É o caos!

No início havia certo e o errado, segundo fui aprendendo ao poucos em casa, nas escolas e no convívio com os outros. Seguiu-se o bem e o mal. Parecia muito fácil na minha infância. Um dia, na escola primária, esqueci de trazer o dever de casa feito. Oh! E agora? Algum castigo viria na certa, porque o certo era trazer o dever de casa feito! Olhei para os lados e abri a memória. Lembrei de ter visto acontecer o mesmo com outras crianças, e como elas resolviam. Algumas levavam uma bronca vergonhosa da professora na frente de todo mundo. Vergonha. Outras copiavam correndo o dever de casa de algum coleguinha, por bem ou por mal. E iam para a sala de aula com a mais virtuosa cara de pau. Eu não tinha experiência com nenhum desses expedientes, então, a probabilidade de falhar era grande, pensa rápido, pensa rápido, já tocou a campainha para entrar!

Como um raio, passou pela minha mente a lembrança de uma menina com quem dei de cara saindo do banheiro e depois não a vi mais na sala, pelo menos não mais durante aquela aula de Matemática, que era a mais temida — pelo assunto e pela professora, de unhas compridas e aduncas, pintadas sempre de rosa, batucando nas superfícies retas.

Dois e dois são quatro, acendeu-se uma luz na minha mente e eu entendi tudo: entrei no banheiro e lá fiquei até a maldita aula acabar. Ninguém notou. Não fui repreendida: saí completamente ilesa.

Daí para frente percebi que essa divisão não era assim tão rigorosa: havia brechas, atalhos, mil formas de se driblar o castigo que vem como consequência do errado e a recompensa como compensação do certo. Descobri tarde: muitas criancinhas já sabiam disso há muito tempo.

Seguiu-se o tempo e as mudanças que o acompanham, até que de repente eu estava no meio da revolução sexual, do feminismo, da queima de sutiãs, hippies, cabelos compridos, saias compridas, rock’n’roll, Beatles, gurus indianos, maconha, incensos, meditação, gente largando seus empregos para sair da escravidão do sistema e ir viver no mato, de volta à vida natural. Manifestações contra a guerra e a violência, “PAZ e AMOR!”, era o lema. Abaixo as convenções! Liberdade, ainda que tardia!

Não faz tanto tempo assim, não é, caros colegas, e quem sobreviveu ou nasceu depois disso é testemunha do desenrolar dos acontecimentos e ideias até hoje.

É claro que o que era sonho acabou, como vaticinou aquele famoso colega que morreu assassinado em frente à sua casa.

Órfãos de direção e sentido, os idealistas, acompanhados pelos oportunistas, tentaram várias vertentes de ideologias, algumas bastante bizarras: góticos, vampiros; o lado obscuro, perigoso ou secreto, o oposto do sonho, já que este não deu certo.

Agora vale tudo, de alto a baixo em todas as camadas sociais civilizadas. Manchas, borrão e corrupção em qualquer lugar. Muitos falaram e falam, a toda hora, de fim do mundo, de início de Era. Outros buscam freneticamente algo que os conforte ou anestesie, seja uma religião dogmática ou radical, uma droga, um hábito compulsivo.

Legal. Significa que estamos no Caos — o fim da linha; o abismo insondável. Naquele lugar vazio obscuro e ilimitado que precede e propicia a geração de algo novo, realmente diferente de tudo o que já tenha existido antes. É muita mudança! Novo, mesmo!

O que significa que, para começar, seremos forçados a melhorar nosso desempenho como seres humanos. No fim da linha, não há a opção de recusa.

 

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6 comentários em “É o caos!

  • 07/07/2012 em 12:05
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    Legal… Eu também passei por estas “Veredas”…chegando a conclusões um pouco diferentes.
    Perdemos muito tempo com as “Ondas” externas… diz que “Paz E Amor”, “Politicamente correto”,”Sustentabilidade”…. Pura Balela.. alguns sempre estão fora destas… estes realmente aproveitam sua existência….. Não temos que mudar nada em nós….

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  • 07/07/2012 em 10:27
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    ‘O que significa que, para começar, seremos forçados a melhorar nosso desempenho como seres humanos’
    Gosto de ler o que vc escreve!
    Abraço

    Resposta

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