Em defesa do português

Eu me recuso a entrar em coiffeur. O que há de errado com a palavra cabeleireiro? Tudo bem que sushi e sashimi não tenham tradução, mas coiffeur, é demais.

Sem chegar ao exagero de chamar mouse de rato, como nossos patrícios de além-mar, rejeito a subserviência linguística ao povo da vez. Já foram os franceses, agora são os americanos, amanhã talvez sejam os chineses. Ouvi dizer que em chinês “mãe” e “cavalo” são representados pelo mesmo fonema, só diferenciados pela entonação. Já pensou? Melhor começar agora mesmo a rebelião pró-nacionalismo.

Sem chegar ao extremo de confundir mãe com cavalo, todo mundo tem histórias de mal-entendidos linguísticos para contar. Eu também já protagonizei alguns, mas prefiro as histórias de gringos que tentaram falar português. Vingancinha…

Tem aquela do americano de quase dois metros de altura que precisou ir para São Paulo de ônibus-leito. Ele sabia que no ônibus algumas poltronas tinham um espaço frontal um pouco maior do que outras, tudo que ele precisava para acomodar suas long legs (oops!). Na hora de comprar a passagem, não teve dúvidas ao pedir no guichê da rodoviária “um leitão para São Paulo”.

Outra de americano. Surpreso ao constatar que uma colega de trabalho, usualmente vista de calças compridas, estava naquele dia trajando uma saia, disse: “Você já viu a fulana sem calças?” A gargalhada foi geral. O americano passou o resto do dia pedindo desculpas.

Esta é de austríaco. O gringo tinha ouvido no rádio uma música muito alegre que falava de cozinha e queria comprar o disco a qualquer custo. Todo mundo tentou ajudar cantarolando as músicas que conhecia sobre o assunto, desde “água no feijão que chegou mais um”  até  “com açúcar, com afeto”. Inútil. Um belo dia, ele estava almoçando com alguns amigos brasileiros, quando ouviu tocar no restaurante a tal música: “é esta, é esta”. Era a Beth Carvalho cantando: “ó, coisinha tão bonitinha do pai”. Quem atira a primeira pedra, ainda mais agora que os chineses estão chegando?

Todas as línguas são cheias de armadilhas, e algumas parecem piadas prontas. Conheci um sujeito que foi estudar italiano e na primeira semana ouviu o professor dizer: scarpa sinistra. Diante de tão solene expressão, não se conformou de que significasse apenas sapato esquerdo. Largou as aulas. Depois se arrependeu ao constatar que em português também havia solenidades semelhantes. E citou uma: o andaaar tééérreo. Mas, a essa altura, já tinha perdido o ânimo de estudar italiano.

Outro brasileiro se esquivou de estudar alemão dizendo que não via interesse algum em uma língua em que sol é feminino, lua é masculino e mocinha é neutro.

A conversa está boa, mas vou ter que parar por aqui, porque está na hora do meu personal hairdresser chegar. Como será que se diz isso em chinês?

 

 

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