Ébano e Marfim

Entrei. Ele me reconheceu; lembrava-se de mim, de quando chegou ao hospital e ali nos encontramos, sem combinar. Naquela ocasião, conversamos descontraidamente. Ele sentia um desconforto, mas como já de há muito o acompanhava, tinham se acostumado um com o outro, assim desse jeito, sem se preocupar.

Mas numa noite, de repente, aquilo com que já estava acostumado doeu diferente. Não era um sofrimento comum, desses que vêm devargazinho e a gente releva, para não dar trabalho aos outros. Parecia esses anzóis que agarram no dedo, rasgando e entrando fundo, desanimando a gente até de pescar. Por que será que ele se revoltou? É um desses mistérios que um homem comum como ele não saberia explicar.

O certo é que o filho insistiu para que fossem ao posto de saúde tirar qualquer cisma. Podia ser só um desarranjo, tentou argumentar, mas o filho, que graças a Deus teve mais instrução do que ele, quis porque quis que um doutor pudesse examiná-lo. Que olhasse aquilo de perto, que descobrisse a razão de tanto incômodo que não saía do lugar. No posto, um médico, muito jovem, apertou pela primeira vez sua barriga, mexeu na danada de lá pra cá.

Dali em diante, como ele me contou, todo mundo se achou no direito de fazer do mesmo jeito, sem sequer lhe perguntar, e o médico disse que era o caso de ir para o hospital. Um aperto, desses que dá na gente de vez em quando, apertou-lhe o peito. Mas, se era para curar, para ficar bom, não tinha jeito, era melhor aceitar a situação. Assim chegou ele ao hospital.

Agora era diferente; ele esticou o braço para me cumprimentar, como amigos fazem ao chegar. Fui caminhando em direção ao recipiente de sabonete, junto à pia que se encontrava no canto direito do quarto, para lavar de novo as minhas mãos. Quando terminei e me voltei para o leito, vi que não poderia fazê-lo. Seu corpo negro jazia sobre os lençóis muito brancos, como se um grande tronco de ébano estivesse tombado sobre um leito de marfim. Eu disse que seria melhor não cumprimentá-lo, uma vez que, pela informação que tinha recebido e esquecera momentaneamente, ele iria ser operado naquela noite ou logo pela manhã.

Expliquei a ele que, apesar de todo meu cuidado, estava com medo de que uma sujeira se agarrasse nos meus dedos ou debaixo das unhas igual a um cachorro quando se esconde debaixo da cama, com medo de tomar banho. Esses bichinhos miúdos, prossegui, desses que a gente não vê e que moram no hospital, eram iguaizinhos. Ele entendeu, e ali parado vi que dos seus olhos amarelecidos, o que me causou desde o início preocupação, uma lágrima começava a fugir, pequena e sofrida. Descia devagar, como se procurasse um caminho. Ele disse que entendia o doutor, era assim que ele me chamava, por conta do jaleco branco ou pelos meus cabelos que se tornavam aos poucos da mesma cor.

Eu tinha sido instruído formalmente a não tocar os pacientes, não por frieza, mas por cuidado. Infecção hospitalar viaja pelas mãos daqueles que a querem atacar; corpos de há muito fragilizados poderiam facilmente ser afetados por uma falta de cuidado ou de jeito. Não sou médico, estudo psicologia, sei apenas que nada sei da forma física do cuidar.

Ele começa a me contar que trabalhou muito, como pedreiro e como vigia, em todo tipo de construção, nas quais o mandavam trabalhar. O patrão sempre gostou dele, do seu serviço, que ele fazia com gosto, do jeito como tem que ser feito. Falava, e a danada da lágrima tímida do início resolveu passear. Dizia essas coisas olhando para um outro lugar, distante daquela cama de lençóis brancos que insistiam em me atormentar. Eu escutava, tentando segui-lo pelos caminhos que ele tão bem conhecia, não querendo atrapalhar.

Ele parou de repente e me perguntou se aquele negocinho dentro de seu nariz tinha saído do lugar. Eu lhe disse que não, mas minha preocupação era outra: o oxigênio que lhe estava sendo ministrado me causava mais preocupações; era o que permitia que ele falasse. Assim ficamos os dois, presos um ao outro como nó de rede, eu na ponta de um barranco, ele um tronco querendo se desgarrar. Eu disse a ele que tudo ia correr bem, mas ele parecia distante, andava ainda pelas obras, caminhando por todo lugar. Fiquei parado ali, esperando.

“Doutor”, disse ele, “quando a danada da operação finalmente acabar, vou ver o senhor de novo.”

“Com certeza”, foi o que pude falar. O peito que agora apertava, com a dor que vinha sem remorso, era o meu.

Deitado no fundo da floresta, o jacarandá se esparramava no chão. Sobre ele deitava-se um cão; algumas folhas espalhadas aqui e ali diziam do tempo e do lugar. O velho pau doente tinha caído no chão. Outrora um colosso impune, ali estava se deteriorando bem devagar.

No fundo da floresta, um pé de jequitibá destacava-se no ambiente, tomando seu lugar.

 

 

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