Elementar, meu caro Watson

Na semana passada falamos sobre a fantástica criação da figura do detetive como personagem de ficção. Isto aconteceu quando, em 1841, Edgard Allan Poe apresentou Auguste Dupin.

Hoje, ao lermos seus contos, os argumentos podem nos parecer um pouco ingênuos. Mas na época, os primeiros leitores de ficção policial ficaram maravilhados. Poe queria que o gênero policial fosse intelectual/fantástico, fruto não apenas da imaginação, mas especialmente da inteligência. Por ser americano, ele poderia ter situado seus crimes em Nova Iorque, mas assim o leitor ficaria imaginando se as coisas se desenvolveram realmente desse modo, se a polícia de Nova Iorque age desta ou daquela maneira. Tornou-se mais cômodo e mais livre que tudo ocorresse em Paris, no bairro deserto de Saint-Germain. Por isso, o primeiro detetive da ficção policial é um estrangeiro, um francês.

Por que um francês? Porque quem escreve a obra é um americano que necessita de um personagem distante. Para fazer com que seus personagens se tornem invulgares, mostra-os vivendo de uma maneira diferente da dos outros homens. E também o investigador era um aristocrata e não um policial. Com isso, ele já coloca um pouco em ridículo a polícia e seus métodos, que não são frutos das deduções da inteligência, estabelecendo alguns padrões que foram seguidos por vários autores. O narrador é amigo/discípulo do investigador, a reflexão predomina sobre a ação, o final precisa surpreender o leitor.

Para nos situarmos no tempo, Poe publicou Os Crimes da Rua Morgue em 1841. Em 1887 surgiu Um estudo em Vermelho, que apresentava ao público o maior detetive de todos os tempos: Sherlock Holmes.

Criado pelo britânico nascido na Escócia Conan Doyle, Holmes é o detetive que, quando o autor se cansou dele e o matou, teve que ser ressuscitado. Seus leitores o amavam tanto que o exigiram de volta!

Suas histórias são contadas pelo médico, amigo e admirador, Dr. Watson. Falar sobre esta dupla é uma ousadia diante dos milhares de biografias e estudos que existem a seu respeito. Como temos falado da criação da personalidade do detetive, vamos nos ater a essa parte. Dupin aparecia nas narrativas de Poe apenas como uma “maquina de pensar”. Sherlock Holmes, além de ser um detetive com mente dedutiva, mostra uma personalidade marcante. Holmes, entre outras características, tem profundas crises de melancolia e se deleita tocando violino.

Segundo alguns indícios que seus biógrafos captaram, Holmes nasceu em 6 de Janeiro de 1854 , filho de um agricultor e de uma mãe de origem francesa, pois sua avó era filha do pintor Horace Vernet. Seu irmão mais velho, Mycroft, trabalhava para o Serviço Secreto britânico. Mycroft passava a maior parte do seu tempo livre no Diogenes Club. Segundo Holmes, seu irmão Mycroft não somente era mais brilhante do que ele próprio, como também possuia um senso de observação e dedução muitas vezes superior ao seu. Numa das aventuras de Holmes, onde ele encontra o seu irmão Mycroft diante do Diogenes Club, os dois mantêm um diálogo recheado de deduções sobre um transeunte que deixa Watson completamente atônito.

Após os seus estudos, o jovem Sherlock Holmes instala-se como detetive em Londres, onde divide um apartamento no famosíssimo endereço em Baker Street. Até hoje muita gente visita o endereço, com a certeza de que Holmes e Watson lá viveram.

Poe não informa ao leitor nenhuma característica do seu narrador. Não se sabe seu nome, sua aparência física, sua idade. Sabe-se apenas que ele é um amigo fiel e companheiro de moradia de Dupin. Conan Doyle transforma o narrador. Criou um personagem com uma inteligência um pouco inferior à do leitor, a quem chama de Dr. Watson. Ele não para de se maravilhar e é sempre influenciado pelas aparências, deixando-se, por gosto, dominar por Sherlock. Relata suas proezas intelectuais, ajudando o leitor a se adiantar ao narrador na solução do enigma.

Assim, se muitas vezes o leitor não consegue acompanhar os elos das equações mentais do detetive, sente-se, por outro lado, gratificado pela sensação de superioridade mental em relação ao narrador: elementar, meu caro Watson!

 

4 comentários em “Elementar, meu caro Watson

  • 09/08/2011 em 23:09
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    Sua elegância no trato das letras torna-se evidente na leitura de seus textos. Mergulhar no universo policial, através do olhar de Vera, é certeza de encontrar uma trama bem amarrada e envolvente.

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    • 10/08/2011 em 12:16
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      Obrigada Cláudia, Como falei para a Priscila, essa coisa de prender o leitor na trama da história, me fascina! beijo grande

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  • 09/08/2011 em 19:26
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    Sou meio suspeita quando elogio a Vera. Antes de mais nada ela é minha amiga, coisa de que muito me orgulho, mas sua escrita é sempre muito elucidativa. Obrigada Vera por mais essa lição.

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    • 10/08/2011 em 12:15
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      Obrigada Priscila. Tenho mania de saber a história das coisas!!!! E do romance policial é um mundo maravilhoso! Essa coisa de prender o leitor na trama da história, me fascina! beijo grande

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