela doença, e o invólucro finalmente vazio com que me deparava agora, um animal, a nossa parte animal, humana, como se recheada de palha estivesse.

Talvez a doença mortal seja mais ou menos isso: um recheio de palha seca que pouco a pouco vai tomando o lugar de onde estavam rins, fígado, estômago, coração, e muito especificamente no caso em questão, ainda muito possível de ser dolorosamente percebida a invasão, o cérebro que ali costumava viver, dali comandava o espetáculo do ser que todos costumamos chamar de vida.

A casca inerte, um pouco amarelada, as mãos já se inflando do interno gás, era o resultado final de uma última luta nossa contra a moderna falta de lógica médica, um ato de insurgência contra o exercício abusivo da sobrevida compulsória que ainda pretendeu, por breves minutos, conectar minha mãe agonizante ao maquinário estressante de um prolongamento tão doloroso quanto inútil, imposto, dilacerante, baseado numa teoria vazia, num clichê deslocado onde “enquanto há vida, há esperança”, mas, me pergunto, o que é vida? E esperança exatamente de quê?

Minha mãe, coitada, já não tinha aquilo que normalmente merece a definição de vida bem antes de ser internada — para ser rigorosa, três meses antes durante os quais protestara aos gritos contra tudo aquilo que lhe ia na mente, sabe-se lá o quê — com suas três pneumonias progressivamente fatais que a aliviaram de seu calvário, como ocorre à maioria dos doentes de alzheimer, mortos para além da demência por insuficiência respiratória (algo que eu sempre quis saber mas nunca me contavam). Seu último alento de vida concentrou-se num último chamado: num lampejo de consciência tardia, chamou pela irmã que ela adorava, que filhos, que nada, mas que não estava ali para escutá-la.

Teve sorte, a minha mãe. Tivesse sobrevivido, e enfrentaria mais uma morte em vida sem data marcada de partida, ligada aos tubos frios de um hospital substituto instalado com apuro e pressa em seu prévio apartamento com vista para um Cristo que não a redimiria. Algo nela, que ainda numa coragem meio sem sentido a mantinha viva até aquele momento, entendeu que já não valia a pena, nossa, dela, por que pena passamos, nossa, uma história doída que simples palavras como as minhas não dão conta de concatenar, por mais que se as ponha num contexto de leitura em contracena com o que mal se consegue suportar.

Ok. Já basta. Um cesto plástico daqueles de roupa suja, cheio de duros registros do curso da doença religiosamente anotados por Fátima, Sônia e Zila, aguarda agora a minha pena de autora e filha, um destino que há apenas dois dias me parecia certo, mas contra o qual enquanto escrevo esta crônica sinceramente me revolto. Talvez me limite à dor da foto reveladora, também proibida, tirada à revelia das regras do hospital. Talvez me baste, talvez daqui para frente eu me recuse ao abate e me concentre em aflautar a memória, adocicá-la, depurá-la dos momentos tristes e pendurá-la num certo panteão de glória, de amor, de viagens impactantes pelo mundo em que tudo a atraía, batizados, casamentos e aniversários conjuntos — o meu e o dela no mesmo dia — pela vida afora.

Encerro aqui este enfermado capítulo de vida que tanta energia me sugou, sem mais mistério, vergonha ou terror: o fim retratado sem retoque, sem não-me-toque, com um quase invisível toque de amor.

Adeus, mamãe.

 

II

O dia seguinte amanheceu suave, cansado e quieto, tristemente ensolarado, pronto para o desenlace cerimonial previsto no anúncio de jornal. A longa viagem sacolejante ao local do ritual remexeu-me as entranhas, já de antemão em estado de enovelada estranheza emocional. Um único carro nos levava de casa àquela outra casa, a final, onde chegamos ao cabo de uma hora ou duas por conta do trânsito irracional.

A calma local, o amplo campo sacramental — por onde elísia, calmante, desestressante e desangustiante nos brindava a brisa —, tudo muito verde e azul, uma planura rodeada de palmeiras e muito quieta, naturalmente sussurrante e surpreendentemente oposta a tudo que a antecedera, nos acolheu, uma sábia escolha do meu irmão.

Ali fizemos nossas abluções. Demos à terra o que da terra vinha, pois de algum modo a esta terra nosso corpo pertence sem que disso nenhum de nós duvide, mesmo que o cérebro esvoace por divinos véus por vezes apenas adivinhados. A mente em tormento tornara-se na véspera história em movimento, e o franco contraste dos cenários que a acomodavam evidenciava isso. Deixamos o teatro da dor pela arena vibrante da memória, e a esta doçura pretendo dar as rédeas daqui por diante, as rédeas e as honras de tantas e tão profundas sensações. Da conexão que fica. Nada mais.

Obrigada, mamãe.

 

III

E a todos vocês que me assistiram por tantos anos e textos — por solidariedade, deleite ou pena, não importa que emoção tempera a tela contanto que envolva, domine, tome conta de quem lê —, sou grata também. Conceda-lhes a leveza do drama findo, visto que tudo que existe em nosso mundo é inescapavelmente finito, o calmo usufruto de um domingo tranquilo, o pranto derradeiro e um  descanso definitivo: desta dor não sofrerei mais.

 

 

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15 Resultados

  1. Noga, se um dia vieres aa Toronto, de um toque aih! Nao estou inteirado sobre a que Farra vc. se refere, mas se divertam!

    “Abre as asas sobre mim, Oh senhora felicidade…”

  2. Noga Sklar disse:

    Nilson, obrigada! Venha a BH para a nossa Farra! Grande abraço.

  3. Noga, nao ha conheco pessoalmente mas sei do seu trabalho atraves da conexao com o meu mano Carlos Henrique Peixoto.
    Expresso-lhe of meus sentimentos mais profundos pelo sofrimento que passou sua mae, voce, e seus familiares. Agora a senhora morte a levou e naturalmente um novo ciclo de vida iniciou. Nao sei se eh mera coincidencia que hoje, Dia das Maes, falei por telefone com a minha, e que por morar distante, presto atencao aa cada assunto que ela propoe. A sua mae parece ter sido um super pessoa. O seu retratar desta vida e morte me manteve grudado na tela do computador. A sua coragem e forca (forsa, falta cedilha) me tocou, por isto resolvi enviar este comentario.
    Desejo-lhe muita paz e serenidade.

  4. Ana Cecilia Carvalho disse:

    Noga querida, nesse texto — que eh tambem uma licao de vida — , com a coragem e o genio da grande escritora que admiro imensamente, voce consegue transformar em pura beleza e sabedoria a dor de uma perda tao marcante quanto eh a morte de uma mae. Voce tem o meu carinho e a minha amizade, sempre.
    Sua velha amiga,
    Ana

  5. Noga Sklar disse:

    Obrigada, Tânia. Vc também é querida! Bjs

  6. Tania Levcovitz disse:

    Noga,
    Fiquei muito triste ao receber a noticia do falecimento de sua mãe, a quem sempre tive carinho e respeito.
    Sei que o momento é difícil, mas sei também que é um momento de ver muito além do que os nossos olhos possam ver – sua crônica é um exemplo disso!
    O meu abraço carinhoso para você e para toda sua família,
    Tânia

  7. Beatriz disse:

    Seu texto me comoveu muito. Como tantas outras pessoas, eu também já passei por isso, vendo minha mãe morrer de câncer, há alguns anos atrás. POr mais que seja uma história tão comum e por tanta gente compartilhada, é também um momento tão íntimo e doloroso, que parece que se torna parte indelével de nossa história; o encontro com a morte, com a sensação de vazio e impotência diante de sua inexorabilidade, diante do sofrimento daqueles que tanto amamos! Eu não sou uma pessoa religiosa, gostaria de ser, embora tenha sido criada dentro da religião católica e admire e respeite muito a figura de Jesus Cristo. Para mim a morte é isso mesmo que você descreveu, e , diante de um corpo morto, sinto a mesma sensação que voce , , de estar vendo uma espécie de casca vazia….para mim parece mesmo um barco vazio, que atracou no cais, e nunca mais vai navegar: seu capitão, sua tripulação, que eram a sua alma, foram embora.
    Um abraço, e, mais uma vez, parabéns pelo texto tão humano e lúcido.

  8. Noga Sklar disse:

    Obrigada, Bia querida. Obrigada Vera, Raul, Regina.

  9. BB disse:

    Querida, coragem e teu ser, e com coragem passaste por tudo antes e agora nesta cronica lucida e emocionante, agradeço a você por isto, e te acompanho em qualquer sentimento que venha a surgir
    um abraço enorme e muitos beijos de amor
    BB

  10. Noga,

    Parabéns pela crônica e pela coragem de expôr temas tão delicados com tanta audácia.
    beijo grande

  11. Raul Augusto disse:

    Oi, Noga!
    Já passei por isso três vezes…
    Meu pai, aos 56 anos, minha mãe aos 81, e minha filha Bia aos 28 anos em 2011.
    Mas, dizem, na vida tudo passa…
    A dor também passará…
    beijo

  12. Regina Machado disse:

    Querida Noga
    Envio meu abraço pela sua dor. Podemos ter idade adulta que for 20, 30,40, 50 ,60… anos, que vamos nos sentir órfãos dos nossos pais. Sentir uma saudade infinita. Agora só o tempo p/ amenizar a dor da perda de um ser tão especial como é a mãe. Abraços

  13. KBR disse:

    Eu lembro, Noemi. Foi triste, mais triste ainda. Passei por isso com meu pai… Agora quero curar tudo, 40 anos… Bjs, querida.

  14. Noemi Weksler disse:

    triste Noga ver a quem amamos passar por isso, eu, aos 15 perdi a minha, que tinha apenas 34 anos..e nao pude estar ao seu lado, por ser naquela epoca, “outros tempos” , por ser muito nova, por nao se falarem claramente sobre certos assuntos, por que nao me permitiram a honra de fechar-lhe os olhos, pena de mim, pena dela, pena… ( desculpe a falta de acentos pois estou fora do Brasil) beijo e que ela descanse em paz e vc descanse em vida nova…por que… a vida continua, mesmo com a saudade ai ao lado.

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